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Histórias Reais de Um Mentiroso peca por falta de domínio da linguagem documentarista

Dirigido pela jornalista Mariana Caltabiano, o documentário narra a história do estelionatário Marcelo Nascimento que inspirou o filme 'VIPs'

As reinações de Marcelo como falsário vieram à tona em 2001, depois de ele ser preso na companhia de celebridades enquanto se passava por filho do dono de uma das maiores companhias aéreas do Brasil. Era a ponta do iceberg.

A vida do estelionatário Marcelo Nascimento da Rocha é coisa de cinema. Tanto que virou filme, no caso, VIPs, história dirigida por Toniko Melo em que ele é interpretado pelo competente Wagner Moura. O filme venceu o último Festival de Cinema do Rio.

As reinações de Marcelo como falsário vieram à tona em 2001, depois de ele ser preso na companhia de celebridades enquanto desfrutava do bom e do melhor num carnaval fora de época no Nordeste, em que se passou por filho do dono de uma das maiores companhias aéreas do Brasil. Era a ponta do iceberg.

Aos poucos, desvelou-se o rol de impressionantes histórias do mentiroso contumaz e um golpista de lábia afiada, ex-piloto do crime organizado na fronteira do Brasil com o Paraguai, que enganou o departamento de combate ao narcotráfico dos EUA, incautos que acreditaram ser ele o guitarrista de uma banda de rock conhecida e até líder da facção criminosa PCC, numa rebelião no presídio onde está recolhido desde então.

O aprofundamento das histórias e da personalidade de Nascimento se deveu a jornalista Mariana Caltabiano, autora do livro VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso (Editora Jaboticaba), que serviu de inspiração livre para o filme acima mencionado e base para o documentário de mesmo nome lançado este ano, dirigido por ela.

Em relação ao livro, não há diferenças estruturais inovadoras, inclusive no roteiro das histórias, que começam ainda cedo, na adolescência de Nascimento, órfão de pai, debandando-se no mundo sem um tostão, ganhando todos na conversa mole e na capacidade de ludibriar. Coisa que, aliás, aconteceu com a própria Caltabiano, diversas vezes ao longo do processo de coleta dos depoimentos envolta em mentiras e pequenas chantagens que garantiram inclusive maiores ganhos financeiros para ele.

O problema é que, como o filme, o documentário parece menor diante do personagem. Como uma versão local e, portanto, tosca de Frank Abagnale, conhecido falsário americano que inspirou o filme Prenda-me Se For Capaz, de Steven Spielberg, Nascimento ficou agora registrado com um filme aquém das histórias que protagonizou, preocupado em compreender as suas motivações e traçar um perfil psicológico quando, muito provavelmente, as histórias bastariam por si de tão fantásticas e aventurescas, além de um documentário com abordagem equivocada e produção capenga.

No momento em que Caltabiano toma para si parte do protagonismo da história de Nascimento, na qual ela, com méritos, se aprofundou, expõe a primeira falha do documentário que pode ser resumida com falta de domínio da linguagem. Como dito antes, as histórias fantásticas de Nascimento bastariam e pouco importa como se chegou nelas.

A lista de erros se completa com uma produção manca, com problemas de captação de áudio e o auxílio de animações que dão um tom humorístico excessivo ao título, quando melhor seria ter optado pelo formato de docudrama, em que personagens fictícios interpretam fatos reais ou pela narração direta dos personagens envolvidos nos golpes, amparada numa edição ágil. Abagnale teve o seu impecável filme hollywoodiano. Marcelo Nascimento, pelo jeito e guardadas as devidas proporções dos seus casos, em VIPs e agora Histórias Reais de Um Mentiroso, ganhou algo que mais se assemelha a um trabalho de conclusão de curso universitário.

Assista ao trailer abaixo