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Festival de Cannes 2018: Sem selfies, mas com polêmicas

Evento francês estende tapete vermelho entre imbróglio judicial de um dos filmes e dois cineastas, celeuma com a Netflix e movimentos feministas no encalço

Aos 71 anos de idade, o Festival de Cannes tenta defender o direito ao uso do adjetivo “tradicional”. Os novos tempos tem dificultado tal desempenho. Para além de ser uma das datas mais prestigiadas do calendário cinematográfico, o evento francês, que acontece entre os dias 8 e 19 de maio, acumula significados, especialmente em um período que sua indústria se vê envolta em casos críticos, como a diferença salarial entre homens e mulheres e o escândalo de assédios sexuais desencadeados por Harvey Weinstein. O produtor, aliás, teria abusado de diversas de suas vítimas em Cannes. Para aplacar o problema, o evento disponibilizou este ano uma inédita linha telefônica anti-assédio para que vítimas ou testemunhas possam denunciar agressores.

Fora isso, o Festival continua em débito com as mulheres. O júri majoritariamente feminino, encabeçado por Cate Blanchett, vai analisar filmes predominantemente masculinos. Apenas três diretoras foram selecionadas entre os 21 concorrentes à Palma de ouro. Na história, Jane Campion, por O Piano (1993), foi a única mulher que recebeu a honraria. Cate, aliás, é uma exceção à regra: em 71 anos, apenas 12 mulheres foram presidente do júri. Vale lembrar que, em 2015, Cannes foi criticada por movimentos feministas e motivou protestos no ano seguinte por barrar convidadas sem sapato de salto alto.

Para deixar tudo ainda mais delicado, Cannes reabriu suas portas a Lars Von Trier, banido em 2011, após um comentário considerado nazista. O diretor de Ninfomaníaca foi acusado de assédio por sua ex-estrela Björk, com quem trabalhou em Dançando no Escuro (2000). Outras mulheres seguiram o exemplo da cantora e também relataram situações constrangedoras com o diretor nos bastidores.

A polêmica da diferença de representatividade de gênero quase foi abafada por farpas que o evento francês decidiu trocar com a Netflix. A relação entre os dois polos ficou abalada desde o ano anterior, quando o site de streaming se recusou a aderir à regra que um filme em competição só pode ter distribuição online três anos depois de sua estreia no cinema – sugestão insustentável para o modelo de negócio da empresa.

Thierry Frémaux, diretor do festival, não economizou nas alfinetadas contra o site, dizendo que “trabalhamos com cinema e queremos que nossos filmes em competição sejam lançados no cinema. Este é o modelo dos amantes do cinema e a Netflix tem que respeitar isso”. Em resposta, Ted Sarandos, diretor de conteúdo do site, soltou o verbo. “O festival escolheu celebrar a forma de distribuição no lugar da arte do cinema. Nós somos 100% voltados para a arte de fazer cinema. E, aliás, alguns festivais no mundo também são”, disse. “Não é coincidência que Thierry baniu até as selfies este ano. Qual outro avanço tecnológico pretendem proibir?” Sim, selfies foram banidas. E celulares podem ser confiscados caso não respeitem a diretriz.

Para completar o pacote de imbróglios pré-evento, uma pendência judicial na França decidiu mesta segunda-feira, dia 7, sobre a exibição do filme de encerramento, The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam. Uma interdição feita por Paulo Branco, ex-produtor do longa, pedia que o projeto, há 20 anos entre produção e dificuldades de ser lançado, continuasse na gaveta.

Barreiras legais também são parte da competição, mas em um caráter por assim dizer mais combativo. Dois cineastas da seleção oficial, o iraniano Jafar Panahi e o russo Kirill Serebrennikov, alvo de perseguição dos governos de seus países, não devem comparecer em solo francês justamente por problemas com a Justiça. “Os artistas necessitam mais que nunca que sejam defendidos, não atacados”, disse o Festival em comunicado que defendia também o filme de Gilliam.

Foram muitas as controvérsias antes mesmo da noite de abertura desta terça-feira. Afinal, ser tradicional dá trabalho.