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Christian Figueiredo: do YouTube à lista de mais vendidos

Com 4 milhões de inscritos em seu canal, o Eu Fico Loko, o rapaz de 21 anos se firmou na literatura jovem, com dois livros que, juntos, venderam quase 280.000 cópias, e prepara sua investida no cinema

“E aí, meus lokões e lokonas deste Brasil?”. É assim que o jovem Christian Figueiredo, 21 anos, começa os vídeos de seu canal no YouTube e também é esta a primeira frase de seu livro, ambos intitulados Eu Fico Loko. O rapaz nascido em Blumenau, Santa Catarina, é um representante brasileiro relevante dos chamados youtubers – alcunha dada às pessoas que produzem e postam vídeos caseiros com conteúdos variados, boa parte com tom bem humorado. Em meados de dezembro, ele alcançou a marca de 4 milhões de inscritos em seu canal e 270 milhões de visualizações em seus vídeos. O sucesso na internet levou Christian – que, como Pelé, costuma falar de si mesmo na terceira pessoa – a ampliar sua marca. Das telas dos computadores, o jovem partiu para as prateleiras das livrarias. O livro, esse meio antiquado de transmitir informações, se tornou um campo bastante interessante para os youtubers. Como provam os números conquistados por Christian.

Seu primeiro livro, Eu Fico Loko – As Desaventuras de Um Adolescente Nada Convencional (Novas Páginas), lançado em fevereiro, vendeu 172 000 cópias, não deixou, nem por uma semana sequer, a lista dos mais vendidos de VEJA e agora ruma para uma adaptação cinematográfica. Christian será, então, o primeiro youtuber brasileiro a ganhar um filme para chamar de seu.

Eu Fico Loko 2 – As Histórias que Tive Medo de Contar, lançado em setembro, segue os passos do primeiro volume, com 106 000 cópias comercializadas até agora. Segundo a consultoria GfK, Eu Fico Loko foi o terceiro livro de não-ficção mais vendido de 2015 no país (excluindo-se da conta os livros de colorir), atrás apenas de Nada a Perder, de Edir Macedo, e Muito Mais que Cinco Minutos, da também youtuber Kéfera Buchmann.

Christian conta que a publicação dos livros lhe trouxe uma satisfação especial. “Eu sempre gostei muito de escrever e de ler e meio que abandonei esse meio mais tradicional por estar fazendo os vídeos”, diz ao site de VEJA. “Quando eu já estava com um público grande na internet e surgiu a oportunidade de levar o que eu escrevia para uma editora, aquilo despertou em mim a criança de 11 anos que eu era. Foi uma realização pessoal, mais do que qualquer outra coisa.”

Livros publicados, ele acredita que seu sonho – assim como o de outros youtubers que mergulharam na literatura – pode incentivar a leitura entre jovens. “É incrível uma pessoa que nunca pegou em um livro ler só porque sou eu quem está lançando.”

O desejo de ver seu nome em um livro era tão grande que foi o próprio Christian que buscou uma editora, empregando a esperteza que mostra em seus vídeos. Determinado a partir para a literatura, ele foi junto com o vlogueiro Rafael Moreira a uma reunião com a editora Novo Conceito, marcada para acontecer durante a Bienal do Livro de São Paulo de 2014. Um dia antes, porém, avisou seus seguidores nas redes sociais que estaria no estande da casa editorial no evento. No dia seguinte, Christian se viu em meio a dezenas de fãs enlouquecidos e a editora percebeu uma oportunidade de negócio com muitos leitores em potencial.

“Acabei sendo levado para o palco principal, mesmo sem ter horário reservado, porque não tinha como deixar os fãs todos lá. O Thiago Mlaker, que na época era editor da Novo Conceito, me disse: ‘Eu quero muito falar com você. Vamos almoçar?’. A gente foi e rolou o livro.”

