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Filme ‘Chega de Fiu-Fiu’ discute assédio e acesso da mulher à cidade

Documentário da ONG Think Olga e da Brodagem Filmes acompanha três personagens e ouve cinco especialistas sobre a liberdade negada à circulação feminina

Por Maria Carolina Maia - Atualizado em 25 Maio 2018, 18h07 - Publicado em 25 Maio 2018, 16h14

Quando o Brasil passou por sua mais profunda análise, na primeira metade do século XX, pensadores como Gilberto Freyre foram enfáticos ao dividi-lo entre o público e o privado, esferas que nem sempre se opõem, mas que, grosso modo, servem para separar o que é pertinente ao bem comum, e ao Estado, do que é particular. E também para encerrar de um lado o domínio masculino e, do outro, o feminino – com destaque para as sinhazinhas que, encarceradas nas Casas Grandes de um verdadeiro desmundo, beiravam a loucura. Já passou da hora, porém, de essa leitura ser revista. As mudanças que operaram no país e no mundo nos últimos 100 anos arrancaram de casa, de vez, a mulher – que tinha circulação antes restrita, sob a identidade da cozinheira, da lavadeira, da prostituta – e a puseram de forma definitiva na rua. Revista, ampliada e discutida: a mulher está na rua, mas a rua segue hostil à mulher. É o que mostra o documentário Chega de Fiu-Fiu, parceria entre a Brodagem Filmes e a ONG Think Olga em cartaz em São Paulo a partir desta semana, com algumas sessões pontuais pelo país.

Para um homem, isso pode soar surreal, mas pegar um ônibus, andar de bicicleta ou apenas caminhar ao ar livre, a qualquer hora do dia, é, para uma mulher, sempre um risco. Não à toa, uma pesquisa realizada pela Think Olga apontou que 81% das mulheres já deixaram de sair de casa por medo. Medo de assédio, de abuso, de violência sexual. O filme, dirigido por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, ilustra esse sentimento de duas formas. Primeiro, ao acompanhar três personagens com perfis distintos de Salvador, São Paulo e Brasília — uma professora de história branca na capital paulista, uma mulher que é vítima de gordofobia e homofobia, além de guardar o trauma de ter sido estuprada pelo tio, na baiana, e uma artista visual transgênero, alvo de transfobia, no Distrito Federal. Depois, ao usar imagens captadas por uma microcâmera escondida em uma armação de óculos, que mostram como é difícil dar um passo sem ser abordada — quando não assediada — nas cidades.

O documentário, fluido, costura ainda a fala de cinco especialistas, como a historiadora da Unicamp Margareth Rago, a ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres Nilcea Freire, e a ativista Juliana de Faria, criadora do Think Olga, e imagens de uma conversa em roda entre homens, em que eles parecem se dar conta, e cair em si, de que algumas atitudes que tomam com o tal do sexo oposto são mais invasivas do que imaginam.

“Em princípio, as mulheres sempre circularam. Elas sempre trabalharam muito, eram lavadeiras, eram cozinheiras, eram prostitutas. Antes desse momento de industrialização, de crescimento urbano, a definição de público e privado era diferente. É no momento em que as cidades são remodeladas que há uma mudança de sensibilidades, de maneiras de viver, de hábitos. As mulheres passam a circular mais intensamente na esfera pública como trabalhadoras operárias. Normalmente, quando você fala em proletariado você pensa em homens. Deveríamos começar a pensar nas mulheres, que compuseram 50% do proletariado desde o início”, diz Margareth Rago, logo no início do longa, numa contextualização bem-vinda, já que o chamado senso comum associa o trabalho proletário ao braço masculino.

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“A urbanização, o crescimento da cidade, o surgimento dos cafés, dos bordéis, das casas de tolerância, dos cinemas, a vida social se expande, e nesse momento há um discurso de que a vida social da mulher é em casa. É neste momento em que o feminismo está nascendo, porque as mulheres vão dizer, ‘Não, não, eu tenho direito à cidade’”, continua a professora.

É esse direito, legítimo, que Chega de Fiu-Fiu, mais que defender, discute. Em um tom didático que parece válido tamanho o desconhecimento sobre a questão feminina, patente na roda dos homens, o documentário termina lembrando leis que protegem as mulheres do assédio. Segundo o documentário, ele é interpretado pela legislação brasileira de três maneiras:

1) “consentimentos e ameaças com intuito de conseguir favorecimento sexual por alguém de posição superior (Art. 216-A do Código Penal)

2) “importunação ofensiva ao pudor, que abrange frases desagradáveis, invasivas e agressivas” (art. 61 da Lei nº 3688/1941)

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3) “ato obsceno, quando alguém realiza um ato sexual em público com o intuito de ofender e agredir” (art. 233 do Código Penal)

Este não deveria ser um spoiler — mas, infelizmente, em uma crescente, mas ainda incipiente batalha por igualdade e, por que não, por respeito à mulher e por reformulação social, vai acabar sendo para muitos. Produzido a partir de financiamento coletivo pela plataforma Catarse, Chega de Fiu-Fiu não é filme para concorrer com Vingadores. Mas é bem mais heroico do que os longas da Marvel.

 

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Documentário "Chega de Fiu-Fiu"
Cena do documentário “Chega de Fiu-Fiu”, realizado por uma iniciativa crowdfunding, em parceria com a ONG feminista Think Olga Foto/Divulgação
Documentário "Chega de Fiu-Fiu"
Cena do documentário “Chega de Fiu-Fiu”, realizado por uma iniciativa crowdfunding, em parceria com a ONG feminista Think Olga Foto/Divulgação

 

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