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‘Beethoven japonês’ não é compositor nem surdo, afirma ‘laranja’

Verdadeiro autor das obras de Mamoru Samuragochi denuncia fraude e diz que o impostor nem mesmo perdeu a audição nos anos 1990

O japonês Mamoru Samuragochi, conhecido como “Beethoven japonês”, não é um compositor clássico e não é surdo, afirmou nesta quinta-feira seu “laranja”, em entrevista publicada pela revista semanal Shukan Bunshun nesta quinta, quando o “ghost-writer” também convocou uma coletiva de imprensa. Takashi Niigaki, o verdadeiro compositor das obras lançadas como se fossem de autoria de Samuragochi, falou pela primeira vez após 18 anos de trabalho.

A entrevista coletiva foi transmitida ao vivo pela televisão japonesa e durou mais de uma hora. O homem que foi o cérebro musical do suposto compositor surdo é professor de uma escola de música de Tóquio e afirmou que o falso maestro não tem problemas de surdez e que nem mesmo sabe escrever partituras.

Na quarta-feira, antecipando-se à publicação da entrevista de Niigaki, Samuragochi confessou que havia contratado outro homem para escrever suas 50 obras mais conhecidas. O impostor ficou famoso em meados dos anos 1990. Antes de sua confissão, ele dizia ter se tornado totalmente surdo há 15 anos, embora tenha continuado a trabalhar. Entre suas obras, produziu a Sinfonia Nº 1, Hiroshima, uma homenagem às vítimas da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos em 1945, e trilhas para games.

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Na entrevista à revista semanal Shukan Bunshun, publicada nesta quinta-feira, Takashi Niigaki, de 43 anos, descreve uma farsa cuidadosamente orquestrada na qual Samuragochi — que certa vez chamou sua perda de audição de “um presente de Deus” — interpretava o papel de um artista atormentado.

Niigaki, que afirmou que já não podia suportar a história falsa de um “Beethoven da era digital”, disse que Samuragochi frequentemente abandonava sua máscara de surdo. “No início, pode fazer alguns sinais com a mão ou ler os lábios, mas à medida que a conversa avança, começa a falar normalmente”, disse. “Acredito que custava muito a ele simular que estava totalmente sem audição. Recentemente, quando ficamos sozinhos em sua casa, falamos de um jeito normal desde o início”, acrescentou. Niigaki acrescentou na coletiva de imprensa que, desde o primeiro dia em que se reuniu com o “Beethoven”, jamais teve a impressão de que fosse surdo. Samuragochi não respondeu publicamente a essas novas declarações.

Niigaki afirmou que no início pensou que havia sido contratado como assistente do compositor. “Mas depois descobri que ele não consegue nem mesmo escrever partituras”, sustentou, acrescentando que, no fim, ele era “um cúmplice”.

Na entrevista, o professor de música Niigaki afirmou que no início aceitou compor sem se preocupar. “Mas ele se tornou cada vez mais famoso, e eu comecei a temer que um dia o prendessem. Muitas vezes quis parar, mas ele me pedia para continuar e me pagava (…) No ano passado, chegou a me dizer, em uma mensagem eletrônica, que se suicidaria se eu deixasse de compor”, disse.

(Com agência France-Presse)