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Ettore Scola: onde a história toca (às vezes esmaga) o homem comum

Para ser conquistado pelo diretor italiano basta olhar para filmes como "Um Dia Muito Especial", em que os "grandes eventos da humanidade" se misturam à vida do indivíduo

A obra do cineasta italiano Ettore Scola, morto nesta terça-feira, aos 84 anos, é ampla, em filmes e assuntos. Por isso, é possível buscar nela muitos temas e interpretações. Para ser conquistado pelo diretor, porém, basta olhar para uma fração disso: a relação posta nos filmes entre a História – aquela com “h” maiúsculo, a sequência de “grandes eventos da humanidade” – e a vida do homem comum. Interessava a Scola, como ele deixou claro, a forma pela qual a história toca, às vezes esmaga, cada um de nós.

A dinâmica homem-história desponta em filmes como Um Dia Muito Especial, de 1977, e Concorrência Desleal, lançado duas décadas e meia depois. Em ambos, o pano de fundo, aquele que cai sobre os homens comuns, são o fascismo e o nazismo, testemunhados em vida pelo diretor e seus colaboradores.

Um Dia Muito Especial reúne dois mitos do cinema italiano: Sophia Loren (Antonietta) e Marcello Mastroianni (Gabriele). O encontro dos personagens acontece no dia da visita de Hitler a Mussolini em Roma, que realmente aconteceu em 1938. Ela é uma dona de casa alienada, ocupada com a criação da dezena (ou quase isso) de filhos e simpática ao fascismo por influência do estúpido marido. Como boa parte de nós, Antonietta não faz ideia de que o encontro daqueles dois homenzinhos (Hitler e Mussolini) tem relação profunda com sua vida doméstica. Gabriele é o inverso disso: um radialista libertário, afastado do trabalho pela perseguição fascista imposta aos refratários do regime, incluindo os “invertidos”.

Contra todas as probabilidades, os dois passam o dia juntos, numa jornada especial. E a história, aquela que depois vai ocupar os livros, se revela aos olhos de Antonietta no dia da festa nazi-fascista.

Concorrência Desleal usa uma história diversa para chegar a resultado similar. Um alfaiate vê seu negócio ameaçado por um novo vizinho, que vende roupas pré-fabricadas. A rivalidade entre eles parece insuperável até que o novo competidor, um judeu, é preso e arrastado pelos fascistas. Só então o alfaiate sente sobre os ombros o peso dos “grandes acontecimentos” à sua volta. A exemplo do que acontece com Antonietta e Gabriele, a jornada marcada por diferenças desperta a compaixão e esta amplia a visão.

Outros filmes de Scola retornam ao tema, ou melhor, à estratégia. É o caso de Nós que Nos Amávamos Tanto. Ele tinha clareza dessa escolha, como deixou claro em entrevistas. É possível concluir que o diretor tentava vitimizar o homem comum, reduzindo-o ao papel de coadjuvante. Parece pouco para Scola, porém. Podemos tirar outro sentido dessas histórias: mais do que subjugados, estamos intimamente entrelaçados a nosso tempo, a seus golpes e oportunidades, e assim somos em alguma medida protagonistas. É inescapável.