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Brasileira serviu de inspiração para personagem de ‘Histórias Cruzadas’, que estreia nesta sexta

Autora de 'A Resposta', livro que deu origem ao filme, conta que empregada de sua irmã foi inspiração para a dócil empregada de meia-idade Aibileen, também ela vítima da segregação racial no sul dos EUA

“Elizabeth, você precisa construir um banheiro do lado de fora da casa para sua empregada doméstica. Você sabe que os negros transmitem doenças diferentes das nossas.” Este é o primeiro dos muitos diálogos absurdos que compõem o filme Histórias Cruzadas, uma das principais estreias desta sexta-feira no Brasil. O longa, que foi destaque na premiação do Sindicato dos Atores (SAG Awards) no último domingo e concorre ao Oscar em três categorias, é baseado no livro A Resposta (Bertrand Brasil, 574 páginas, 55 reais), de Kathryn Stockett, que se inspirou em empregadas domésticas – entre elas uma brasileira – para contar a história da segregação racial no sul dos Estados Unidos, no auge da luta pelos direitos humanos.

“Minha irmã teve uma empregada chamada Gina, que passou por coisas horríveis, mas nunca falava a respeito”, conta Kathryn, que fez de A Resposta um drama comovente sobre a situação dos negros americanos.

O longa, filmado por seu amigo de infância Tate Taylor, é menos pungente, mas pode mudar a corrida pelo Oscar. A razão é simples: os votos da premiação do Sindicato dos Atores, onde Histórias Cruzadas se saiu muito bem, representam significativos 20% no montante final de votos que define os vencedores em cada categoria. Viola Davis, que já havia atraído olhares em Dúvida (2008), levou o troféu de melhor atriz na premiação do sindicato e agora surge como rival de peso da favorita Meryl Streep, que disputa por sua atuação em A Dama de Ferro. E a categoria de melhor atriz não foi a única em que Histórias Cruzadas deixou sua marca no Oscar deste ano. O longa tem duas concorrentes a melhor atriz coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer) e concorre, ele mesmo, a filme do ano.

Viola, a vencedora do SAG Awards, vive no filme a dócil empregada de meia-idade Aibileen Clark, que acaba convencida pela jornalista recém-formada Skeeter (Emma Stone) a falar poucas e boas sobre os patrões em um livro que a jovem quer escrever.

Aos 42 anos, Kathryn, que assim como as personagens de seu livro é nativa de Jackson, Missisipi, é nova demais para ter vivido nos anos 1960, época em que a história se passa, mas garante que a cidade não mudou muito desde aquela década. “A antiga geração ainda está viva. Ainda há mulheres que pensam exatamente como as matriarcas que eu descrevo no livro”, conta a escritora, que diz ter se inspirado em histórias de mulheres reais para compor os personagens do livro. Confira abaixo a entrevista de Kathryn Stockett ao site de VEJA.

O livro foi rejeitado por cerca de 60 editoras antes de ser publicado. O que aconteceu? Acho que, principalmente depois do 11 de Setembro, as coisas ficaram difíceis nos Estados Unidos. As pessoas têm medo de ofender as outras, querem ser politicamente corretas. Havia muita tensão no país. Nenhuma editora me dizia isso com todas as letras, mas falavam que o livro não era o que estavam buscando no momento, e algumas vezes ouvi que ele não “prendia o leitor”. Quando terminei de escrever o livro, foi difícil até conseguir um agente para me representar.

Como surgiu a ideia para o livro? Eu cresci em Jackson, Mississipi, mas minha vida foi muito diferente da vida das personagens ricas do livro. Meus pais eram divorciados e minha mãe nunca se importou muito com os filhos. Ela trabalhava bastante, tinha namorados, largava a gente e ia viajar, ficava fora por dias. Hoje em dia, eu entendo, pois acabei de me divorciar e sei como é. Mas, nesse tempo, eu e meus irmãos ficávamos com a nossa empregada afro-americana, a Demetrie, e ela teve um grande impacto na minha vida, fez muito bem para minha autoestima. Nós criamos um laço amoroso rapidamente. As pessoas tendem a olhar para suas babás somente como empregadas. Mas eu e meus irmãos sempre as tratamos de outro modo. Mais tarde, minha irmã teve uma empregada brasileira chamada Gina, muito simpática e amável. Ela foi minha inspiração para a personagem Aibileen. Gina passou por coisas horríveis, mas nunca falava a respeito. Ela trabalhou para minha irmã em Nova York por anos, mas acabou voltando para o Brasil e indo morar em São Paulo. Ela sentia falta do país.