Mesmo com tamanha demonstração de fidelidade dos fãs, a editora ainda parecia não ter certeza sobre o sucesso da publicação, que saiu pelo selo Novas Páginas. “Eles ficaram com receio, pensando: ‘Será que vai dar certo, o livro de um cara do YouTube?’. Aprovaram e não deu outra: na pré-venda, encomendaram uma tiragem de 3 000 livros e, no segundo dia, já tinham vendido 5 000”, lembra.

Depois de habitar as listas de mais vendidos durante todo o ano, o volume agora vai servir de inspiração para uma produção no cinema. Com produção da Ananã (de S.O.S. Mulheres ao Mar e Chico Xavier), o longa, atualmente em fase de criação de roteiro, vai passar em revista os anos da adolescência do garoto. “Vou atuar como o Christian de 17 ou 18 anos, mas como o filme vai retratar o Christian a partir dos 13 anos, vamos precisar de um ator”, conta.

Christian Figueiredo

Christian Figueiredo, 21, ficou famoso após gravar vídeos sobre o cotidiano jovem e suas lembranças de adolescente, sempre com bom humor. Natural de Blumenau, seu canal no YouTube, Eu Fico Loko, possui mais de 4 milhões de inscritos. Em fevereiro 2015, ele levou algumas dessas experiências, como seu primeiro beijo e a perda da virgindade, para as páginas de Eu Fico Loko – As Desaventuras de Um Adolescente Nada Convencional, lançado pelo selo Novas Páginas. Ainda em 2015, em setembro, ele lançou Eu Fico Loko 2 – As Histórias que Tive Medo de Contar, com causos “proibidões”, como ele chama, como a vez em que ele entrou em uma festa sem ser convidado e quando ele foi roubado a caminho da praia.

Kéfera Buchmann

Kéfera Buchmann é curitibana e tem 22 anos. A paranaense fez sucesso no YouTube com seu canal 5inco Minutos, onde, seguindo a fórmula de sucesso de tantos youtubers, devaneia sobre os mais variados assuntos, introduzindo humor e seu jeito descontraído de abordar os temas. Ela também já se arriscou gravando paródias musicais, como de Bang, hit de Anitta, que fizeram igual sucesso. Com quase 7 milhões de inscritos no canal, a vlogueira lançou em 2015, pela editora Paralela, o livro Muito Mais que Cinco Minutos, em que ela conta histórias de sua vida antes de se tornar conhecida na internet. Kéfera prepara, ainda, um segundo livro, que vai tratar de sua ascensão como youtuber. 

Rafael Moreira

Com mais de 500 000 inscritos em seu canal, o Me Apaixonei, Rafael Moreira, 18, é mais um que decidiu ligar uma câmera e falar sobre o que vinha à mente, principalmente sobre assuntos como amor e relacionamentos. Em fevereiro de 2015, o youtuber lançou o livro Diário de Um Adolescente Apaixonado pela editora Novas Páginas, com 24 crônicas bem humoradas sobre algumas das situações pelas quais ele passou na vida, como quando sofreu bullying na escola ou a história de seu primeiro beijo.

Frederico Elboni

Dono do blog Entenda os Homens e de um canal com o mesmo nome com mais de 140 000 inscritos, o paulistano Frederico Elboni, 23, também é roteirista do programa Amor & Sexo, da Rede Globo. Os assuntos preferidos do youtuber são o mundo masculino, como os homens entendem as mulheres e relacionamentos. Em seu primeiro livro, Um Sorriso ou Dois – Para Mulheres que Querem Mais, lançado em 2014 pela editora Benvirá, ele mistura contos, crônicas e dicas para as mulheres que querem compreender melhor os homens. Em março de 2015, ele lançou pela mesma editora Meu Universo Particular, uma coletânea de frases e minicrônicas.

