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Adoráveis tipos falhos

Cinebiografia 'Bohemian Rhapsody', sobre Freddie Mercury, e a série 'Homecoming', com Julia Roberts, estão entre os destaques no cinema e na TV

Cinema

CINEMA – Mercury (Rami Malek): biografia mesmerizante

CINEMA – Mercury (Rami Malek): biografia mesmerizante (Twentiwth Century Fox Filma/.)

1. BOHEMIAN RHAPSODY (Inglaterra/Estados Unidos, 2018)
Filho de imigrantes, dentuço e subempregado como carregador de bagagens no aeroporto londrino de Heathrow — em 1970, só podia parecer absurda a ideia de que Farrokh Bulsara se tornaria Freddie Mercury, o vocalista que, à frente do Queen, era capaz de dobrar multidões ao seu carisma e preencher estádios com sua voz poderosa. Dos primeiros shows em palcos obscuros ao estouro no mercado fonográfico, da relação inicialmente transbordante de afinidade ao convívio desgastado pelo atrito entre os membros da banda, e da união apaixonada de Mercury com a jovem Mary Austin à descoberta da homossexualidade, o filme retraça um percurso feito quase que só de auges. É recatado no trato dos excessos químicos e sexuais do protagonista, mas exuberante na maneira como pinta seu talento, sua arrogância, seu magnetismo e sua voz impressionante. Dirigida por Bryan Singer e estupendamente estrelada por Rami Malek, a cinebiografia reproduziu nas salas de cinema o fenômeno de que Mercury era capaz ao vivo: mesmerizou a plateia.

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2. O PRIMEIRO HOMEM (First Man, Estados Unidos/Japão, 2018)
O diretor Damien Chazelle, de Whiplash e La La Land, faz uma crônica minuciosa dos primeiros passos da Nasa na conquista espacial e do desenvolvimento do programa Apollo. Em paralelo, seu filme investiga atentamente o íntimo de um homem — o astronauta Neil Armstrong, o primeiro a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969 — para esmiuçar a história eterna da conquista do desconhecido: de como ela é feita do esforço sobre-humano capaz de enfrentar jornadas que expõem precariedades físicas e materiais; ao mesmo tempo, examina como tal força nasce de uma necessidade puramente existencial, e inexplicável, de ultrapassar um limiar. Dos testes com a cápsula frágil que quase se desfaz em órbita até o luto denso pela perda da filha que impulsionou Armstrong (Ryan Gosling) rumo ao espaço, Chazelle emoldura as histórias do astronauta em um estilo visual tão limpo quanto majestoso. Na mesma equação, conseguiu integrar ainda a variável da insatisfação humana, para mostrar que é a esta, e não a qualidades idealizadas como a coragem, que se deve creditar qualquer pioneirismo.

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3. INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman, Estados Unidos, 2018)
Quase três décadas depois de estourar com Faça a Coisa Certa, Spike Lee recobrou o vigor e também o ardor do início da carreira com a história verídica de dois policiais, um negro e um judeu, que, nos anos 70, conseguiram com suas artimanhas cair nas graças dos supremacistas brancos da Ku Klux Klan e assim desvendar uma conspiração e evitar um atentado violento na pequena cidade de Colorado Springs. A direção fluente, o humor saboroso e os diálogos tão audaciosos que chegam a ser, às vezes, ultrajantes deixam transparecer o prazer genuíno de Lee em contar esse caso. Sua sintonia com o elenco de primeira linha — encabeçado por John David Washington, filho de Denzel, e Adam Driver — é também impecável, e lembra que grande diretor de atores ele pode ser. É, porém, no desfecho montado com cenas reais do confronto entre supremacistas e manifestantes em Charlottesville, na Virginia, em agosto de 2017, que Lee amarra essa história com sua contundência habitual, traçando um paralelo rascante entre a América de ontem e a de hoje.


Televisão

TELEVISÃO –  Julia, em Homecoming: a surpresa do ano

TELEVISÃO –  Julia, em Homecoming: a surpresa do ano (Amazon Prime/.)

