Investigação sobre mim

Filho de Cristina Mortágua com o ex-jogador Edmundo, Alexandre faz filme sobre abandono paterno

Por Alexandre - Atualizado em 26 out 2018, 17h30 - Publicado em 26 out 2018, 07h00

Depois de realizar 28 entrevistas, escrever o roteiro e contratar atores, fiz recentemente um empréstimo em banco para finalizar meu filme, uma mistura de documentário e ficção, chamado Todos Nós 5 Milhões. Quero lan­çá-lo no primeiro semestre de 2019. Os 5 milhões do título referem-se ao número de crianças matriculadas em escolas públicas e particulares que não têm o nome do pai em seus documentos, segundo o Censo de 2013. Há muito mais gente sem pai no país. O recorte do filme é exclusivo para crianças que frequentam a escola — adultos sem pais, por exemplo, não aparecem na conta. Eu sou um deles.

Meu trabalho partiu desse dado alarmante para investigar o abandono paterno. No entanto, não é um estudo sobre a ausência. Se há buraco em nossa vida, ele é preenchido por alguma coisa. O filme fala mais sobre o que toma o lugar desse vácuo. Nem todo mundo fica sem uma pessoa que desempenha o papel de pai. Também há homens para os quais a paternidade significa fazer um depósito a cada trinta dias. Ouvi mulheres e filhos abandonados que desenharam uma nova construção familiar. Alguns caras afirmam ter abandonado o filho por culpa da mulher, acusada de “difícil de lidar”.

O filme é uma investigação, de certa forma ególatra, sobre mim mesmo para tentar abordar um tema universal. Nasceu da vontade de dar novo significado ao que não é bom. Evidentemente, decidi tomar um lado, marcar posição. Eu vivi isso. Sobre o meu pai, a única coisa que me incomoda é que tenho três irmãos, os quais não conheço, mas sei que tiveram o mesmo homem como pai que eu. E, por respeito a esse pai que os meus irmãos têm, não falo sobre o assunto. Eu e meu pai não temos uma relação como filho e pai. Exceto os torcedores do Palmeiras, em São Paulo, e do Vasco, no Rio, clubes nos quais ele fez carreira, as pessoas não me reconhecem na rua por ser filho dele. Mas acontece esse questionamento quando pegam o meu RG. Meus irmãos também são parecidos, minha irmã Carol é a cara do meu pai.

Sou um típico homossexual que não gosta de futebol. Por ter namorado só meninas até os meus 14 anos, nunca me imaginei um adulto gay. Minha mãe era cercada de homossexuais, mas não havia intimidade a ponto de eu conhecer a vida deles para me identificar. Só enxergava meu futuro ao lado de uma mulher. Cresci indo à igreja evangélica Sara Nossa Terra, até os meus 10 anos. Não ia por vontade própria, mas por causa da minha mãe. No entanto, acabava sendo legal para mim.

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Tempos depois, minha mãe trocou de igreja. Ela chegou a brigar comigo por eu ser gay, foi manipulada pelo discurso de uma fanática religiosa da entidade que frequentava. Havia ainda a preocupação enorme jogada só em cima dela por ser uma mãe solitária. Mas estamos bem, ela me aceita como sou. No fim da adolescência, já ciente de que eu gostava de homens, quis vir para São Paulo para achar a minha turma. Aqui estudei cinema e artes visuais, dirigi clipes da Manu Gavassi e da Gloria Groove.

Já frequentei igreja evangélica e não acho que ser cristão seja sinônimo de opressão. As lideranças religiosas, que representam mal os seus fiéis, é que monopolizaram o espaço de discussão. A esquerda não conseguiu explicar as razões da importância de ter aula de educação sexual dentro das escolas para uma menina saber o que é abuso sexual e poder se proteger dele. As igrejas acabaram tomando conta dessa questão. Na real, o preconceito nem sempre se dá porque a pessoa é ruim. Mas, sim, por ser mal informada. Não dá para acreditar, por exemplo, que os eleitores que votam em Jair Bolsonaro sejam fascistas.

Depoimento dado a João Batista Jr.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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