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Jô Soares volta ao policial e à era Vargas com ‘As Esganadas’

Novo romance do humorista fala de serial killer obcecado por gordas. Vale uma tarde de leitura - sem lanchinhos

“- Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium! Exitus Gula Demonium!

Irmã Maria Auxiliadora procura acompanhar-lhe a cadência, mas engasga na folha fina dos pastéis. Sofre um acesso de tosse. Tenta comer tossindo, o que se revela impossível. Nem mesmo a devoção da freira vence a barreira da física. Nesse instante, Caronte pega um punhado dos poucos pastéis que sobraram e soca-lhe goela abaixo. Num meneio, como um toureiro volteando a muleta, ele passa-lhe a estola tapando-lhe a boca e aperta o laço.

Antes de sufocar, polvilhada de açúcar de confeiteiro, irmã Maria Auxiliadora observa, horrorizada, a frente da batina de Caronte erguida pelo seu membro intumescido.”

O texto transcrito ao lado, embora seja uma amostra magra do romance As Esganadas (Companhia das Letras, 264 páginas, 36 reais), que o sempre polivalente Jô Soares lança neste sábado, resume o que o livro oferece. Neste retorno à trama policial e ao romance de época – mais especificamente à Era Vargas, pano de fundo de O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) -, Jô fala de um homem obcecado pela figura materna, que ele matou e segue matando em todas as gordas que encontra (na cena ao lado, ele está disfarçado de frade exorcista para matar uma rechonchuda freira). Sim, a mãe era gorda, palavra que Jô prefere a qualquer outro sinônimo ou eufemismo. Imune ao politicamente correto, o autor não tem medo de fazer humor com o que quer que seja. Mas nem por isso ele reencontra aqui toda a graça de seu livro de estreia, O Xangô de Baker Street (1995). O enredo de As Esganadas é simples e bem amarrado. A história gira em torno de Caronte, o dono da chique funerária Estige. O livro deixa claro desde logo que ele é um serial killer. Assim como o pai, que acabou se matando, Caronte foi sufocado por uma mãe tirana, e passa a vida a vingar-se dela. A relação é de amor e ódio, daí o personagem se sentir excitado ao matar jovens gordas com receitas portuguesas herdadas da “genitora lusitana” – o título de duplo sentido do livro se refere à fome voraz das vítimas e ao fato de elas morrerem sufocadas de tanto comer. Mas não há entre criminoso e vítima uma relação exclusivamente erótica – tanto que, antes de optar pela capa final, Jô Soares chegou a vetar uma versão que trazia a ilustração de uma avantajada e sensual pin-up, bastante diferente das quase melancólicas gordas do livro. Clique aqui para ler um trecho de As Esganadas, novo romance de Jô Soares.

Capa de 'As Esganadas', do Jô Soares Capa de ‘As Esganadas’, do Jô Soares

Capa de ‘As Esganadas’, do Jô Soares (Divulgação/VEJA)

Se o leitor sabe logo no início quem é o assassino, resta-lhe o suspense sobre a sua captura. Assim, por quase todo o livro se acompanha um divertido grupo à caça do serial killer: um delegado mal-humorado, seu assistente medroso e débil, uma moderna jornalista da revista O Cruzeiro e um ex-policial português inteligente. Piada pronta, ora pois, o gajo foi até amigo e personagem de Fernando Pessoa – o Esteves sem metafísica de Tabacaria, também tomado emprestado pelo escritor Valter Hugo Mãe para o seu A Máquina de Fazer Espanhóis (Cosac Naify, 256 páginas, 39 reais). É principalmente a partir das aventuras desse grupo, na busca pelo criminoso ou em incursões pela vida civil do Rio de Janeiro de 1938, ano de nascimento de Jô, que se dão as piadas nem sempre hilárias do romance.

Há passagens divertidas, sem dúvida, que garantirão ao menos um sorriso do leitor. Jô Soares é autor de entretenimento e se sai bem repetindo a fórmula de seus três livros anteriores, que juntos venderam mais de 1 milhão de cópias. As Esganadas, que sai com tiragem de 80.000, tem tiradas espirituosas e um pano de fundo interessante, povoado por personagens reais como Filinto Müller, o chefe da polícia política de Vargas, e Lourival Fontes, o ministro da propaganda. “Calma, para tudo tem saída”, solta Fontes após a tragédia que toma o Theatro Municipal do Rio na noite em que o Brasil e a Alemanha nazista estreitariam laços diplomáticos com uma ópera de Wagner – a tragédia é o surgimento, no palco, do cadáver de uma das vítimas do serial killer Caronte. “O meu departamento pode divulgar pela imprensa que se trata de um complô comunista”, explica o ministro.

Mas o romance perde com os excessos: com o uso de piadas antigas e com o didatismo que faz lembrar as vezes em que o humorista, em seu programa na Globo, interrompe o entrevistado para deitar conhecimento. Há tanta informação histórica que a bibliografia presente no final da obra lista quase vinte títulos consultados pelo autor. As Esganadas não é, de fato, um novo O Xangô de Baker Street. Mas vale uma tarde de leitura. De preferência, sem lanchinhos.