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Feira de Frankfurt termina com promessas de mudança

Em 2015, a Feira de Frankfurt contará com quatro pavilhões, além do reservado ao país homenageado. A organização diz que a decisão condiz com a nova realidade do mercado: global, e não mais focado só nas editoras inglesas e americanas

Com os negócios entre editores encerrados na última sexta-feira, a Feira do Livro de Frankfurt, como de hábito, abriu suas portas ao público no fim de semana. O resultado foram corredores mais repletos, especialmente de jovens fantasiados de personagens literários, os cosplayers, que não pagam para entrar. Os debates também se tornaram menos técnicos. Era o momento para se acompanhar encontros com autores, especialmente estrangeiros.

O francês David Foenkinos foi um deles. No sábado, ele lotou a tenda do Ágora, espaço montado ao ar livre e que deverá receber mais eventos a partir de 2015. Com uma discreta, porém indisfarçável, irritação pelo desconhecimento do mediador sobre sua obra, ele buscou agradar à plateia ao revelar seu interesse pela Alemanha, onde lançou a tradução de La Tête de l�’Emploi, livro que escreveu inspirado na crise europeia. “A língua de seu país é a mais erótica do mundo. A musicalidade é muito sensual”, justificou ele, modificando ligeiramente a opinião depois de ouvir no idioma local a leitura do primeiro capítulo de seu livro feita pelo mediador. “Pensando bem, acho que uma mulher falando torna a língua mais erótica.”

A prosa de Foekinos lembra os filmes de Woody Allen: problemas existenciais embalados por um humor agridoce. O livro mostra o desabamento do mundo de Bernard, cinquentão que de repente perde tudo e é obrigado a voltar a morar com os pais. Isso desencadeia uma crise no casal de velhos que, ao final, obriga Bernard a tomar uma atitude. “Gosto quando os personagens se metem em confusões que os fazem sair da zona de conforto”, disse ele, que se inspirou em uma reportagem de TV.

Autores em busca da fama também aproveitaram a feira. É o caso do brasileiro Fernando Teixeira de Camargo, cuja estreia na literatura fantástica juvenil foi em inglês — o livroShanti and the Magic Mandala (Shanti e a Mandala Mágica) foi publicado pelo Lodestone Books, selo juvenil da inglesa John Hunt Publishing. “Enviei o argumento para várias editoras, mas eles responderam com interesse”, conta ele, que assina F. T. Camargo. O livro é uma aventura multicultural com abordagem mística e, apesar de recém-lançado, já recebeu a medalha de bronze no prêmio Moonbeam Children�s Book Awards, na categoria Young Adult Fiction – Spirituality.

Camargo lançou seu livro no pavilhão 8, que, a partir do próximo ano, não será mais usado pela feira. A fim de reduzir custos, os organizadores resolveram transferir as editoras ali instaladas (notadamente as de língua inglesa) para o pavilhão 6. Com isso, em 2015, a Feira de Frankfurt contará com quatro pavilhões, além do reservado ao país homenageado. A organização diz que a decisão condiz com a nova realidade do mercado: global, e não mais focado só nas editoras inglesas e americanas.

Outra mudança observada nos últimos anos é que as grandes promessas de best-seller são negociadas antes da feira. Entre os livros vendidos como futuros best-sellers, estão The Girls, de Emma Cline, de 25 anos, que teria sido comprado por mais de 1 milhão de dólares (no Brasil, sairá pela Intrínseca), e The Longings of Jende Jonga, da camaronesa de 33 anos Imbolo Mbue, que ficou com a Globo. A catalã Milena Busquets, de 42 anos, fez sucesso na feira com o ainda inédito También Esto Pasará.

Foi notável ainda o aumento do número de expositores da área de tecnologia. Bill Murray, CEO da HarperCollins, segundo maior grupo editorial do mundo, comentou as vantagens e desvantagens da proximidade entre as duas áreas: “No digital, a cada hora temos um novo parceiro, uma nova oferta de produto e novas possibilidades de promoção do livro. Empresas aparecem da noite para o dia, com dinheiro, e logo tentarão entrar no negócio do livro. Temos de estar na frente. Temos de experimentar ideias.”

(Com Estadão Conteúdo)