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Joss Stone e a alma de plástico do soul

Com muita voz e pouca emoção, o disco mais recente da cantora britânica sintetiza os equívocos das cantoras da nova - e aguada - soul music

Em Pillow Talk, de 1973, a cantora americana Sylvia Robinson – morta no ano passado – pedia ao namorado que trocasse a companhia dos amigos por uma noite de amor. Sylvia, muito de acordo com a sensualidade de sua própria letra, cantava em meio a arfados e gemidos que deixavam suas intenções muito claras, até para o ouvinte que não entendesse inglês. Pois Pillow Talk está em The Soul Sessions Vol. 2, disco de Joss Stone que chegou há pouco às lojas. A nova versão trocou as insinuações sussurrantes de Sylvia pela gritaria sexualmente explícita de Joss. Quase dá para dizer que o que era erotismo na voz da autora da música tornou-se pornografia com a intérprete inglesa. Esse é um dos muitos equívocos deste álbum que pretende homenagear o soul e o rhythm’n’blues americano. Joss solta o vozeirão, mas não o sentimento: fica presa à externalidade de uma música que, como diz o nome, exige que a cantora exponha a sua alma (em inglês, soul). Não está sozinha: entre as “desalmadas”, contam-se também Adele e Amy Winehouse, divas que fizeram do soul um dos gêneros mais populares do cenário pop atual. São passadistas que não entendem realmente o passado que pretendem recuperar.

Foi no início deste século que algumas crooners pop do circuito musical britânico começaram a ser convertidas em damas da música negra americana. Surgia o neo-soul, estilo que tem como característica um certo ar retrô, tanto nos arranjos das canções quanto no visual das cantoras. A fonte musical mais copiada é a Motown, gravadora americana que revelou Marvin Gaye e Stevie Wonder. A produção de moda inclui vestidões e cabelo estilo bolo de noiva. Joss Stone foi a pioneira dessa onda revival (ela só não aderiu ao figurino: prefere vestir-se como uma riponga tardia). Nove anos atrás, ela lançou o que seria o volume 1 de The Soul Sessions, com releituras para sucessos e faixas obscuras do universo do rhythm’n’blues e da soul music. A boa repercussão dessa estreia abriu as portas para outras candidatas a diva. Amy Winehouse começou mais próxima do blues e do jazz, mas foi transformada em uma soulwoman por obra do produtor Mark Ronson, que recrutou o grupo americano The Dap-Kings para embalar o revival dos anos 70 no disco Back to Black. Deu certo: esse segundo disco de Amy vendeu 30 milhões de cópias no mundo inteiro. Mas, pelos temas de sua música e pela atitude escrachada, a cantora continuou mais próxima do espírito mundano do blues do que da eterna busca pela redenção da melhor soul music. A despeito dos arranjos, Rehab, com sua franca celebração do alcoolismo, poderia figurar em um show de John Lee Hooker.

A galesa Duffy e a inglesa Adele vieram na esteira do sucesso de Back to Black. De voz nasalada, com um pé no soul e outro no pop dos anos 60, Duffy não se saiu tão bem: Endlessly (2010), seu segundo disco, vendeu mal. Adele fazia o gênero voz e violão quando o produtor americano Rick Rubin assumiu a produção do álbum 21. O disco vendeu tanto que salvou o ano fiscal da indústria fonográfica. Joss fez sucesso, sobretudo com o primeiro disco, mas já não é um grande fenômeno de massa, e Amy morreu em 2011. O trono de rainha do novo soul hoje cabe, portanto, à simpática (e açucarada) Adele.

Ninguém discute que essas artistas são, todas elas, ótimas cantoras. Mas classificá-las sob o rótulo do soul é tão equivocado quanto achar que Norah Jones canta jazz. Em geral, a interpretação delas é um festival de berros. A voz poderosa, no entanto, nem sempre foi exigência para uma cantora de soul: Diana Ross tem uma voz até pequena (pelo menos, em comparação com uma Aretha Franklin), mas sabe onde pôr sentimento. Tanto quanto a cantoria empostada, os arranjos do neo-soul são museológicos em seu esforço de arremedar a sonoridade de quarenta ou cinquenta anos atrás. Resulta daí um pastiche, sem vestígio da vitalidade da música daquele tempo. Atraem o ouvinte saudosista, que não acompanhou a evolução da soul music mais inquieta e viva – esta que hoje caminha ao lado do hip-hop, como se ouve nos discos de Mary J. Blige.

Não se confunda essa crítica a cantoras que por acaso são brancas com qualquer patrulha étnica. Embora originalmente negra, a soul music conheceu grandes intérpretes brancas, como Dusty Springfield (1939-1999), que todas as cantoras da nova geração apontam como referência. Mas Dusty – voltamos sempre ao mesmo ponto inescapável – cantava com emoção. É essa simples qualidade que falta a The Soul Sessions Vol. 2. Joss Stone chamou ao estúdio um veterano como o guitarrista Ernie Isley, dos Isley Brothers, para dar ao disco aquele selo de autenticidade. Mas não adiantou: é soul plastificado.