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‘A Usurpadora’ é trash, mas está na moda. E nas redes

O sucesso da novela mexicana exibida pela quinta vez no SBT, é prova de que gosto não se discute quando o assunto é garantir pontos no Ibope

Na disputa acirrada com a Record pela vice-liderança na audiência, o SBT tem levado a melhor na faixa vespertina depois de transformar um patinho feio em uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. Sem o menor pudor, a emissora de Silvio Santos ocupa as suas tardes com clássicos do trash televisivo: as já revisitadas novelas mexicanas da Televisa. A eficácia da fórmula, que inclui o melodrama caricato, o visual exagerado dos personagens e a dublagem malfeita, acaba de ser comprovada mais uma vez. A reprise de A Usurpadora, trama produzida em 1998 com a atriz Gabriela Spanic à frente, chegou ao fim nesta sexta-feira com média de seis pontos no Ibope, muitas vezes dois pontos à frente da terceira colocada. Prova de que gosto não se discute quando o assunto é conquistar audiência.

Recorrer ao conteúdo tosco para convencer o público a se sentar diante da TV não é uma fórmula bem-sucedida apenas no SBT, embora Silvio Santos conheça como ninguém a arte de fazer muito com pouco. O canal exibe há quase trinta anos o humorístico Chaves, feito também no México da maneira mais simples – para não dizer simplória. E garante quase diariamente o segundo lugar no Ibope graças ao Programa do Ratinho, entidade do trash na televisão brasileira por seus testes sensacionalistas de DNA. A rival Band viu sua média geral de audiência subir um ponto depois de abrigar o Pânico, ex-RedeTV!, que extrapola o trash e resvala no mau gosto.

‘A Usurpadora’

A novela, que estreou no canal mexicano Televisa em 1998, conta a história das irmãs gêmeas Paulina, a boa, e Paola, a má (Gabriela Spanic). Separadas na infância, as irmãs disputam o amor de Carlos Daniel (Fernando Colunga) quando adultas. Exibida pela quinta vez no SBT, A Usurpadora concentra todos os clichês clássicos da novela mexicana e, consequentemente, do kitsch na televisão: melodrama rasgado, figurino e maquiagem exagerados e herói romântico com nome composto. 

‘Hermes e Renato’

A dupla de humoristas Fausto Fanti e Marco Antônio Alves se imbuiu dos elementos do trash e criou um programa propositalmente tosco. As esquetes cômicas sempre foram filmadas sem muita preparação na rua mesmo, nos arredores da sede da MTV, emissora na qual o humorístico foi exibido por dez anos. Em 2009, a atração migrou para a Record, onde perdeu parte de seu brilho e, neste ano, voltou para a MTV. Os erros de gravação e o abuso de piadas escatológicas, sem falar nos palavrões, são a marca registrada do programa.  

‘Teste de Fidelidade’

Triste de quem achou que o Teste de Fidelidade, célebre programa trash dos anos 1990, era coisa do passado. O hit do mau gosto na TV retornou ao ar no início de março pela RedeTV!. O apresentador João Kléber voltou a gritar e exagerar na narração das puladas de cerca que são gravadas como pegadinhas e depois exibidas diante do cônjuge traído. A reestreia do programa garantiu dois pontos de audiência à emissora, que chega a registrar traço no Ibope. De volta à TV brasileira após hiato de oito anos, Kléber também comanda o matinal Você na TV, na mesma emissora. 

‘Superpop’

O programa comandado por Luciana Gimenez na RedeTV! é, atualmente, o exemplo mais emblemático do trash na TV. Sob a falsa pretensão de entregar um produto popular, a cúpula da RedeTV! troca os pés pelas mãos e leva ao ar uma atração que oferece pouco mais do que discussões ao vivo sobre temas espinhosos. Além dos barracos, já se tornou um clássico do programa o desfile de lingeries, exibido sempre às quartas-feiras para concorrer com as transmissões do futebol da Globo.

‘Pânico na Band’

O humorístico se dedica basicamente a expor pessoas ao ridículo, seja no palco, ao vivo, ou nas gravações externas em que famosos são abordados em eventos sociais. Apesar de tanta baixaria, o Pânico na Band registra bons índices no Ibope e foi responsável por aumentar a audiência média da Band depois de mudar para a emissora, em fevereiro de 2012. 

‘Os Mutantes – Caminhos do Coração’

A novela de Tiago Santigo, exibida na Record entre 2007 e 2009, foi o típico caso de trash involuntário. A trama primou pelo realismo fantástico com seus lobisomens, vampiros e outros seres imaginários em cenas de efeitos especiais precários. O conteúdo tosco agradou os espectadores e Os Mutantes alcançou picos de audiência. Após o sucesso, o autor foi contratado pelo SBT, onde levou ao ar a novela Amor e Revolução (2011), além da adaptação de Uma Rosa com Amor  (2010). O Superpoder do Amor, trama pensada nos mesmos moldes de Os Mutantes, sobre alienígenas e vampiros, chegou a ser anunciada, mas ainda não saiu do papel. 

