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Elas testam – e inspiram – a moda praia

Modelos que em nada lembram as mulheres das passarelas emprestam o corpo para estilistas e costureiras darem forma aos biquínis do Fashion Rio

Por Aline Erthal, do Rio de Janeiro - 23 maio 2012, 15h56

“Uma modelo de passarela é P de largura e GG de altura. Nenhuma menina comum é assim”, diz Lenny

Todo fim de semana, Rayanne desfila sua morenice pela Prainha. Gabriela ilumina a Reserva, Pâmela vai à Urca. Regina divide-se entre Maresias, Baleia e Cambori, enquanto Maieli vai a Ubatuba. Altas, baixinhas, magricelas, curvilíneas, saradas ou nem tanto: o que elas têm em comum é o fato de serem modelos de prova de algumas das principais grifes de moda praia do Brasil. Isso significa que é no corpo delas que os biquínis mais cobiçados do mundo são modelados, apesar de não desfilarem para o público das semanas de moda.

Antes das apresentações no Fashion Rio ou na São Paulo Fashion Week, dois tipos de modelos entram em cena: as de desfile e as de prova. As primeiras experimentam exatamente os biquínis que vão ser mostrados na passarela; por isso, seus corpos precisam ser como o das modelos que vão usá-los no desfile: altos e magros. Já as de prova têm tipo físico bem mais próximo das consumidoras finais do produto. Podem até também ser modelos profissionais, mas se encaixam na classificação de “comercial”: não desfilam, e trabalham posando para fotos de anúncios, por exemplo. Ou são meninas comuns, como tantas que frequentam as areias cariocas. Estudantes, vendedoras, terapeutas, costureiras emprestam as medidas de seus corpos para as grifes criarem, modelarem e acertarem cada detalhe dos biquínis que, depois, ganharão as praias daqui e do mundo.

Se tivesse nascido algumas décadas antes, Gabriela Vivacqua bem que poderia ter inspirado Tom ou Vinicius a compor sua Garota de Ipanema. Pele dourada pelo sol, rosto de menina: é ela a nova modelo de prova da Blue Man. “A Gabi tem a cara da carioca ratinha de praia. Nós a descobrimos por acaso: ela é namorada do Felipe Roque, nosso modelo de prova para sungas há anos”, conta Sharon Azulay, dona da marca. A modelo confirma. “Vou muito à praia. Jogo futevôlei, surfo. Mas Ipanema tem ficado muito cheia, e prefiro a Reserva ou Grumari. São paraísos no Rio”, conta.

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Convites para ser modelo nunca faltaram para Gabriela. Mas, tímida, só agora topou entrar para uma agência, aos 21 anos. Vai conciliar os trabalhos que aparecerem com os estudos de direito. “Gosto da faculdade, mas não amo. Vou deixar acontecer”, diz, despreocupada.

Gabriela é novinha e talvez não saiba, mas o posto que hoje ocupa já foi de Rose di Primo – a modelo dona de um corpo fenomenal e de um bronzeado impecável, que, desde uma certa foto que tirou nos anos 1970 em cima de uma moto (só de biquíni), virou musa de homens de todas as idades. “Ela era o ícone da mulher maravilhosa. A Blue Man sempre teve sua trajetória marcada por moças como ela: lindas, saudáveis e pé na areia”.

O conceito do “corpo perfeito”, assim como a moda, muda bastante. “Toda hora o padrão muda. Antes o bonito era ser muito magra. Veio a Gisele, com mais curvas; depois, Alessandra Ambrósio e Adriana Lima, e todo mundo começou a querer corpão. A gente nunca sabe como tem que ser”, diz Rayanne. Ela se preocupa, mas não precisa: o corpo moreno e de proporções perfeitas, os cabelos até a cintura, olhos amendoados, narizinho arrebitado e feições delicadas têm sucesso certo nesse mercado. Há um ano e meio, é modelo de prova da Salinas. Ela encarna como poucas o modelo da beleza brasileira. “Minha mãe diz que eu tenho ascendência indígena; mas deve ser de algum tataravô”.

Roupas molhadas – Uma ou duas vezes por semana, Rayanne vai à fábrica da Salinas para experimentar dezenas de biquínis. São feitos testes com as peças secas e molhadas, e a paciência e atenção com que as modelistas acompanham a prova são infinitas. “Elas observam cada detalhe. Às vezes passam horas falando de um aviamento que a gente nem percebe. Pedem para eu andar, sentar e ver se algo incomoda, e têm mil novas ideias enquanto me vestem”.

