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Com Santoro, ‘Golpe Duplo’ tenta ser esperto, mas não convence

Produção estrelada pelo ator brasileiro, ao lado de Will Smith, usa de truques básicos de filmes de golpistas, mas erra a mão ao tentar passar os espectadores para trás

Nicky e Jess são sagazes, inteligentes e, claro, atraentes. A tríade de qualidades já ficou carimbada como pré-requisito para um bom golpista, pelo menos no que reza a cartilha de Hollywood. O casal chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, no filme Golpe Duplo, que fez uma boa estreia nos Estados Unidos e desbancou do topo das bilheterias o erótico Cinquenta Tons de Cinza. Nicky é vivido por Will Smith, e Margot Robbie, a loira fatal de O Lobo de Wall Street, marca seu retorno a um filme pop na pele de Jess. Para os brasileiros, a produção tem um alento a mais, a presença do ator Rodrigo Santoro.

Dos diretores e roteiristas Glenn Ficarra e John Requa, que já trataram do tema em O Golpista do Ano (outro que conta com a participação de Santoro), o longa acompanha a dupla que passa ricaços para trás e vivem cheios de pompa com o dinheiro alheio. O sarcasmo, a ironia e o humor negro, comuns em tramas do tipo, fazem parte dos diálogos do roteiro, que apresenta momentos interessantes, mas parece simplório quando comparado às produções de salafrários como Os Safados (1988), de Frank Oz, ou Prenda me se for Capaz, de Steven Spielberg.

O charme da produção reside basicamente em sua beleza estética, com cenários de encher os olhos e uma belíssima fotografia. Todavia, quando o fundo é mais atraente que a ação na cena, algo está errado.

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Nicky atua como um tutor para Jess, que lança mão de sua sensualidade para aplicar golpes. Entre as dicas, o personagem de Smith fala sobre o foco – o nome do filme em inglês é Focus – e como ele é fundamental para enganar e distrair as pessoas enquanto as rouba. A loira convence o golpista a aceitá-la em sua trupe de bandidos durante um movimentado campeonato de futebol americano. Após arrecadarem uma fortuna com os turistas despercebidos, os dois, como esperado, protagonizam uma cena quente no quarto do hotel em que estão hospedados. Depois partem para assistir a um jogo, onde Nicky aplica um grande golpe sem levantar a desconfiança da moça – ou dos espectadores.

O truque de enganação dobrada até poderia ser interessante, exceto pela maneira como os diretores decidiram montar a situação para lá de surreal. Resumindo, Nicky faz uma aposta com Liyuan (BD Wong), em que ele deveria escolher, secretamente, um número entre os jogadores do campo. Mais tarde, o número seria corretamente adivinhado por Nicky. Para explicar o momento bizarro, os diretores montam uma série de flashbacks – que até então não haviam sido mostrados no filme – em que Nicky faz intervenções nos ambientes que Liyuan estaria antes do jogo, para que seu subconsciente fosse “programado” a escolher o número certo. A ilustração inverossímil, quase cômica (do jeito ruim) é difícil de engolir e evidencia o que esperar da trama daquele momento em diante.

Após o episódio, Jess é dispensada por Nicky, e a história se desenvolve três anos depois, em Buenos Aires, durante o lançamento do novo carro de corrida da escuderia do Sr. Garriga, interpretado por Santoro. Na Argentina, Nicky é contratado por Garriga para enganar outras escuderias com uma falsa tecnologia nova. Os dois desonestos se desentendem e o embate ganha o reforço da loira, que volta a ajudar Nicky na tentativa de roubar Garriga. A partir daí, outras cenas dignas de fantasias mirabolantes conduzem o filme, até o desfecho que segue à risca a ideia de absurdos.

Santoro e Margot fazem o que podem em seus papéis, mas se mostram substituíveis por qualquer outro ator com sotaque e atriz sexy e voluptuosa. Já Smith volta a mostrar desenvoltura com seu humor característico, enquanto tenta provar sua relevância no mercado após o sofrível Depois da Terra (2013), fracasso de bilheteria, e MIB: Homens de Preto 3 (2012), trucidado pela crítica. Com um passado recente tão ruim, Smith pode até comemorar os resultados do mediano Golpe Duplo.