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E se Woodstock fosse hoje? Não, ele não aconteceria

No mundo politicamente correto e de novas exigências da sociedade, o mar de lixo e o sexo livre do festival impediriam outra jornada de tanta liberdade

Pense num casal que, tendo saído a pé de Woodstock, sem lenço nem documento, sem Spotify ou Instagram, sem contato algum com o mundo lá fora, tenha demorado cinquenta anos para chegar ao destino — ao desembarcar em agosto de 2019, cinco décadas depois daqueles três dias que nasceram como “uma exposição aquariana de paz e música” num sítio 175 quilômetros ao norte de Manhattan, ela e ele levariam um susto ao cotejar a epifania hippie do verão americano de 1969 com os humores atuais. Dito de outra forma, colado a uma interrogação: e se Woodstock fosse hoje? Não aconteceria. Para o cineasta Cacá Diegues, em artigo publicado em O Globo: “O mundo de hoje, cinquenta anos depois de Woodstock, talvez se ria dessa ideia tola de paz e amor”. Em entrevista a VEJA, Maria O’Donovan, da Faculdade de Arqueologia Pública da Universidade de Binghamton (EUA), que lidera um insólito trabalho de investigação do solo das colinas onde se deu o festival, resume a impossibilidade de repeti-lo: “Woodstock é produto de seu tempo”.

ENGARRAFAMENTO – Filas intermináveis de carros: nuvens de gás carbônico como nunca antes nos Estados Unidos

ENGARRAFAMENTO – Filas intermináveis de carros: nuvens de gás carbônico como nunca antes nos Estados Unidos (Michael Wadleigh/Christophel/AFP)

Em tudo, a passagem dos anos provoca estragos, expõe ascensões e quedas inexoráveis, embora em alguns casos algumas sensações permaneçam — o espanto com o também cinquentenário assassinato de Sharon Tate pelo bando de Charles Manson, que atravessa o novo filme de Quentin Tarantino, Era uma Vez em… Hollywood (leia), não diminui. A celebração da chegada do homem à Lua, um colosso civilizatório, um extraordinário passo para a humanidade daquele 20 de julho tão longínquo, agora parece brincadeira de cientista mirim ante os avanços da tecnologia. Mas talvez não exista evento mais adequado para enxergar a pátina da história do que Wood­stock. Ele não passaria no teste de realidade do século XXI. Bob Dylan, que não foi à festança, apesar de morar ali ao lado, incomodado com os cabeludos coloridos que iam e viam estragando sua tranquilidade campesina, compôs em 1964 um clássico que serviu de fio da meada daquela turma — The Times They Are A-Changin’ — no qual informava que os tempos estavam mudando. Sim, estavam, mas rápido demais. As novas exigências da sociedade contemporânea, costuradas pela conduta politicamente correta, fariam de Woodstock uma contradição em termos.

PÔSTER OFICIAL – “Três dias de paz e música”: a promessa foi realizada apenas parcialmente

PÔSTER OFICIAL – “Três dias de paz e música”: a promessa foi realizada apenas parcialmente (//Divulgação)

Do ponto de vista ambiental, foi um estrago — mesmo que pequenos grupos tenham sido vistos recolhendo lixo assim que Jimi Hendrix disparou os acordes finais do hino dos Estados Unidos desconstruído pela guitarra; mesmo que sacos de plástico abarrotados tenham aparecido assim que ele perguntou, pela última vez, o que Joe fazia com uma arma nas mãos, “hey, Joe, where you going with that gun in your hand?”. A quantidade de detritos deixada ao léu soava como o fim dos tempos, como uma rajada de metralhadora no Vietnã — é imundície que não colaria mais, e ressalve-se que o primeiro documento a gritar pelos cuidados ambientais foi produzido apenas em 1972, na Conferência de Estocolmo, quando então se pronunciou, também pioneiramente, a palavra “sustentável” em sua concepção mais recente. Woodstock, nesse aspecto, era insustentável. Ao lixo, somou-se a interminável fila de carros cuspindo gás carbônico — estima-se que, comparando-se o lá e o cá, hoje os veículos produzam 99% menos poluição, pois não saem das linhas de montagem sem rigoroso controle. Procure no Google: aquele engarrafamento hippie figura entre os maiores de todos os tempos nos Estados Unidos. Richie Havens, o primeiro a subir ao palco, teve de repetir 1 milhão de vezes freedom, a liberdade de sua canção mais celebrada, para que as hordas pudessem chegar ao show seguinte. E havia a revolução sexual do verão do amor — fazia-se sexo sem proteção, impulsionado pela pílula anticoncepcional, uma vitória feminina. O temor à aids só viria no início dos anos 1980, quando Woodstock já era um retrato na parede.