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A modelo se sente especial. Afinal, é a partir do corpo dela que coleções inteiras tomam forma. “Quando vejo um biquíni Salinas na praia, tenho vontade de chamar a menina e falar ‘Ei, esse modelo já passou por mim'”, brinca. Com o salário que recebe, ela paga a faculdade de nutrição, o carro e divide com o marido as despesas da casa. Nas horas de folga, gosta de acampar, ouvir música – Beyoncé, 50 Cent e gospel – e frequentar o Faith Club, clube de fé com um templo só. A igreja, em Vila Valqueire, tem fachada lilás com purpurina. Quem passa pela porta ouve a música animada e vê as luzes coloridas. “Lá, a fé é alegre; as pessoas são animadas, vão para a academia, saem à noite com suas famílias, gostam de ir à praia. As pessoas olham torto, dizem que não é certo. Mas por quê? Quem disse que crente tem que se vestir mal e não pode ser bonito?”

Conforto – Isabela Frugiuele, Carla Amaral e Bebel Fioravanti, sócias da grife Triya, têm uma preocupação principal: que o biquíni não incomode quem usa. Elas querem garantir que aquele elástico lateral não vai apertar, o gancho não vai sobrar, o sutiã vai cobrir o que tem de cobrir. E encontraram uma regra de ouro: “Todo mundo prova tudo”, resume Isabela.

Na fábrica no Morumbi e nas lojas, volta e meia vendedoras e as meninas do setor de costura e acabamento são convocadas para vestir as peças e desfilarem para as estilistas. Senta, levanta, anda, estica e puxa: aos poucos, novas formas vão se desenvolvendo e detalhes são ajustados. “Nós lançamos um modelo diferente de parte de cima ou de baixo a cada três meses. Então temos que testar, testar e testar. Temos que ver como o biquíni funciona em gente como a gente, que pode ter uma gordurinha no quadril, não ser tão alta, e por aí vai”, conta Isabela.

Regina, de 30 anos, e Maieli, de 22, são figurinhas fáceis nos processos de prova. Cada uma contribui mais do que com o corpo para o trabalho das modelistas: uma leva a opinião ouvida das clientes no balcão da loja no Itaim; outra aproveita a experiência com as máquinas de costura para identificar melhor possíveis problemas e sugerir soluções.

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“Mulher sempre pede a opinião da outra, então acabo vendo direitinho como as peças vestem os mais diferentes tipos de corpo. O conforto é a prioridade. Biquíni é algo que limita os movimentos da pessoa; ele tem que ser muito confortável para a gente se sentir bem”, diz Regina. Branquinha, a vendedora cumpre uma rotina diária de corrida e musculação, e não fica tímida com os muitos pares de olhos sobre seu corpo.

Bem diferente de Maieli. Há quatro anos trabalhando com acabamento e costura na Triya, ela demorou para perder a vergonha diante das estilistas. “Agora estou me acostumando um pouco”, diz, com voz baixa. Magra sem esforço, a costureira dispensa a malhação; mas canaliza para outros lugares sua vaidade. “A coisa que eu mais faço é arrumar o cabelo. Faço progressiva, pinto de loiro. E gosto de estar sempre bonitinha, mesmo trabalhando. Então, passo blush, rímel, sombra, lápis”.

Passarela X modelagem – Na passarela, a estilista Lenny Niemeyer não gosta de modelos com muita variação de altura: todas costumam ter entre 1,78 e 1,82m. A homogeneidade dos desfiles, porém, cai por terra quando a estilista pensa nas peças que vão para as lojas. “O tipo da brasileira é muito variado. E o corpo, em um lance rápido de vista, pode enganar muito. Quando uma mulher é mais jovem, mesmo que pareça cheinha, costuma ser mais estreita do que outra com corpo similar e que já teve filho. Muda o quadril, muda a cintura. E o biquíni tem que se adaptar. Acabo fazendo mais numeração de roupa, com os correspondentes a um PPP, por exemplo”, conta ela.

Para biquínis e roupas reais, meninas reais. A menina ‘mignon’ que trabalha no showroom, a gerente supermalhada, a vendedora – a equipe toda da grife entra na dança e se rende às fitas métricas e olhos clínicos de Lenny e suas modelistas. “Modelar é um mundo colorido e divertido; uma delícia. E passamos a ter à disposição coleções inteiras de roupas feitas sob medida para nós: não precisamos nem experimentar”, brinca Pamella Lessa, terapeuta holística que bate ponto no ateliê da Lenny como modelo de prova.

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Moradora de Santa Teresa, a moça é vegetariana, estuda acupuntura e luta todos os dias contra a preguiça de ir à academia. Quando posa para a foto ao lado da modelo de desfile da marca, a diferença fica nítida. “A gente tem que ser muito mais alta, né?”, sorri timidamente a mineira Stefany. Lenny explica o contraste. “Uma modelo de passarela é P de largura e GG de altura. Nenhuma menina comum é assim”.

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