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Beyoncé canta sobre traição e o poder da mulher negra em novo disco

Em 'Lemonade', composto por doze faixas e um vídeo de uma hora, cantora usa crise de relacionamento para exaltar o feminismo

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, mais palatáveis, agora Beyoncé usa sua popularidade para falar de assuntos ácidos. O limão, logo, é uma metáfora bastante apropriada

Por essa os críticos de Formation não esperavam – ou torciam para não acontecer. Se Beyoncé surpreendeu e causou emoções controversas ao lançar um single político, repleto de referências sobre a cultura negra, agora a cantora entrega um disco inteiro baseado na premissa do poderio feminino e na importância de revisitar suas origens. Isso sem perder a batida sexy e emotiva que fez dela uma das mulheres mais famosas do mundo. Ao seu já conhecido estilo, ela adiciona experimentações bem-sucedidas de outros gêneros, como o rock e o country. Reforçam o disco a participação especial de nomes como Jack White, The Weeknd, Kendrick Lamar e, claro, Jay Z.

Lemonade, que conta com 12 faixas e um vídeo de uma hora, compilação de todas as canções em um único filme clipe, chegou primeiro ao serviço de streaming Tidal, antes de ser lançado, nesta segunda-feira, na loja virtual iTunes. O disco de Beyoncé é bem pessoal e muitas das faixas fazem alusões ao relacionamento de homem e mulher, o que levanta questionamentos: as letras retratam fatos? Refletem notícias de tabloides? Ou são metáforas de algo mais profundo que sua vida entre quatro paredes? Ao que parece, a última opção faz bastante sentido, já que as canções culminam em mensagens sociais ou na exaltação da mulher.

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Seguindo a premissa do projeto, o disco merece ser ouvido e assistido. O filme é dividido em 11 capítulos, começando por “Intuição”. De cara se destaca a introspectiva faixa Pray You Catch Me, em que ela canta sobre desonestidade e solidão, questionando não só as ações do seu parceiro, mas dos homens em geral. Logo ela passa para o próximo capítulo, “Negação”, em que surge submersa em um quarto alagado e faz um discurso sobre os sacrifícios da vida e dos relacionamentos. O clima depressivo é substituído pela canção Hold Up, que tem um ritmo reggae bem alegre, enquanto a cantora surge munida de um taco de baseball quebrando tudo o que encontra pela rua, mas sem perder o sorriso do rosto. Sinal de que, por trás de toda aquela alegria, ela esconde uma raiva latente.

“Raiva” é justamente o nome do terceiro capítulo, que leva a cantora a um estacionamento abandonado acompanhada de várias dançarinas negras. Ela então questiona o que o seu parceiro está vendo em uma outra mulher, que ela não tem. Em uma das faixas mais interessantes, Beyoncé se arrisca no rock com Don’t Hurt Yourself, com participação de Jack White e que possui um sample de When the Levee Breaks, do Led Zeppelin. De repente, a sequência que parecia quase um pedido de divórcio, se revela falar sobre a representatividade da mulher negra na sociedade americana, quando reproduz o áudio de um discurso de Malcolm X: “A mulher mais desrespeitada na América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada na América é a mulher negra.”

Depois da mensagem, Beyoncé inicia o capítulo quatro, “Apatia”, em que ela questiona: “o que você vai falar sobre mim no meu funeral, depois de me matar?”. Serena Williams e um exército de dançarinas em um ônibus entram em cena para dançar ao lado dela ao som de Sorry, na qual ela diz que não vai pedir desculpas. Com palavrões bem diretos, Beyoncé manda os homens cuidarem de suas próprias vidas e deixarem ela e suas amigas em paz. No sexto capítulo, intitulado “Vazio”, a cantora aparece em uma mansão com uma luz vermelha, para executar Six Inchs, uma parceria com The Weeknd, em que canta sobre a vida de uma stripper.

A sessão seguinte do vídeo, com o nome “Prestação de Contas”, leva a cantora de volta ao cenário do Sul dos Estados Unidos. Com um visual vintage, a artista fala sobre como queria ser igual a sua mãe, e traz referências à moda negra. “Sua mãe é uma mulher, e uma mulher como ela não pode ser contida. Mãe querida, deixe-me herdar a Terra. Me ensina a fazê-lo implorar”, diz a cantora em seu monólogo de apresentação. Em seguida, ela entoa Daddy Lessons, um surpreendente country, diferente de tudo que ela já fez. A letra da canção fala sobre como seu pai a incentivou a se tornar uma mulher forte, e a enfrentar todos os homens que tentarem diminui-la. O vídeo também traz cenas do pai de Beyoncé, Matthew Knowles, e da filha da cantora, Blue Ivy.

O alegre country é substituído pelo introspectivo capítulo “Reforma”, que intercala cenas em um estádio de futebol americano e de Beyoncé com uma linha de seguidoras andando à beira de um rio ao som de Love Drought. Em seguida, chega a oitava parte do álbum, “Perdão”, com a música Sandcastles, uma balada romântica que traz Jay Z (finalmente) ao lado da artista.

No nono capítulo, “Ressureição”, a cantora retorna mais uma vez ao cenário sulista. O objetivo de discutir o preconceito racial fica ainda mais explícito ao trazer à tona o movimento Black Lives Matter, com mães negras com fotos de seus filhos que foram mortos por policiais. A música Forward, uma parceria com James Blake, ainda traz a seguinte mensagem: “Vamos em frente. É hora de escutar, é hora de lutar”. Beyoncé se mantém no cenário sulista no episódio seguinte, “Esperança”, e com a canção Freedom, parceria com Kendrick Lamar, um hino da luta pelos direitos dos negros. Tanto o vídeo como a letra da canção desenham semelhanças entre a escravidão e o racismo na sociedade americana de hoje.

O 11º e último capítulo, intitulado “Redenção”, traz uma homenagem à avó de Beyoncé, quando ela fala sobre a receita de limonada que a matriarca fazia e que era capaz de curar qualquer coisa. Outra homenageada é a avó de Jay Z, que faz o discurso: “Eu tive meus altos e baixos, mas eu sempre encontrei minha força interior para me levantar. A vida me deu limões e eu fiz uma limonada”. Explicando o título do seu álbum com a palavra das veteranas, a cantora permite uma visita à intimidade de sua família. Durante a canção All Night, ela apresenta cenas de Jay Z e a pequena Blue Ivy, imagens do aniversário da filha e também de seu casamento. “Nosso amor é maior que o seu orgulho”, canta em um dos versos.

O single Formation, cujo clipe foi liberado em fevereiro e já foi visto mais de 37 milhões de vezes no Youtube, aparece após os créditos finais, se deslocando um pouco da linearidade do conjunto. Com o espetáculo visual de Lemonade, a cantora abraça suas origens, com a ajuda de algumas celebridades convidadas, como Zendaya, Amandala Stenberg, Quvenzhané Wallis, e Winnie Harlow. Ao contrário de seus trabalhos anteriores, mais palatáveis, agora Beyoncé usa sua popularidade para falar de assuntos mais ácidos. O limão, logo, é uma metáfora pra lá de apropriada.