1. HOMECOMING (Amazon Prime Video)
Em sua primeira investida nas séries de streaming, Julia Roberts encontrou um dos melhores papéis de sua carreira. Homecoming foi lançada sem alarde na reta final do ano pelo Prime Video, da Amazon — e revelou-se a bela surpresa de 2018. A protagonista de Uma Linda Mulher (1990) tira a maquiagem para interpretar a elusiva Heidi Bergman, personagem cuja vida é flagrada em dois tempos. Em um centro de pesquisas patrocinado pelo governo americano, ela é a terapeuta encarregada de monitorar ex-soldados acometidos de stress pós-traumático. Anos mais tarde, ressurgida como garçonete de um restaurante ordinário, nega-se a falar do passado diante de Thomas Carrasco (Shea Whigham), tímido mas resiliente fiscal que investiga fatos cavilosos ocorridos no extinto laboratório. Embora Julia Roberts esteja aqui no seu melhor, o que faz diferença mesmo é a presença de outro nome nos créditos: o roteirista e diretor Sam Esmail, da incensada série Mr. Robot. Tomando como base da série um podcast de sucesso nos Estados Unidos, ele montou um intrincado quebra-cabeça com referências espertas que vão de Vertigo — Um Corpo que Cai (1958), do inglês Alfred Hitchcock, a Playtime —Tempo de Diversão (1967), do francês Jacques Tati. Mais que um thriller conspirativo sobre os desvãos da burocracia corporativa, Homecoming é um ensaio sobre o caráter fugidio da memória.

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2. OBJETOS CORTANTES (HBO)
O ano de 2017 foi, talvez, o fundo do poço para a HBO: com a ascensão da rival Netflix na seara do streaming, o canal viu dissipar-se sua posição de prestígio absoluto na TV. Em 2018, no entanto, a HBO demonstrou ter energia criativa para reagir. Acertou tanto na impecável adaptação de A Amiga Genial, romance da italiana Elena Ferrante, quanto na climática Objetos Cortantes — também inspirada, de resto, em um best-seller: o livro homônimo da americana Gillian Flynn. Mais uma beldade que coleciona indicações ao Oscar a fazer sua passagem para o mundo das séries, Amy Adams recorre à receita clássica nesses casos, despindo-se de qualquer pudor em nome da arte. Em Objetos Cortantes, ela é Camille Preaker, repórter decadente de um jornaleco de Chicago que afoga as mágoas no uísque e tem o aspecto de quem não vê banho há muito, muito tempo (ainda assim, acredite, a ruiva resplandece em cena). Certo dia, aquilo que estava ruim torna-se ainda pior: seu editor a destaca para fazer uma reportagem sobre uma série de assassinatos de meninas na cidade natal da personagem, no sul dos Estados Unidos. À maneira dos melhores momentos da cultuada True Detective, fica impossível separar os tormentos pessoais de Camille, incluindo sua relação doentia com a mãe (a sempre eficaz Patricia Clarkson), dos crimes bárbaros que ela investiga.

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3. BODYGUARD – SEGURANÇA EM JOGO (Netflix)
A série de ação Bodyguard exemplifica uma tendência forte de 2018: a crescente globalização da oferta de programas na Netflix. A parceria da plataforma com a rede inglesa BBC constitui uma junção de titãs com múltiplas vantagens: resulta em mais frescor narrativo e apelo cosmopolita. A série, aliás, foi uma das mais vistas da Netflix neste ano. Boa parte do charme de Bodyguard vem da química entre seus protagonistas. Distante do chatonildo Robb Stark de Game of Thrones, Richard Madden é um agente secreto inglês que, a título de condecoração pela atuação heroica em uma tentativa de ataque terrorista a um trem, torna-se guarda-costas de Julia Montague (Keeley Hawes), ministra durona que incomoda muita gente ao propor uma lei que permitiria bisbilhotar a vida de qualquer cidadão sob o pretexto de combate aos radicais islâmicos. A frieza da etiqueta britânica não impede que role um clima entre ambos — mas esse é só o primeiro, e mais óbvio, de tantos lances que eletrizam a trama.

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Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614