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Cannes: ditaduras militares da América Latina se destacam

As ditaduras militares da América Latina, que deixaram feridas abertas em diversos países do continente, estão sendo passadas a limpo na programação do 65º Festival de Cannes. A revisão começou nesta sexta-feira (18) com a primeira projeção de No, do chileno Pablo Larraín (o mesmo de Tony Manero), aplaudido em suas diversas sessões, e continua com Infância Clandestina, do argentino Benjamín Ávila, que começa sua carreira no festival a partir deste domingo (20), ambos em cartaz na mostra paralela Quinzena dos Realizadores.

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Estrelado pelo ator mexicano Gael García Bernal, o filme de Larraín recria os bastidores do plebiscito que, em 1988, pôs um ponto final no governo militar do general Augusto Pinochet, que ficou no poder por 15 anos. Bernal interpreta o publicitário René Saavedra, um exilado político que volta ao Chile a tempo de trabalhar na campanha pelo voto que negou a permanência de Pinochet no comando do país. “O dia da vitória do ‘Não’ é tão significativo para o povo chileno como o Dia da Independência”, disse o cineasta de 35 anos em entrevista ao site de VEJA.

O roteiro de No foi inspirado na peça O Plebiscito, do escritor chileno Antonio Skármeta, que se expandiu para fora dos limites do palco a partir das intensas pesquisas do diretor sobre o período e os profissionais envolvidos na campanha publicitária. “De certa forma, René é produto do sistema neoliberalista implantado por Pinochet no país ao longo de seu governo. Ele derrotou o ditador com as mesmos instrumentos ideológicos difundidos pela ditadura militar, enchendo a campanha de símbolos políticos e visões sobre o futuro do país.”

Infância Clandestina é uma coprodução entre Argentina, Espanha e Brasil e fala sobre a ditadura militar argentina (1976-1983) sob o ponto de vista de um garoto de 12 anos. Depois de anos no exílio, os pais do pequeno Juan (Teo Gutiérrez Romero) conseguem voltar ao país em 1979 usando documentos falsificados. Seus pais eram membros dos Montoneros, organização que lutou contra a junta militar e, por isso, seus membros foram caçados, presos ou mandados para o exílio. O disfarce da família passa a correr perigo quando o garoto vai para a escola, onde faz amigos e ganha uma admiradora.

O roteiro de Infância Clandestina é baseado nas memórias do diretor. “Não planejei fazer um filme autobiográfico, mas queria usar minhas lembranças para falar sobre um caso de primeiro amor que acontece durante a ditadura argentina”, contou Ávila, de 39 anos. “Revisitar a história do ponto de vista da minha infância e de outros personagens do filme me permitiu jogar uma nova luz sobre aquele período.”