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Alto, forte e gosmento

'Venom' acrescenta mais um super-herói do segundo escalão ao rol das adaptações cinematográficas, que já parece uma lista de patriarcas bíblicos do Gênesis

Eddie Brock (Tom Hardy), repórter intrépido, não perde uma chance de criar confusão. Basta ficar sozinho por dois minutos no laboratório em que entrou clandestinamente e pronto: deixa-se invadir por um organismo alienígena muito plástico, gosmento e nervoso — o Venom, ou, em tradução literal, Peçonha. A criatura e duas colegas suas foram trazidas do espaço por um foguete (e pela arrogância) do jovem empreendedor Carlton Drake (Riz Ahmed, da série The Night Of), que o roteiro de Venom (Estados Unidos, 2018), em cartaz no país, pinta como um Elon Musk do mal. Em prol de seus experimentos visionários, Drake já deixou que seus ETs matassem dezenas de indigentes, viciados e marginais, por cuja falta ninguém dá. Mas, quando Venom invade Brock, tem-se o milagre que o cientista buscava: simbiose total. Ou quase isso, uma vez que hóspede e hospedeiro são de temperamentos opostos, e não param de brigar pelo direito de ficar mais à superfície, por assim dizer. O mesmo acontece na interpretação de Tom Hardy, um ator intenso, mais afeito a personagens que ameaçam e intimidam, e que aqui tenta, com êxito apenas ocasional, fazer aflorar uma faceta ligeira e brincalhona.

Produzido pela Columbia fora do guarda-chuva dos Estúdios Marvel, controlados pela Disney, o filme deixa um saldo incerto: a matéria-prima é pesada, e nem sempre se dobra com facilidade ao tratamento cômico. Apesar da direção entusiasmada de Ruben Fleischer, do ótimo Zumbilândia, Venom evidencia, também, certo esgotamento dos filmes “de origem”. Com tantos protagonistas do segundo escalão juntando-se ao rol, a esta altura a coisa começa a ficar parecida com as listas de patriarcas do livro do Gênesis — e quem lembra que “Henoc gerou Irad, Irad gerou Maviael, Maviael gerou Matusael, e Matusael gerou Lamec”?

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603