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Caitlin Doughty: a youtuber da morte

Celebridade na rede, a escritora americana, de 34 anos, explica por que abraçou como missão desmistificar os funerais e o luto

Por que as pessoas gostam de assistir a seu canal no YouTube, Ask a Mortician (Pergunte a uma Agente Funerária”)? Por um tempo, pensei que não queriam tomar conhecimento do meu trabalho. Mas isso não era verdade. As pessoas se fascinam e querem saber tudo — o que acontece durante a cremação, a preparação do defunto e até os detalhes da decomposição. Se tanta gente tem curiosidade, por que não compartilhar?

O que a levou a trabalhar em crematórios desde os 23 anos? Tenho me interessado por corpos e morte a vida inteira. É complicado pensar que o corpo se apaga e que não importa para onde ele vai. Percebi que nunca tinha atentado para o que essa ideia significa para a minha cultura. A partir do momento em que comecei a trabalhar no crematório, isso se tornou meu projeto de vida.

Seu livro Confissões do Crematório descreve suas experiências na indústria funerária. Tem uma história preferida? Sim, o capítulo sobre os funerais de bebês. Não que eu ame o fato de bebês morrerem. Mas, após estudar a morte deles no período medieval, na universidade, foi surpreendente me ver cremando bebês para viver.

No que se baseia sua tese de que a morte se tornou um negócio na cultura ocidental? Quando alguém morre, há muitas coisas que não se quer fazer. Você não quer colocar sua mãe no banco de trás da van e levá-la até o cemitério. Você paga a outros para que façam isso por você, o que é compreensível. Mas a indústria da morte tornou-se tão invasiva que a família tem a sensação de não estar no comando do que acontece com seu ente querido.

O que defende exatamente seu movimento, o Ordem da Boa Morte? Defendemos a ideia de que falar sobre a morte não é ruim. Não achamos errado ter diferentes visões e emoções sobre o tema. A morte é o maior evento que vai acontecer na vida da maioria das pessoas. Falar sobre ela por meio de livros, arte e conversas nos fez perceber que as coisas não precisam ser tão dolorosas.

Seus livros e vídeos mesclam morte e humor. Enquanto viajava atrás de rituais fúnebres pelo mundo, o que encontrou de mais engraçado? Na Indonésia, visitei uma casa em que corpos de parentes eram mantidos mumificados. O tempo todo em que eu estava lá, não sabia que atrás da porta havia uma múmia. Foi surreal.

Em sua visita ao Brasil, em junho, notou algo peculiar no modo como as pessoas aqui encaram a morte? Fiquei surpresa em ver quantas similaridades e diferenças existem entre brasileiros e americanos nessa matéria. Enfrentamos problemas em comum, como o custo dos funerais. Mas, enquanto vocês esvaziam suas criptas em um curto espaço de tempo, nós valorizamos a ideia de permanecer em uma sepultura para sempre.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647