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‘Avenida Barril’: o pendor da novela das 9 para os birinaites

Entornar o copo é um dos esportes favoritos dos personagens da trama da Globo. O gosto pela bebida é mais uma menção do folhetim à classe C – ou uma tentativa da emissora de cavar merchandising da indústria cervejeira

Por Mariana Zylberkan - 8 out 2012, 07h38

Seja nas conversas entre Tufão e Leleco, na casa de Monalisa na zona sul carioca ou nas mãos da grã-fina Verônica. A cerveja é tão onipresente em Avenida Brasil que poderia entrar para a lista de suspeitos da morte de Max, vilão que será assassinado nos próximos capítulos da novela de João Emanuel Carneiro. Marcante na trama, ela deu melhor sentido ao título de Avenida Barril, a paródia da novela exibida pelo Pânico na Band que, originalmente, se inspirava na casa do mexicano Chaves. Mais do que molhar a garganta dos personagens, a cerveja tem a função de pontuar um hábito de lazer inerente à vida no subúrbio, palco do folhetim que chega ao fim dia 19 de outubro. A novela que pela primeira vez pôs as classes populares no centro da história é também a que concentra a maior quantidade de biriteiros por capítulo.

Reunir amigos e parentes em torno de garrafas de cerveja é o lazer preferido da periferia. Números fresquíssimos do instituto de pesquisas Data Popular comprovam: na última semana, dos brasileiros que beberam o produto fermentado, 60,1% pertenciam à classe média e apenas 15,4% eram integrantes da classe alta. Mais: a preferência por cerveja em garrafa é 50% maior entre os integrantes da classe C, enquanto a versão em lata é mais popular entre os ricos (43% deles vão de latinha). “Isso mostra o caráter agregador do hábito de beber cerveja, que é consumida sempre em grupo”, diz Renato Meirelles, diretor do Data Popular.

Outra prova do enraizamento da cultura de boteco nos bairros de periferia é a transformação dos donos de bar em celebridades locais. “O bar é sempre batizado com o nome do proprietário, por mais que o letreiro diga o contrário”, diz Meirelles, lembrando que é pelo nome do dono que os clientes identificam o ponto. Em Avenida Brasil, a regra não falha: está lá o bar do Silas, personagem de Ailton Graça.

A presença constante da cerveja na trama também retrata uma mudança de hábito relacionada ao crescimento da renda das classes mais pobres. “Estamos vendo pela primeira vez na história uma queda do consumo de cachaça no Brasil”, diz André Torretta, diretor da consultoria de marketing A Ponte Estratégia, especializada em baixa renda.

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Se antes os menos favorecidos pediam uma “branquinha” no balcão do bar, eles hoje podem gastar um pouco mais e encomendar um copo de cerveja. Não à toa, o setor vem se expandindo: em 2008, ele movimentou 41,7 bilhões de reais, ante 36,1 bilhões em 2007.

Nesse sentido, Carminha voltou às origens ao protagonizar uma das cenas mais dramáticas da trama. Agarrada a uma garrafa de cachaça, a vilã afogou as mágoas após descobrir que seu comparsa Max (Marcello Novaes) havia se bandeado para o lado de sua inimiga Nina (Débora Falabella). “Toca para o inferno, motorista”, ordenou a megera ao motorista de caminhão de lixo que lhe deu uma carona até o lixão de mãe Lucinda, onde passou a infância.

Clima de cinema – Além de ajudar o público a embarcar no clima suburbano do fictício bairro do Divino, a participação da cerveja na novela é motivada por outra particularidade da trama: a sua reverência ao cinema americano. Câmeras e lentes restritas aos sets cinematográficos foram transportadas para o Projac, assim como o conceito de branded content (produto de entretenimento produzido por marcas), criado e enraizado por Hollywood.

Consultada, a Ambev, maior produtora de cervejas no Brasil, não respondeu ao pedido de entrevista, assim como João Emanuel Carneiro não quis comentar sobre a possibilidade dos cervejeiros de Avenida Brasil representarem a aproximação da novela com a estética e a estratégia do cinema americano.

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Mas especialistas não descartam a possibilidade da cerveja do Divino significar o interesse da emissora em disponibilizar um espaço publicitário às marcas da bebida na trama e, assim, aumentar o faturamento do principal produto da TV Globo. De acordo com o publicitário Fabio Wajngarten, diretor da consultoria Controle da Concorrência, algumas agências de publicidade que atendem marcas de cervejas o procuraram há um mês para calcular o número de cenas em que os personagens da novela aparecem bebendo cerveja. O dado, que ainda não foi calculado pela consultoria, serviria de base para decidir sobre a viabilidade de seus clientes investirem numa ação de merchandising no horário nobre da TV Globo, que envolve altos custos. A rede de beleza Embelleze, por exemplo, patrocinadora dos produtos para os cabelos criados por Monalisa (Heloisa Périssé) na trama, desembolsou 17 milhões de reais para levar a ação ao ar.

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