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É preciso cautela antes de condenar Woody Allen

Mais de vinte anos depois, a filha de Woody Allen, agora adulta, reafirma que o pai a atacou sexualmente. Mas o depoimento pouco trouxe de novo aos fatos do caso

Avesso a homenagens, Woody Allen, 78 anos, não compareceu à cerimônia de premiação do Globo de Ouro, em janeiro, quando lhe foi conferido o troféu Cecil B. DeMille pelo conjunto de sua obra. Diane Keaton, atriz de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, representou o ex-­namorado no prêmio. Outra atriz com quem Allen teve um longo envolvimento não gostou da homenagem: Mia Farrow, no Twitter, afirmou que o prêmio era um insulto à sua filha e a todos que foram vítimas de abuso sexual na infância. Voltava à tona uma história de mais de vinte anos. Em 1992, Mia descobriu fotos eróticas de Soon-Yi Previn, sua filha adotiva, no apartamento de Allen. O envolvimento de um famoso cineasta cinquentão com a jovem filha de sua mulher já seria por si um prato cheio para os tabloides. Mas então o que era só escandaloso tornou-se sórdido: Allen foi acusado de abusar sexualmente de Dylan, filha adotiva dele e de Mia, na casa da atriz, no Estado de Connecticut.

A própria Dylan (que hoje, casada e com 28 anos, atende por outro nome, Malone) confirmou o depoimento de então numa carta pungente a um blog do The New York Times. “Quando eu tinha 7 anos, Woody Allen me levou pela mão até um sótão, uma espécie de closet no segundo andar da nossa casa. Ele me mandou deitar de bruços e brincar com o trem elétrico do meu irmão. Então ele me atacou sexualmente”, diz a carta. Embora o mais recente filme de Allen, Blue Jasmine, esteja concorrendo ao Oscar, esta se tornou a estação não das homenagens, mas do apedrejamento moral do diretor. É até compreensível que seja assim: não se pode ignorar o impacto emocional da declaração de uma suposta vítima de pedofilia. Mas este é um terreno delicado: crianças às vezes atêm-se a falsas memórias, sejam elas fantasias próprias ou implantadas por algum adulto. Essa é, aliás, a alegação do advogado de ­Allen (o próprio não se pronunciou pessoalmente sobre a carta aberta de Dylan): ela estaria dando crédito a mentiras insufladas por Mia. No plano bruto dos fatos, a declaração de Dylan muda pouco ou nada: o caso continua tão incerto quanto nos anos 1990.

A única novidade factual que aparece na carta ao New York Times é o detalhe do trem elétrico. Dylan (aliás, Malone) deu seu primeiro depoimento sobre o caso em idade adulta em outubro do ano passado, no meio de um perfil laudatório de Mia Farrow publicado pela revista Vanity Fair. O incidente no sótão teria sido o único ataque explicitamente sexual ­- a acusação é de que Allen teria introduzido dedos no sexo da menina -, mas Dylan diz que sempre houve algo de inapropriado na relação com o pai: o modo como ele a pegava no colo, ou como enfiava o polegar na boca dela, não seria exatamente paternal. Sua história parece muito circunstanciada, mas tem vários pontos obscuros e lacunas. Um apanhado muito equilibrado do caso foi realizado recentemente por Robert Weide, documentarista que fez um filme sobre a vida e a obra de Allen para a PBS, a emissora pública americana.

Weide é simpático a Allen, mas não é exatamente um amigo próximo – no artigo, ele diz que só consegue contactar o diretor por meio de sua secretária. Seu artigo sobre o escândalo, publicado no site de notícias The Daily Beast, começa por separar o caso de Allen com Soon-­Yi da posterior acusação de ataque sexual a uma criança. Pode-se até considerar que ter um affair com a filha da própria mulher não é um indicador de bom caráter – mas não é um crime. Ao contrário do que muitos supõem, Soon-­Yi não era filha adotiva de Allen, mas sim do maestro e pianista André Previn, marido anterior de Mia. Allen e Mia nunca moraram juntos e não eram legalmente casados, embora tivessem dois filhos adotivos, Dylan e Moses, e um filho biológico, Ronan (na entrevista à Vanity Fair, aliás, Mia admite que Ronan – que, na infância, atendia pelo nome Satchel – talvez seja filho de Frank Sinatra, seu primeiro marido, com quem manteve um rabicho). E Soon-Yi – até hoje casada com Allen – já era adulta ao tempo em que posou nua para o cineasta: teria 19 ou 21 anos (a idade é incerta por falhas nos documentos da Coreia, onde ela nasceu).

Os fatos específicos sobre o caso Dylan, minuciosamente reconstituídos por Weide, pesam mais a favor de ­Allen. Alegou-se que, depois de sua visita à casa em Connecticut, Dylan teria aparecido sem calcinha, mas o testemunho de uma babá que estava na casa põe o fato em dúvida. A mesma babá diz que Dylan nunca esteve fora de sua vista por mais do que cinco minutos no dia da visita de Allen. Mia Farrow, nos dias seguintes ao alegado abuso, gravou um vídeo em que a menina contava o que teria lhe acontecido. A babá, mais uma vez, diz que a menina foi pressionada a dar aquele depoimento – e é sabido que o vídeo não foi feito em um só take, mas tem vários cortes. Uma equipe de médicos e psicólogos do Hospital Yale-New Haven, acionada para dar um parecer técnico sobre o caso, concluiu que não houve abuso, e que o depoimento da garota sugeria uma fala “ensaiada”. O promotor do caso decidiu não levar a acusação adiante, sobretudo para não infligir ainda mais trauma à menina – mas, em uma declaração ambivalente, deu a entender que haveria, sim, razões para levar Allen aos tribunais. Isso pode ter pesado na posterior decisão judicial, que tirou de Allen o direito de visitar os três filhos.

O retorno das acusações ao noticiário revelou uma divisão fraterna: Ronan tomou o lado de Mia e de Dylan, mas Moses, que até recentemente mantinha um discreto silêncio, acusou a mãe de impingir seu ódio pelo ex-companheiro aos filhos. Moses garante que não houve abuso, e que Dylan está apenas repetindo o roteiro que Mia ensaiou lá atrás, em 1992. Dylan acusa Moses de traição. E, no meio desse patético bate-boca, surgem ainda mais detalhes sórdidos: Moses diz que Mia batia regularmente nos filhos, Dylan nega. Allen talvez tenha tocado Dylan onde não deveria. Mia talvez tenha forçado a menina a mentir para perseguir uma vingança mesquinha contra o homem que a traiu com a própria filha. Nada de seguro pode ser afirmado, a não ser isto: os filhos de Mia Farrow e Woody Allen não tiveram uma boa infância.

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