O esmaecimento de Woodstock pelo andar dos relógios carrega uma ironia: em 15, 16 e 17 de agosto de 1969 deu-se a largada para a civilização de nosso tempo. Se a juventude agora zela pelo meio ambiente, se abomina a poluição e se trata o sexo com responsabilidade, é porque aquelas 400 000 pessoas cobertas de lama, banhadas na chamada “contracultura” (choveu a cântaros depois da apresentação de Joe Cocker), ajudaram a pavimentar o terreno de uma longa estrada. E, paradoxalmente, construíram um mundo que já não aceitaria Woodstock — ainda que a expansão do neopopulismo de direita de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro se esforce, diuturna e vergonhosamente, para recuar os ponteiros a bem antes de 1969.

NUDEZ – Sem medo: muitos anos antes da aids, o temor do sexo livre inexistia

NUDEZ – Sem medo: muitos anos antes da aids, o temor do sexo livre inexistia (//Shutterstock)

Woodstock já não haveria, e de fato não houve. Um dos organizadores do evento original montou neste ano uma versão dos cinquenta anos — estava tudo pronto, lugar escolhido (próximo daquele outro), até ser cancelado. O principal sócio financeiro do projeto, a Amplifi Live, uma companhia de equipamentos sonoros, retirou-se da empreitada levando embora os 18 milhões de dólares que tinha investido. A empresa de produção também disse adeus. Havia ainda a incerteza sobre a participação de artistas anunciados no início do ano, como Jay-Z, Miley Cyrus e Santana. Fracassou, enfim, por se mostrar economicamente inviável — em 1969, foi quase de qualquer jeito, em conta de padaria, com cifras nunca apresentadas detalhadamente. Mais de 180 000 ingressos foram vendidos (pelo equivalente a 160 dólares a unidade), e pelo menos o dobro de pessoas entrou no recinto sem pagar, porque as cercas foram derrubadas. Seria impensável, hoje. Diz Maria O’Donovan, a arqueóloga de antigas civilizações: “As novas regras, cada vez mais rígidas, impedem a realização de festivais anárquicos como o de Woodstock. A música jovem mudou, e está tudo atrelado ao dinheiro”. Woodstock morreu, longa vida a Woodstock. Ou, como cantou The Who num dos grandes momentos de cinquenta anos atrás em My Generation: “Não estou tentando causar nenhuma confusão, só estou falando sobre a minha geração”.

Os rastros de uma era

As colinas do sítio de gado leiteiro e alface que pertencia ao fazendeiro Max Yasgur (1919-1973), o homem que alugou o espaço para o festival de Woodstock, são hoje patrimônio cultural dos Estados Unidos — e, sentimentalmente, de todo o mundo. Aquele pedaço de terra na cidade de Bethel (não, Woodstock não foi realizado em Woodstock), a duas horas de carro de Manhattan, pertence a um empresário local. No ano passado, ele foi emprestado a investigadores da Faculdade de Arqueologia Pública da Universidade de Binghamton para uma experiência inusitada: a escavação do solo e a medição detalhada daquele naco de terra, equivalente a 240 campos de futebol. “É como um trabalho de arqueologia do presente”, disse a VEJA Maria O’Donovan, uma das coordenadoras do projeto.

Escavação do terreno do festival: peças serão expostas em museu

Escavação do terreno do festival: peças serão expostas em museu (Richard Drew/AP)

Na busca por peças do festival, foram encontrados puxadores de latas de cerveja e refrigerante, daqueles que se soltavam, como antigamente, alguns sacos de plástico e pouca coisa mais. O objetivo, explica Maria, era identificar a posição exata das barraquinhas de vendas de traquitanas que compunham o chamado Bindy Bazaar, uma alameda de comércio ligeiramente afastada dos palcos e que ajudou a construir a fama hippie de Woodstock. Havia um plano original de instalação dos quiosques, mas a anarquia criativa do festival fez com que os comerciantes se distribuíssem de improviso, entre rochas e árvores, à sombra. “É uma clara e bonita evidência de vida própria, que escapou ao controle dos organizadores”, diz Maria. As descobertas serão expostas no museu de Bethel Woods.

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2019, edição nº 2648