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Livro, que livro? Sexta-feira, 13, é dia de fantasia na Bienal

Ciique aqui para ver algumas das fantasias que desfliaram pelo Pavilhão de Exposições do Anhembi na última sexta-feira

A universitária Stephanie Marques, 22, pegou dois ônibus e ainda metrô para chegar à 21ª Bienal do Livro de São Paulo. Em toda a viagem, foram poucos os que quiseram se sentar ao seu lado. Difícil entender, já que Stephanie – ao contrário de muitos que se trajaram a rigor para a sexta-feira, 13, data em que o evento ofereceu entrada livre aos que aparecessem fantasiados – estava vestida de Alice, a simpática personagem de Lewis Carrol. No Pavilhão de Exposições do Anhembi, zona norte da cidade, o que mais se via entre os que entraram na brincadeira – e na promoção – eram roupas negras. Do cineasta José Mojica Marins, um dos convidados da feira, à estudante Gabriela Nunes, 15, encarnação mirim da cantora Lady Gaga, o preto e o excêntrico se espalhavam pela Bienal.

“Andar fantasiado é coisa de adolescente”, diz a escritora Rosângela Silva Manha, 30 anos certamente já vencidos, lentes azuis sobre os olhos castanhos e uma capa preta, com bichos prateados, sobre o corpo. “Eu vim assim para não pagar ingresso e fazer a divulgação do meu livro, ‘Sonhos de uma Vampira’, que saiu com uma remessa de 30 exemplares.” Apesar da tiragem tímida, financiada pela própria autora, Rosângela crê na capacidade comercial dos vampiros. “Eles fascinam pelo poder que têm. São livres e dominam as mentes.”

Outra escritora que entrou no clima para não pagar a entrada de 10 reais foi Ana Wilinski, 39. Vestida de Morticia Addams, ela distribuía, com ajuda do irmão e dos sobrinhos, folhetos sobre seu livro – que nada a tem a ver com vampirismo, o grande tema dos debates da sexta-feira, 13, na Bienal. “‘Chuva de Flores’ é uma obra de poesias relacionadas a flores. Há um poema para cada flor.”

Entre os convidados para os debates, realizados no Salão de Ideias da feira, estavam Mojica Marins, o escritor André Vianco – talvez o escritor brasileiro mais bem sucedido no segmento vampiresco – e o canadense Dacre Stoker, sobrinho-bisneto do pai do “Drácula”, que teve um problema no embarque para o Brasil e conversou com o público por videoconferência. “Esses autores foram incluídos na programação para que o evento não perdesse essa faixa de mercado”, explica Manuel da Costa Pinto, um dos curadores desta edição da Bienal. Convidado a teorizar sobre o sucesso dos vampiros no mercado editorial, Costa Pinto arrisca uma teoria. “A gente vive em uma cultura muito hedonista, que suscita movimentos depressivos.”

Teoria diversa tem o escritor André Vianco, que fala com a reportagem entre uma foto e outra com fãs. “A fantasia tira o leitor do dia a dia, das insatisfações da rotina”, afirma. E dá, sem querer, uma dica a quem quer se tornar um best-seller como ele, cujo livro mais vendido, “Os Sete”, já teve mais de 700.000 exemplares comercializados. “O escritor de fantasia é o mais malandro de todos, porque é fácil pegar o leitor pela fantasia. Difícil é escrever sobre a realidade.” Pouco antes, Mojica Marins também havia defendido o hábito de ler, recomendando que fosse estimulasse desde cedo.

Nem todo leitor de vampiros chega ao tema pela prosa, porém. O estudante Marcos Henrique da Silva, 18, é fã de mangás vampirescos. De um deles, “Helsing”, ele tirou o personagem que vestiu ontem, o caçador de vampiros Alexander Andersen. Como todos os fantasiados da sexta-feira, 13, Silva era muito requisitado para tirar fotografias nas ruas do Pavilhão de Exposições do Anhembi, entre os carrinhos de sorvete e de chope – 5 reais em copo de plástico – que passavam em frente aos estandes das editoras. Cantadas, no entanto, ele afirma não ter recebido. “E não me importo, estou fechado para isso.”

Já a Alice de Stephanie Marques ouviu pilhérias em seu caminho quase solitário rumo à Bienal. A universitária, que é praticante de CosPlay (abreviatura para Costume Play, o hábito de vestir personagens), tem cinco fantasias em casa: de Lily (mãe do bruxinho Harry Potter), de Afrodite (da série de livros “Percy Jackson”, baseada na mitologia grega), de Nessie (da saga “Crepúsculo”) e da Princesa Kitty (do jogo Mario Bros.). Mas, pelo que indicam os comentários suscitados pelo vestido azul e branco de Alice, esse é um dos mais populares. “Se você deixar, eu te levo ao País das Maravilhas”, disse um engraçadinho na rua. “Deixa eu ser seu chapeleiro, que eu te deixo maluca”, atacou outro. Stephanie não se importa. Mesmo pagando ingresso, garante que irá mais dois dias fantasiada ao Pavilhão de Exposições do Anhembi.