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As redes antes da internet

Em 'A Praça e a Torre', Niall Ferguson argumenta que a reunião de pessoas em grupos sem hierarquia já influenciava a história antes de Facebook e Twitter

A pacata cidade de Königsberg, no leste da antiga Prússia, ficou conhecida por ser lar do filósofo Immanuel Kant. Uma curiosidade urbanística do lugar, no entanto, é hoje ainda mais influente em nossa vida que as obras do grande pensador alemão: as sete pontes sobre o Rio Pregel, que conectavam não apenas as margens às ilhas do rio, mas também as ilhas entre si. O matemático suíço Leonhard Euler demonstrou formalmente, em 1735, que era impossível passar por todas as pontes da cidade sem cruzar pelo menos uma delas por duas vezes. Assim nascia a teoria dos grafos, que estuda a relação de objetos em um determinado conjunto, e que está na origem do que se chama de teoria ou ciência das redes: uma área de estudos que investiga conexões em redes que vão desde os fenômenos físicos e biológicos até as nossas interações sociais — e que se tornou especialmente relevante no mundo da internet, dos smartphones, do Google e do Facebook, da hiperconectividade instantânea e onipresente. O nosso mundo.

Pois esse é o nosso mundo há mais tempo do que pensamos — eis o que nos ensina o excelente A Praça e a Torre, do escocês Niall Ferguson, historiador e professor da Universidade de Stanford. Autor que combina erudição equilibrada com espírito de divulgação acadêmica, Ferguson explica que seu mais recente livro é uma tentativa de se redimir de uma omissão: como todos os historiadores, sempre teve sua atenção mais voltada para as informações que vinham de estruturas hierárquicas, como Estados. Redes tendem a ser mais amplas, dispersas e dinâmicas, quando não buscam se ocultar, como no caso de organizações secretas ao modo da maçonaria do século XVIII — o que explica a desatenção da historiografia convencional, já que nos aproximaríamos do terreno das teorias conspiratórias.

Na busca de um meio-termo entre a visão puramente hierárquica da história e os delírios de conspiracionistas, Ferguson encontrou uma imagem capaz de fornecer o desenho completo de sua investigação na cidade italiana de Siena, no trajeto entre a Piazza del Campo e a majestosa Torre del Mangia: “Em nenhum lugar do mundo você verá tão elegantemente justapostas as duas formas de organização humana retratadas neste livro”, escreve o autor. A torre, projetando seu poder hierárquico, e a praça, cenário das interações humanas mais variadas, integradas em um único ambiente, dão a Ferguson a chave para contar nada menos que uma nova história da humanidade, em que o papel das redes sociais sai fortalecido.

A PRAÇA E A TORRE, de Niall Ferguson (tradução de Angela Tesheiner e Gavin Adams; Crítica; 608 páginas; 124,90 reais

A PRAÇA E A TORRE, de Niall Ferguson (tradução de Angela Tesheiner e Gavin Adams; Crítica; 608 páginas; 124,90 reais (//Divulgação)

Mobilizando um impressionante conjunto de informações sociológicas, econômicas e tecnológicas, Ferguson reconstitui a grande aventura humana na terra (especialmente da Era dos Descobrimentos em diante) com as lentes da teoria das redes. Da existência de sociedades secretas com real influência sobre acontecimentos históricos às ambições do Facebook de ser um mecanismo de uma comunidade global interconectada, Ferguson examina as interações entre essas duas grandes estruturas da experiência humana. O historiador substitui os relatos tradicionais sobre a história da Reforma ou sobre a grande paz europeia do século XIX, centrados em questões econômicas ou institucionais, por uma nova visão, baseada na ciência das redes. Assim, um fato como a resistência do protestantismo religioso à repressão no século XVI pode ser explicado pelas “estruturas de redes espantosamente elásticas” que esses reformadores desenvolveram. O até então inigualável poder da família Rothschild explica-se melhor pelo sistema de redes que a família e suas instituições (bancos, empresas) formavam do que por qualquer critério estritamente econômico-político. Da transformação do bolchevismo russo de uma rede revolucionária em uma estrutura hierárquica fechada e opressora à grande derrocada do “Estado Administrativo” que caracterizou o período posterior à II Guerra Mundial, resultando na grande revolução disruptiva da nossa era de redes interconectadas e descentralizadas, nada parece escapar ao esquema conceitual aplicado por Ferguson.

Praça e torre não são realidades estanques: as redes também são hierárquicas, pois alguns de seus nódulos são mais centrais que outros, e as hierarquias mais estruturadas não deixam de ser “tipos especiais de redes”, com fluxos mais restritos de poder e informação. Ferguson, como se vê, é atento a nuances. Ele deixa, no entanto, uma dúvida incômoda: será mesmo que a “ciência das redes”, quando aplicada à história e à experiência humana, nos conta “uma nova narrativa histórica”? Em boa medida, sim, pois a ênfase recai em novos aspectos — as conexões familiares da nobreza europeia no século XIX, ou as ligações amorosas da elite de Cambridge no início do século XX. Mas talvez esse esquema conceitual seja mais bem aplicado a objetos menos abrangentes, ainda que suficientemente complexos — por exemplo, para compreender como “nossa era interconectada” resulta em transformações políticas das dimensões da eleição de Trump, ou do voto pró-Brexit. O livro ganharia ainda mais se fosse menos panorâmico, centrando-se nesse emaranhado no meio do qual nos sentimos, sim, como se fôssemos, cada um de nós, uma ilha de incompreensão e isolamento.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635

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