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Lady Gaga chora no Rio e diz: “Nunca vi pessoas tão felizes como nas favelas”

Cantora se apresentou nesta sexta no Parque dos Atletas, para 40.000 pessoas. No domingo, ela canta em São Paulo, e na próxima terça, em Porto Alegre

Por Carol Nogueira - 10 nov 2012, 03h29

Certas estratégias aplicadas pelos artistas para criar empatia com o público já são manjadas. Entre elas, convidar fãs ao palco, enrolar-se na bandeira do Brasil, falar palavras no idioma do país e elogiar a tudo e a todos, mesmo sem conhecer nada direito. Pode-se pular essa parte, portanto, e dizer que Lady Gaga fez tudo isso no show desta sexta-feira, que aconteceu no Parque dos Atletas — seu primeiro da turnê Born This Way Ball no Brasil. No entanto, algo inusitado aconteceu na apresentação, quando, enquanto cantava a música Hair sentada ao piano, acompanhada de três fãs que chamou ao palco, Gaga desabou em lágrimas.

A sessão chororô não é novidade nos shows da cantora — ela costuma se emocionar em algumas apresentações, em momentos variados do show. Porém, ainda que o choro não tenha parecido muito verdadeiro, já que a voz dela não ficou embargada nenhum segundo, o momento teve lá sua dose de emoção. Gaga chorava acompanhada de um dos fãs, que desde que subiu ao palco não parou de derrubar lágrimas, o consolava, abraçava, beijava. No fim, deu a ele uma camiseta, o mandou de volta para a plateia e ficou por isso mesmo.

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Apresentação cronometrada – O show começou pontualmente às 22h20, horário para o qual estava marcado, e terminou à 0h20, como também era previsto. Além da pontualidade, o show de Gaga impressiona por transcorrer exatamente de acordo com o roteiro. Todas as músicas enfileiradas na mesma ordem, cantada nas mesmas posições. Cada música tocada parece ser cronometrada segundo a segundo, de forma que quando uma acaba, outra começa. Outro ponto que impressiona é o cenário em formato de castelo medieval, que chega a parecer uma construção de verdade, de tijolinhos marrons.

Assim como o castelo, toda a cenografia e os figurinos da turnê são impecáveis. Gaga muda de roupa praticamente a cada música, já os dançarinos trocam a cada um dos quatro atos do show. Vale dizer que Gaga, ao contrário de praticamente todas as atuais estrelas pop, não tenta dançar de maneira sensual ou passar uma imagem sexual durante o show — muito pelo contrário, aliás, já que a cantora ostenta uma pose malandra e, quando faz algo remotamente relacionado a sexo, é sempre tão fora do contexto que causa mais riso que outra coisa, e o mesmo vale para a dança, que é quase infantil.

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Há de se convir, ainda, que Gaga não se enquadra exatamente dentro dos padrões de beleza — e, aqui, não se coloca em cheque os tais quilinhos a mais que ela teria ganhado, e que, se é que existem, não deram as caras no show do Rio. Vai ver ela anda tomando muita água de coco…

Clichês – Gaga segue a cartilha de “como ser simpática com o público” — falou “oi, galera”, “Brasil eu te amo”, e outras frases ensaiadas em português, várias vezes ao longo do show. Ainda assim, sua imagem no palco é muito pouco carismática, e o show acaba tendo de confiar mais nos elementos da cenografia e em todo o teatro entre ela e os dançarinos, para prender o espectador. O problema é que, uma hora, os truques de mágica cansam. E aí, quem entra em cena é a mulher, que acaba falando ainda mais clichês, como quando a cantora decidiu comentar sua experiência no morro do Cantagalo. “Eu estive na favela ontem e o que eu achei mais curioso foi que eu nunca tinha visto pessoas tão felizes. Mas eu os entendo. Eu também nunca me senti tão feliz quanto me sinto no Rio. Estar aqui mudou minha vida”

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Esses momentos não colavam muito com o público, que não parecia muito animado. O mesmo acontecia nas músicas mais conceituais de Gaga, que requerem certa explicação. Assim, algumas partes do show são bem maçantes. O povo gostou mesmo de ouvir os hits radiofônicos da cantora, como Just Dance, Poker Face (ambas do disco The Fame) e Bad Romance (do álbum The Fame Monster). Mas, de qualquer maneira, até as músicas conceituais descambam para pop eletrônico no fim, não importa como comecem — é o caso de Government Hooker e Scheiße (ambas de Born This Way).

No meio do poperô de pista de dança, porém, Gaga consegue mostrar algumas de suas qualidades. Evita ao máximo fazer playback e só o usa em poucas músicas (geralmente, as que têm mais efeitos na voz, como Scheiße), para, assim, poder mostrar que sabe cantar bem, ainda que sua voz não tenha nada de especial. Ela mostra, ainda, que é muito boa ao piano, em Hair, e também toca uma guitarra metaleira em Electric Chapel. O tom roqueiro, aliás, permeia boa parte do show, e dá tom mais pesado a músicas como Judas — durante a qual o castelo medieval do cenário se abre para revelar os músicos tocando dentro dele, algo que se repete durante o show.

Um dos poucos momentos de sinceridade de Gaga parece ter vindo quando a cantora pediu desculpas aos fãs pelo alto preço dos ingressos do show. “Eu sei o quanto os ingressos são caros, e é por isso que eu quero agradecer vocês por comprarem, gastarem dinheiro e virem ao meu show”, agradeceu.

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Fiasco? – Desde a semana passada, especula-se que a venda de ingressos para o show da cantora andava mal. A Time For Fun (T4F), produtora do evento, se recusava a comentar o número de vendas, no entanto, vários bilhetes estavam sendo distribuídos em ações promocionais — e até mesmo para funcionários públicos no Rio. No entanto, segundo a organização, 40.000 pessoas compareceram ao show hoje. É um número bem abaixo do que comporta o Parque (90.000), no entanto, a sensação no local era de que estava bem cheio. E, na saída, o empurra-empurra era tão grande que, talvez, tenha sido até melhor assim, com público menor.

Gaga canta neste domingo em São Paulo, no Estádio do Morumbi, e na terça-feira, no estacionamento da Fiergs, em Porto Alegre. Ainda há ingressos para as duas apresentações.

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