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Festival de Berlim: oito horas de filme passam mais rápido que o imaginado

'Hele Sa Hiwagang Hapis', dirigido por Lav Diaz, promoveu uma experiência na competição de Berlim. O filme é um longo mergulho na história e na mentalidade das Filipinas

O filipino Lav Diaz e o 66º Festival de Berlim proporcionaram uma experiência incomum para jornalistas e público com a exibição de Hele Sa Hiwagang Hapis, ou A Lullaby to the Sorrowful Mystery (“Uma Canção para o Mistério Triste”, na tradução literal), com oito horas de duração, mais um intervalo de 60 minutos para o almoço. A reportagem do site de VEJA compareceu à sessão aberta para o público – numa sexta-feira, menos da metade da sala do Haus der Berliner Festspiele estava ocupada. E confessa: foi duro, mas menos do que o imaginado.

Diaz já tinha apresentado suas sempre longas obras em diversos festivais, mas foi a primeira vez na competição de um dos grandes (Berlim, Cannes e Veneza). Sem dúvida, foi um esforço de logística, tanto para quem cuida da programação quanto para quem cobre. Encaixar 480 minutos numa agenda bem apertada, no penúltimo dia oficial do evento, quando todo o mundo já está há mais de uma semana dormindo uma média de quatro horas por noite, foi um desafio.

E o cineasta gosta de tirar o público do conforto. Rodado em preto e branco, Hele Sa Hiwagang Hapis é longo também na duração de cada um dos planos. Sua preocupação é domar o espaço, mergulhar o espectador na paisagem, sem se preocupar com o tempo. Seu assunto é, novamente, o passado das Filipinas, deixando implícita sua influência no presente. Desta vez, ele foca na Revolução Filipina de 1896 e 1897, que lutou para libertar o país da Espanha – a independência viria em 1898. Foi uma luta violenta e complicada, que teve brigas entre os próprios revolucionários. Diaz não facilita a vida do espectador, deixando tudo obscuro durante as primeiras horas do longa-metragem. É complicado até entender quem são os personagens e quais suas relações, ainda mais porque o diretor mistura pessoas reais com outras fictícias e míticas. Mas é só ter (bastante) paciência.

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São dois núcleos principais. Num deles, o poeta pacifista Isagani (John Lloyd Cruz) encontra Simoun (Piolo Pascual), um dos líderes da revolução que acabou se aliando aos espanhóis em dado momento. Isagani tem uma rixa pessoal com ele. Simoun leva um tiro, e Isagani não consegue deixá-lo para trás, carregando-o pela floresta. Os dois foram inventados por Lav Diaz, que também escreveu o roteiro. Enquanto isso, Gregoria de Jesus (Hazel Orencio) procura seu marido, Andrés Bonifacio, que ela não sabe ter sido executado na mata por antigos colegas da revolução. Ambos são tirados da história filipina. Gregoria está acompanhada em sua missão por Cesaria (Alessandra de Rossi), Karyo (Joel Saracho) e Hule (Susan Africa). O grupo encontra figuras mitológicas das Filipinas, conhecidas como Tikbalang Engkanto (Bernardo Bernardo, Cherie Gil e Angel Aquino), misto de gente com cavalo. É uma escolha interessante mostrar o lado feminino numa luta como esta.

A obra discute a liberdade – em dado momento, Isagani pergunta “qual a verdadeira liberdade filipina?” -, a relação entre opressores e oprimidos, a violência que se repete ao longo da história do país, as brigas fratricidas entre os revolucionários, a dor de não poder enterrar os seus. Ao levar o espectador a viver naquela paisagem, Lav Diaz também faz com que ele entenda a história, a mentalidade e as dificuldades de todo um país. Mas não há didatismo, pelo contrário. Ele é exigente. Poderia ser um pouco menos, ajudando o público, pelo menos, a entender mais rápido o que se passa. As cenas que constrói são em geral bem compostas, com uma iluminação que alterna o fantasmagórico e o realista, mas por vezes erra feio, principalmente nas cenas de brigas ou de conflitos mais acalorados entre vários personagens. A pergunta principal: Hele Sa Hiwagang Hapis poderia ser mais curto? Um pouco, talvez. Às vezes dá a impressão de que algumas cenas se alongam só pelo prazer de se alongar. Mas não faria sentido o filme ser curto, simplesmente porque não é assim que Lav Diaz pensa o cinema.