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Jazz Esquema Novo

O baixista, produtor e cantor Thundercat mostra a nova faceta do gênero em concorridas apresentações em São Paulo

 

 

 

Stephen Bruner é um americano de 32 anos que adora gatos. Seu nome artístico, Thundercat, foi inspirado num desenho da década de 80, onde um grupo de felinos espaciais lutavam contra um ser mumificado chamado Mumm-Ra (o personagem favorito de Bruner era Lion, o líder do grupo, porque “era um adulto aprisionado num corpo de criança). Thundercat ama tanto gatos que dedicou três de suas composições ao seu felino de estimação, Orion.  “Se você não possui um gato, nunca irá entender o meu amor por Orion. O meu relacionamento com ele é mais estável do que muitos dos meus namoros”, confessa. A paixão pela música é tão sólida quanto o casamento espiritual com os felinos. Baixista, compositor, produtor e cantor, Thundecat, que se apresenta hoje e amanhã no Jazz na Fábrica, projeto do Sesc Pompeia, em São Paulo (os ingressos estão esgotados, mas há outras boas atrações disponíveis), é figura de ponta do jazz atual. Mais do que um instrumentista inspirado, ele faz parte de um grupo de novos jazzistas – o cantor José James, os pianistas Robert Glasper e Jason Moran e o trompetista Christian Scott, só para ficarmos entre os mais conhecidos – que estão revitalizando o gênero com as batidas e os discursos do hip hop.

A contribuição do rap para o universo jazzístico ainda rende discussões acaloradas. A maioria dos músicos veteranos se fia no ideal de instrumentistas como Wynton Marsalis, um importante restaurador do gênero (ele é líder da Lincoln Center Jazz Orchestra, uma instituição que celebra os grandes feitos do gênero no início do século passado), mas contrário à modernidade. Os músicos jovens, contudo, enxergam no hip hop uma evolução  natural da música negra americana. “Foi o passo seguinte de um estilo que desde o gospel vem sofrendo mutações e absorveu as influências de seu tempo”, define o cantor José James – que, aliás teve uma longa conversa com Marsalis sobre isso (“A gente concordou que temos pontos de vistas diferentes”, resumiu). Bruner, ou melhor, Thundercat, prefere os mandamentos de outra lenda do jazz para se manter fiel à conexão com hip hop. “Eu toquei e gravei com Herbie Hancock, que por muitos anos foi da banda de Miles Davis. Ele me mostrou a importância de ousar e abraçar novas vertentes musicais”, confessa. Thundercat tem feito a lição de casa. Sua lista de colaborações vai do grupo punk Suicidal Tendencies ao rapper Kendrick Lamar, passando pelo jazz de vanguarda do saxofonista Kamasi Washington e o produtor de música eletrônica Flying Lotus. “O hip hop é um complemento do jazz. Nós pertencemos a uma geração que apoia essas mudanças.”

O marco zero da conexão do jazz com o hip hop se deu em 1992, com o lançamento de Doo Bop, do trompetista Miles Davis (1926-1991) com o rapper Easy Moe Bee. Como o músico morreu antes do lançamento do álbum (apenas seis faixas haviam sido gravadas), Bee utilizou trechos de ensaios e sobras de estúdio para completar o projeto. A ideia lançada pelo trompetista evoluiu para trabalhos mais consistentes, como o álbum Stolen Moments – Red Hot + Cool, que traz parcerias de rappers como MC Solaar, Guru e Digable Planets com lendas do jazz como o trompetista Donald Byrd,  o saxofonista Joshua Redman e o vibrafonista Roy Ayers, e Jazzmatazz, disco do rapper Guru, um dos melhores encontros de um versejador com um grupo de jazzistas. Um quarto de século depois, no entanto, as ideias de Davis ainda reverberam na nova geração de músicos. Tempos atrás, Thundercat presenteou o rapper Kendrick Lamar com Live Evil, álbum que o trompetista lançou em 1971 e composto de longos improvisos instrumentais. “Kendrick ouviu e disse que os caras deviam estar muito loucos durante a gravação”, diverte-se o baixista. “Mas o trabalho de Miles teve um efeito positivo nele porque hoje Kendrick prefere criar bases inspiradas no jazz ao invés de simplesmente samplear o que foi feito.”

Em fevereiro deste ano Thundercat lançou Drunk. É um disco ambicioso – e certamente um dos melhores do ano – no qual combina soul, jazz, hip hop e o pop radiofônico dos anos 80. Uma das surpresas de Drunk é a participação dos cantores Kenny Loggins e Michael McDonald, ícones das rádios FM e que receberam um quinhão de muxoxos e narizes torcidos por parte da comunidade de vanguarda da música – a dupla faz os vocais de Show You the Way. “Eu não me importo com isso, para mim são grandes músicos”, dispara o baixista. McDonald, aliás, foi tão onipresente nas paradas americanas que virou piada em O Virgem de 40 Anos, produção do cineasta Judd Apatow – onde o funcionário de uma loja de departamentos não aguenta mais assistir ao DVD ao vivo do cantor. “Um cara que vira uma piada dessas e leva na boa merece o meu respeito”, diz Thundercat. Outra participação bastante celebrada pelo baixista é a do rapper, cantor e produtor Pharrell Williams em The Turn Down. “Ele é um dos meus herois, sua contribuição para a música é algo imensurável.” The Turn Down nasceu de um encontro do baixista e Williams no estúdio, onde tocou trechos de melodias e composições – a que mais agradou ao rapper se transformou na canção ao ser trabalhada pela dupla. “É uma forma de dizer ‘obrigado’”, diz o músico.

Drunk, o álbum, traz também uma série de conexões com os anos 80, especialmente os timbres de teclados. “Sim, foi o período em que cresci e comecei a me interessar por música.” É um daqueles trabalhos que requerem uma audição bem apurada por causa das mudanças abruptas de andamento e ruídos – tem até um ronco ruidoso em Captain Stupido. A transformação dessas sonoridades e invenções no palco não será fácil. Mas espera-se de tudo de um sujeito que, assim como os gatos, tem sete vidas repletas de criatividade. Thundercat é a prova de que o jazz é um gênero à prova de estagnação.