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Jorge Fernando: o furacão da comédia ligeira

O ator e diretor morreu no domingo 27, aos 64 anos, das complicações de um aneurisma da aorta abdominal, no Rio de Janeiro

Por Da Redação - Atualizado em 1 nov 2019, 09h48 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

O rapaz franzino do subúrbio carioca montou guarda na porta da Rede Globo com uma obsessão: ele queria ser ator de novelas. Corria o ano de 1978, e a audácia de Jorge Fernando chamou tanto a atenção do então poderoso diretor Walter Avancini que o rapaz saiu dali com um papel assegurado na série Ciranda Cirandinha — e o passaporte para uma das carreiras mais longas, bem-sucedidas e originais da televisão brasileira. Com seus olhos verdes sempre arregalados, a veia humorística afiada e um carisma ruidoso, Jorge Fernando tornou-se um ator muito querido e popular. Mas foi nos bastidores que ele deixou sua maior marca: a invenção de certo registro escrachado — e de altíssimo astral — na direção das novelas.

Jorge Fernando revelou muito cedo uma vontade incontível de estar em cena. Na infância, fez de seu quarto um pequeno palco teatral. Depois, sua desinibição atraiu os olhares em peças na escola que frequentava, no bairro do Méier. Na segunda metade dos anos 70, embarcou na contracultura, como integrante da fase tardia da trupe gay amalucada Dzi Croquettes. Na TV, faria questão de manter-se ativo como ator mesmo depois da ascensão ao posto de diretor.

Deve-se a ele o padrão vigente até hoje nas comédias ligeiras das 19 horas. Seu ponto de virada galopante foi Guerra dos Sexos (1983). Jorge Fernando dividiu com Guel Arraes a direção da trama, que trazia Fernanda Montenegro e Paulo Autran como primos e rivais. Foi o início de uma parceria antológica com o noveleiro Silvio de Abreu, de quem ele dirigiria arrasa-quarteirões tanto da faixa das 19 horas (Cambalacho, Deus Nos Acuda) quanto das 20 horas (Rainha da Sucata, A Próxima Vítima). Com exceção da última, o hiperativo artista acumulou a função de intérprete em todas elas. Também se desdobraria atrás e na frente das câmeras em Que Rei Sou Eu? (1989), de Cassiano Gabus Mendes, e Vamp (1991), de Antonio Calmon. Até seu último trabalho — Verão 90, exibido neste ano —, manteve um estilo ágil e alegre que viraria uma rara grife autoral na televisão. Creditava seu êxito à capacidade de ler a alma da audiência: “O público gosta de entender o que está vendo”.

Transmitir alegria na tela não requeria grande esforço: “Jorginho”, como era conhecido no meio, era uma figura expansiva que preenchia com bom humor os estúdios da Globo. Exibindo um physique du rôle distante do padrão magrinho do início de carreira, ele gritava, fazia caretas e cantava no trabalho — onde batia cartão sempre de bermuda. O personagem folclórico começou a enfrentar problemas de saúde em 2017, ao sofrer um AVC. Morreu no domingo 27, aos 64 anos, das complicações de um aneurisma da aorta abdominal, no Rio de Janeiro.

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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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