Taty Ferreira

Em seu canal no YouTube, Acidez Feminina, Taty Ferreira, 28 anos, fala sobre comportamento e relacionamentos, sem papas na língua. A mineira de Uberlândia também posta vídeos respondendo perguntas sobre os mais variados assuntos enviadas por fãs. Foi esse o tema de seu livro, Manual da Mulher Bem Resolvida, lançado pela Planeta do Brasil em abril de 2015, em que ela fala sobre diversas situações e soluções do universo das mulheres – e para elas.

Sabedoria jovem – Para Christian, o segredo do sucesso está na identificação que acontece entre ele e seus seguidores. “Temos programas na televisão aberta como Malhação, com atores interpretando um texto às vezes escrito por uma pessoa de 40 anos. O jovem quer se identificar, ver um cara como eu, que acabou de sair da adolescência, conversando com ele, sem atuar”, afirma.

De fato, tanto os vídeos quanto as duas edições de Eu Fico Loko estão recheadas de histórias pessoais do vlogueiro contadas por ele com muita desenvoltura e sinceridade. Em um clipe, visto mais de 1,5 milhão de vezes, ele fala, por exemplo, sobre o dia em que foi roubado por dois marmanjos fantasiados de Peppa Pig, a porquinha do desenho animado, enquanto estava na praia.

Já no segundo livro, ele narra o momento em que, aos 14 anos, preencheu um formulário de uma aula de orientação sexual da escola dizendo que tinha feito sexo oito vezes na vida, com pessoas diferentes. Na época, ele era virgem, mas mentiu pelo medo de seus amigos descobrirem esse fato.

São causos como esses que servem como ponte de identificação com seu público, concentrado em garotos da faixa etária entre 18 e 24 anos, segundo as estatísticas fornecidas pelo YouTube. Mas Christian também é idolatrado por meninas que o tratam como a um cantor de boy band, com direito a histeria coletiva. “Em eventos, vai muita menina, de 13 a 17 anos. Elas gritam, se dizem apaixonadas, parece um show. Acho que o cara de 18 a 24 anos está sempre na faculdade, no trabalho, no estágio, e vê meus vídeos em uma pausa ou outra. Já as meninas mais novas têm mais tempo livre, só vão para a escola e depois vão comprar livro, ou vão a eventos e ficam oito horas na fila para pegar um autógrafo”, explica.

O rapaz, com tom de empresário, mostra entender seus espectadores e afirma que aprendeu a fazer isso com o passar dos anos. “Você tem que saber quem te assiste, não pode produzir sem ler comentários, por exemplo. Acabei criando o formato que o canal tem hoje, com uma mistura de vlog e brincadeiras.”

Os jogos e desafios, aliás, são os que mais parecem atrair o público. Em seu canal principal, o Eu Fico Loko – Christian também tem uma segunda página no YouTube, que leva seu nome e traz cenas de seu cotidiano -, os vídeos mais assistidos são aqueles que contêm brincadeiras.

Com quase 5 milhões de visualizações até agora, o clipe que lidera se chama “Uma palavra, uma música” e mostra o vlogueiro participando de uma prova no maior estilo Qual É a Música, de Silvio Santos, com outros dois youtubers, Rafael Moreira e Julio Cocielo. Eles cantam, se atrapalham, trocam xingamentos e dão muita risada. E o que não funciona com o público? “Assuntos sérios, como política. Quando foge muito do entretenimento, o pessoal já pensa: ‘Opa, peraí, esse aqui não é o Christian. Ele não está me fazendo rir ou esquecer a prova que eu tenho amanhã’. Eu evito esse tipo de coisa, não mostro posição política nenhuma. Meu foco é o Christian apresentador, que entretém, e fim.”

Ao falar para milhões de jovens diariamente, em vídeos ou nas redes sociais – ele tem 1,9 milhão de seguidores no Twitter, 1,8 milhão no Instagram e 1,4 milhão no Facebook – o youtuber sabe que possui uma enorme responsabilidade. “É meio que aquela brincadeira ‘O mestre mandou’: se eu falar pra correrem até ali, os fãs vão. Eu não me privo de falar as coisas, mas tomo cuidado e penso se e como o que eu falar vai afetar o público”, afirma.

