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Livro inédito de Umberto Eco chegará às livrarias em 27 de fevereiro

Obra estava inicialmente prevista para maio. Funeral do escritor ocorrerá em Milão na próxima terça-feira

Inicialmente anunciado para maio, o livro inédito que o escritor e intelectual Umberto Eco deixou será lançado na Itália em 27 de fevereiro. Autor de O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault e O Cemitério de Praga, entre outros romances e livros acadêmicos, Eco morreu nesta sexta-feira, aos 84 anos, em sua casa em Milão. Segundo a agência de notícias Ansa, o anúncio do lançamento do livro póstumo foi feito por colegas do escritor na editora La nave di Teseo, co-fundada por ele. A editora relançará ainda os trabalhos de ensaio e romances do pensador italiano.

Ao jornal La Reppulica, o curador editorial de Eco, Mario Andreose, anunciou que o livro tem o título de Pape satan aleppe. A obra, segundo ele, será um “grande entretenimento”. “Entre as várias partes do livro , algumas das quais são pura comédia, Eco analisa a identidade do papa Francisco. Ele tinha um grande respeito pelo papa”, afirmou. De significado incerto, o nome da publicação faz referência a um verso de Dante Alighiere em O Inferno.

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Filósofo, crítico literário, semiólogo e romancista traduzido em mais de quarenta idiomas, o italiano transitava com desenvoltura entre o mundo acadêmico e os best-sellers. Nascido em 1932, na cidade de Alexandria, localizada na região italiana do Piemonte, Eco já era um intelectual respeitado quando lançou seu primeiro romance, O Nome da Rosa, em 1980. Na obra, um frade franciscano inspirado em Sherlock Holmes investiga crimes misteriosos em uma abadia na Idade Média. A mistura de erudição e narrativa envolvente agradou público e crítica, e o livro foi um sucesso mundial. A obra ganhou uma também bem-sucedida adaptação para o cinema com Sean Connery – e transformou Eco em um dos maiores fenômenos literários do século XX. Sobre a conciliação entre suas duas facetas – a de acadêmico e a de autor pop -, Eco dizia: “Eu sou um filósofo. Escrevo romances apenas aos fins de semana”.

A estética medieval, as seitas secretas e, claro, as teorias conspiratórias são temas recorrentes na obra do escritor – um fascínio que ele compartilhava com seus milhões de leitores. Em O Pêndulo de Foucault, um plano conspiratório feito por diversão sai do controle quando os personagens passam a ser perseguidos por uma sociedade secreta real. Em O Cemitério de Praga, que se passa no final do século XIX, o avô do protagonista é um antissemita que acredita que maçons, templários e illuminatis orquestraram a Revolução Francesa. No seu último romance, Número Zero, lançado no ano passado, um comendador cria um jornal somente para chantagear seus inimigos.

“A característica de uma conspiração verdadeira é que ela é invariavelmente descoberta”, disse Eco a VEJA em 2015. “O perigo está nas conspirações falsas, pois você não consegue desmenti-las – mas elas se prestam à manipulação: quem quiser tirar proveito delas poderá montar contraconspirações muito reais.” Tanta conspiração rendeu um gracejo que Eco gostava de repetir em suas últimas entrevistas. “Eu inventei Dan Brown”, dizia ele, com uma boa dose de acidez, sobre o autor de O Código Da Vinci. “Ele é um personagem do meu romance O Pêndulo de Foucault. Eu o inventei. Ele compartilha da fascinação de meus personagens pelo mundo das conspirações. Suspeito que Dan Brown nem sequer exista.”

Em junho de 2015, por ocasião do lançamento de Número Zero, o escritor recebeu a reportagem de VEJA para falar de literatura, jornalismo e também internet. “Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende”, disse. “A internet é como Funes, o memorioso, o personagem de Jorge Luis Borges: lembra tudo, não esquece nada. É preciso filtrar, distinguir. Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informações”. A causa da morte não foi oficialmente informada, mas Eco foi diagnisticado com câncer de pâncreas há dois anos. O escritor será velado em Milão, em cerimônia no Castello Sforzesco, que Eco conseguia avistar da janela de sua casa.