Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Ao estilo de Corman

Por Luiz Carlos Merten

São Paulo – À sombra de Roger Corman. Foi assim que tudo começou, numa conversa entre o diretor Guel Arraes, a produtora Paula Lavigne e Mauro Lima, no set de O Bem Amado. O trio estava no set construído para reproduzir a cidadezinha de Sucupira, na adaptação do original de Dias Gomes que já havia feito sucesso como novela, série e até peça de teatro. Mauro Lima é o diretor de Meu Nome não É Johnny, com Selton Mello. “Eu observei que, se houvesse uma indústria de verdade no cinema brasileiro, aquele set, tão grande, poderia ser usado para abrigar outra produção, para contar outra história. Começamos a falar sobre o Roger Corman, que fazia isso no cinema norte-americano.”

E foi assim que surgiu Reis e Ratos, mas é bom voltar a Roger Corman. “Ele se orgulhava de nunca ter perdido dinheiro, porque reciclava sets e filmava rapidamente, aproveitando atores. A Paula me desafiou – e se a gente fizesse a mesma coisa? Eu tinha esse roteiro que havia escrito como exercício, muitos anos antes. Sempre quis fazer alguma coisa sobre o golpe de 64 e escrevi o roteiro numa época em que ser diretor era meu sonho de estudante.” Paula leu, gostou – e resolveu arriscar.

“Mas para que a coisa funcionasse, do jeito que imaginávamos, tudo teria de ser feito rapidamente”, prossegue Mauro Lima. Foi assim que surgiu Reis e Ratos, como um desafio, ou uma brincadeira. Não foi difícil para Lima cooptar seu amigo Selton Mello, com quem havia feito Johnny. “Estava jantando com um grupo que incluía Rodrigo (Santoro), falei do projeto e ele me pediu que enviasse o roteiro. Mandei e o Rodrigo me disse sim, imediatamente. Cauã foi outro que embarcou sem vacilar.” Como a urgência estava na essência do filme, não poderia haver muito tempo para preparação. Mauro Lima confiava no taco de seus atores. Eles corresponderam.

“O Selton, que havia sido dublador, propôs a voz fake do seu agente da CIA que participa do golpe militar e quer ficar no Brasil. É uma voz de canastrão que ele faz muito bem, com uns olhares que são irônicos”, avalia o diretor. “Cauã também trabalhou a voz, mas o que ele propôs foi essa coisa física que serve bem ao personagem. Rodrigo embarcou tanto que pediu ao dentista dele que criasse a prótese que torna seu personagem tão bizarro.”

Mauro Lima sabe que seu filme não se assemelha a nenhum outro do cinema brasileiro, recente ou não. Pelas peculiaridades da produção, não houve tempo de inscrever Reis e Ratos nas leis de patrocínio. “A Paula bancou, com cheque dela.” Quando a Warner entrou no projeto, a pós-produção ficou um pouco mais elaborada, “mas a gente já pensava que o filme deveria ter um acabamento mais elaborado.” Reis e Ratos ganhou efeitos que lhe dão ares de superprodução e até foi colorizado. Numa entrevista com o repórter, no set de Meu País, de André Ristum, Rodrigo Santoro e Cauã Reymond, já haviam cantado essa coisa da colorização e, depois, em outro encontro, Cauã revelara: “Gostei.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.