Como foi crescer em Jackson? Para mim, não foi tão difícil. Cresci sem mãe nem pai por perto. Tive uma adolescência selvagem. A maioria dos pais das minhas amigas dizia para elas voltarem para casa antes de anoitecer, mas eu cresci livre. Com a questão dos negros, eu era completamente ingênua. Como convivia muito com a nossa empregada, eu não entendia os limites que as pessoas brancas de lá têm com as pessoas de cor. É claro que estudei em uma escola apenas para brancos, mas simplesmente não entendia qual era a diferença. Isso sempre me intrigou muito.

Você mora em Atlanta. Vai a Jackson com frequência? Vou pelo menos uma vez ao ano. Mas as coisas por lá não mudaram muito. Quer dizer, é claro que são bem diferentes do que eram nos anos 1960 ou 70, mas aquela antiga geração ainda está viva. Ainda há mulheres que pensam exatamente como as matriarcas que eu descrevo no livro.

A protagonista do livro, Skeeter, teve uma vida parecida com a sua: questionava tudo, foi para a faculdade, virou escritora, se mudou para Nova York. Você se identifica com ela? E os outros personagens, foram inspirados em quem? Eu entendo o que você quer dizer, porque Skeeter realmente segue a minha trajetória, mas não consigo me identificar com ela. Como eu era muito ingênua, não conseguia questionar tudo como ela faz. Para a personagem Minny, eu

Capa do livro 'A Resposta', de Kathryn Stockett Capa do livro ‘A Resposta’, de Kathryn Stockett

Capa do livro ‘A Resposta’, de Kathryn Stockett (/)

pensei na atriz Octavia Spencer, que também é falastrona, por isso ela acabou fazendo o papel no filme. As outras personagens não são inspiradas diretamente em ninguém, porque senão eu seria processada (Kathryn já foi processada por Abilene Cooper, empregada que trabalhava para seu irmão, mas um juiz do Mississippi decidiu que havia se passado muito tempo entre os fatos que teriam inspirado a história e a publicação do livro; Kathryn nega as acusações e diz que conheceu pouco a empregada). Mas há elementos de gente que eu conheci, e as histórias são baseadas naquelas que eu ouvi quando era criança.

Embora trate de um assunto pesado, o livro tem uma leveza cômica. Foi sua estratégia para quebrar o gelo? É bom ouvir alguém dizer que ele é engraçado, mas a ideia não era essa. Eu sempre gostei de comédias e acho que elas são essenciais para a vida, sabe? As pessoas se levam tão a sério, e a vida é cômica, na maior parte do tempo. Talvez eu tenha passado esse traço da minha personalidade para o livro, mas não foi algo pensado.

Você sempre quis que Tate Taylor, seu amigo de infância, dirigisse o filme. Os estúdios aceitaram a ideia ou tentaram empurrar algum diretor? Claro que tentaram empurrar. Diziam que Tate não tinha experiência como diretor e que era melhor que só ficasse como produtor ou algo do tipo. Mas, ao mesmo tempo, sabiam que, se ele não estivesse ligado ao projeto, eles não teriam autorização para usar o roteiro, já que eu vendi os direitos para ele antes mesmo de o livro ser publicado, ainda em 2008.

Você participou das gravações? Ajudou a escolher o elenco ou algo assim? Só escolhi Octavia para o papel de Minny. No livro, ela nem era minha personagem favorita, era Aibileen. Mas a interpretação de Octavia é tão divertida que, na tela, ela se tornou minha preferida. As demais atrizes fizeram testes e foram escolhidas por Tate e pelo resto da equipe. Mas eu nem precisei fazer nada. Nem saberia fazer, na verdade, mal posso levar crédito pelo filme. Tate assumiu tudo

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