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‘Doutor Estranho’ é uma viagem ao mundo alternativo da Marvel

Filme tem Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton, psicodelia e efervescência, gags visuais e efeitos vertiginosos

Por Isabela Boscov - Atualizado em 4 jan 2018, 16h02 - Publicado em 2 nov 2016, 10h11

Diz a piada que a diferença entre Deus e um cirurgião é que Deus sabe que não é cirurgião — e Stephen Strange, neuroespecialista brilhante, ilustra o reverso da proposição: ele se julga, sim, um deus, e trata com impaciência e desdém os mortais insignificantes (outros cirurgiões, menos brilhantes) que o rodeiam no hospital. Strange abre uma exceção, embora com certa condescendência, para a colega Christine, porque ela é quase tão direta quanto ele e calha de ser também encantadora (uma combinação difícil, que a canadense Rachel McAdams crava no alvo). Na verdade, em que pese a soberba de Strange, é difícil deixar de gostar dele. Não é acaso que Benedict Cumberbatch se tenha tornado a escolha preferencial para viver personagens cuja arrogância enfurecedora tem de ser perdoada, e protegida, e então comemorada pela plateia: ele põe tanto humor, leveza e troça em Stephen Strange, e cultiva nele tanto detalhe e nuance, que não há como resistir. Os deuses, porém, gostam de punir o húbris dos mortais que pensam equiparar-se a eles. Em Doutor Estranho (Doctor Strange, Estados Unidos, 2016), que estreia no país nesta quarta-feira, o castigo vai recair sobre o que o cirurgião tem de mais precioso — suas mãos habilíssimas, moídas em um acidente.

Quase todos os super-heróis da Marvel nascem da adversidade, e o Doutor Estranho que vai surgir de Stephen Strange não é diferente. Obcecado em recuperar o uso das mãos, Strange vai percorrer um longo caminho de desespero e humilhação, afastando-se cada vez mais da ciência rumo ao obscuro e ao esotérico. A trilha terminará em Katmandu, no Nepal, à porta modesta, por fora, de um templo antigo e grandioso por dentro, onde a chefe de uma ordem secreta ministra seus ensinamentos. Tão sábia é a Anciã que nem a insolência de Strange estraga seu bom humor: depois de ouvir cinco minutos de diatribe do cirurgião contra os supostos disparates das filosofias orientais sem nem piscar, a Anciã simplesmente dispara um golpe contra o peito dele, tão forte e bem aplicado que faz o corpo astral de Strange despegar-se de seu corpo físico. “Ensina-me!”, implora Strange, de joelhos — a atitude correta diante da translúcida e imanente Tilda Swinton, que faz a Anciã e é o maior e melhor trunfo que um filme de super-herói (ou qualquer filme) poderia almejar.

Até clichês como “seu espírito é que vai curar seu corpo” soam transcendentes quando ditos por Tilda — que é de uma beleza e precisão magníficas também nas cenas de ação. A Anciã, com alguns abracadabras, manipula o tempo e a matéria, fazendo cidades dobrar-se sobre si mesmas (os efeitos lembram muito os de A Origem, mas elevados à enésima potência). “Ensina-me”, de fato: quem não gostaria de aprender com um ser tão sublime? Ocorre que a Anciã tende a ser liberal com a sua sabedoria. Já a entregou a Kaecilius, um pupilo que foi então procurar outro mestre, este nefasto. Mads Mikkelsen como Kaecilius, Chiwetel Ejiofor e Benedict Wong como Mordo e Wong, os acólitos que ajudam a Anciã a baixar a crista de Strange: o elenco de Doutor Estranho é um bônus atrás do outro.

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Mais um ponto decisivo a favor de Doutor Estranho é a direção de Scott Derrickson — que, como o Sam Raimi da trilogia Homem-Aranha, veio do terror (são seus os demoníacos O Exorcismo de Emily Rose e Livrai-nos do Mal), e que também como Raimi tem uma deliciosa predisposição à efervescência e à psicodelia, além de ótima mão para a brincadeira visual. A Anciã e Mordo se encantam quando uma relíquia, a Capa da Levitação, decide se fazer adotar por Estranho. “Ela é muito volúvel”, comentam, dando o introito a uma sequência de gags em que a capa age como algo que os Três Patetas tivessem esquecido na escola de Harry Potter. Há drama e perda em Doutor Estranho, e a indefectível destruição urbana acarretada pelos combates com vilões. Mas há também tanta imaginação que os lugares-comuns, se não chegam a parecer transcendentes, tornam-se pelo menos imateriais.

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