E, apesar de ele mesmo ser bastante jovem, Christian faz as vezes de conselheiro para seus seguidores, que o procuram em busca de uma luz em momentos de dúvida. “Eles se preocupam porque os pais não os entendem, pois não sabem o que querem ser, o que fazer quando ficarem mais velhos. Eles se inspiram nos amigos, nos pais, são muito certinhos. São todos garotos de apartamento, ninguém sai e vai para a rua gritar que é rebelde. Eles estão conectados e têm todas as possibilidades do mundo, mas ficam ali enclausurados, cheios de regras.”

O tom de conselheiro também dá as caras nos livros de Christian, principalmente no primeiro. “Eu não diria que na adolescência nossos pais proíbem as coisas porque eles são chatos e não querem que a gente se divirta. Eles proíbem porque têm medo do que a gente faça por aí. Afinal, pai é pai, né?”, diz ele logo no começo do primeiro volume.

Profissão: youtuber – Um ano atrás, Christian passou a se dedicar quase que integralmente aos vídeos do YouTube, graças a um grito de independência que deu quando decidiu morar sozinho, deixando a casa da mãe. “Eu tinha acabado de chegar a 1 milhão de inscritos no canal e decidi sair. Pensei em me dedicar 100% ao YouTube, alugar um apartamento e ficar dia e noite produzindo. Fui para um apartamento perto da casa da minha mãe, em Moema, na Zona Sul de São Paulo, e comecei”, diz. “Em um ano, o número de seguidores do canal saltou para 4 milhões. Foi a coragem de falar que ia sair de casa: quando eu saí, bombou.”

Para além da coragem de cortar o cordão umbilical, o rapaz transformou o hobby em empresa: contratou assessora de imprensa, webmaster, advogado, três pessoas para editar seus vídeos e um empresário. “Mas a produção continua minha. Eu faço tudo e só passo para a equipe as orientações de edição”, garante.

Com o empresário, vieram novas oportunidades de trabalho, principalmente com ações de marketing. “Antigamente, eu achava que ia viver dos lucros dos meus vídeos no YouTube, mas agora eu sei que a maior parte dos meus rendimentos vem de fora, dos livros, campanhas publicitárias e postagens patrocinadas”, conta. Para manter a aura de veracidade e honestidade proposta em seus vídeos, ele garante que só faz propaganda de produtos com os quais se identifica. “Não tem dinheiro que pague para eu dizer que gosto de algo que eu não gosto”, diz.

Com renda mensal estimada entre 30 000 e 60 000 reais, Christian aposta que a profissão youtuber, seguida por ele e por nomes como Kéfera e Frederico Elboni, terá vida longa. “A onda vai longe ainda, talvez não para sempre, mas pode virar uma profissão, as pessoas podem dizer: ‘Sou um youtuber, faço o que gosto de fazer’. Os vídeos te dão liberdade. Se você gosta de cozinhar, vai para o YouTube para ensinar receitas, não precisa ter um programa na televisão para isso”, afirma.

Ele também diz que não há “superlotação” na área. “A gente sempre se esbarra em eventos, nós somos todos amigos. Não tem competição, longe disso. A gente troca público quando grava junto. Tem espaço para todo mundo.”

Para o futuro, Christian quer continuar com os trabalhos no seu canal e, talvez, ir além da tela do YouTube e do cinema e das páginas da literatura. “Quero testar algo em palco, então pretendo fazer algum curso de teatro. Os fãs pedem muito para ‘consumir’ o Christian, ver o Christian de perto. Acho que isso pode ser uma solução. Meu foco, porém, é sempre a internet. Quero chegar aos 10 milhões de inscritos no ano que vem, quem sabe?”. Se depender dos “lokões e lokonas”, tudo é possível.

(Colaborou Henrique Castro)