‘Chaves’

Há 29 anos ininterruptos no ar, o seriado tornou-se uma instituição da TV brasileira, o que não o exime de sua vocação trash. Praticamente todas as cenas são feitas em um mesmo e simples cenário, assim como os figurinos dos personagens, caricatos ao extremo e sempre os mesmos. Todas as vezes que o SBT ensaiou tirar o programa do ar foi saraivado por críticas e pedidos de reconsideração. Chaves é exibido diariamente com média de seis pontos no Ibope e vai ganhar uma linha de produtos licenciados inspirada na versão animada do protagonista. 

Programa do Ratinho

O apresentador Carlos Massa, o Ratinho, se tornou o rei da exposição de disputas familiares na TV. O maior emblema disso é o quadro no Programa do Ratinho, em que ele apresenta o famoso teste de DNA, no qual filhos buscam ao vivo o reconhecimento de paternidade. As baixarias garantem a vice-liderança ao SBT no horário nobre e o Programa do Ratinho é visto como um dos maiores trunfos da emissora na disputa acirrada pelo segundo lugar na audiência com a Record. 

O trash é pop – Por trás dessa inusitada relação entre boa audiência e estética capenga estão dois tipos de comportamento. O primeiro é o do público que realmente gosta do que é tosco; o segundo é o dos espectadores que assistem a esses programas para fazer graça com eles. E quem ri de algo dessa forma sempre se coloca um degrau acima do objeto da piada. “Alardear o gosto pelo trash é um modo de se afirmar. Quem faz isso diz aos outros que está confortável com a sua bagagem cultural e não teme que seu gosto seja posto em xeque”, diz a pesquisadora Mayka Castellano, doutoranda em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora da tese de mestrado “É bom porque é ruim – Considerações sobre produção e consumo de cultura trash no Brasil”.

A ideia é corroborada por Clemara Bidarra, professora de Crítica da TV no curso de pós-graduação em Produção Executiva e Gestão da Televisão da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). “Gostar do trash é uma maneira de se diferenciar”, diz ela. Não basta, portanto, seguir a programação trash na TV, é necessário mostrar a todos que você a acompanha. É aí que entram as redes sociais, onde a veneração às produções toscas e exageradas ganha novos contornos.

Segundo a plataforma TV Square, criada para reunir comentários sobre programas de TV nas mídias sociais, as exibições dos capítulos de A Usurpadora geraram 86,5 posts por minuto no Twitter, Facebook e no próprio site da TV Square na semana entre os dias 1º e 8 de maio. Nesse período, o programa ficou em quarto lugar entre os mais comentados, atrás de Salve Jorge (97,8 mensagens por minuto), Fantástico (97) e Rosalinda (96,9), outra representante do trash mexicano do SBT. No ranking que reúne as novelas mais comentadas ao longo do dia, não considerando a velocidade da publicação dos comentários, A Usurpadora e Rosalinda são a segunda e a terceira colocadas, atrás apenas de Salve Jorge, da Globo. Que não deixa de ser trash.

Tosco lucrativo – A cúpula do SBT sabe que a chamada segunda tela é sua aliada. Não à toa, as novelas da Televisa são exibidas entre as 13h e 17h, período dominado pela audiência jovem, de 13 a 21 anos, mesmo público-alvo das plataformas de segunda tela. “Queríamos aumentar a audiência da faixa-horária e, antes de programar a reexibição de A Usurpadora, bolamos também estratégias de marketing, como a vinda da atriz Gabriela Spanic ao Brasil”, diz Murilo Fraga, diretor de planejamento de programação do SBT. Outra razão para a emissora ocupar sua faixa vespertina com novelas mexicanas é o conteúdo leve dessas produções, que livram o canal de dores de cabeça com a classificação indicativa.

A estratégia de programação, se é passível de críticas do ponto de vista estético, merece aplausos no quesito negócios. O SBT tem contrato com a Televisa até 2015, o que lhe dá o direito de exibir suas produções, sem custo adicional, por mais dois anos. Reexibir, portanto, representa investimento quase zero e retorno garantido. E Silvio Santos tem sugado até a última gota dessa fonte. Atualmente, o canal exibe três produções da Televisa ao mesmo tempo – Cuidado com o Anjo, Rosalinda e Rubi; sem falar em Carrossel e Chiquititas, novelas infanto-juvenis que ganharam versões originais pelas mãos de Iris Abravanel. Também está prevista, porém sem data de estreia, a exibição de Soy Tu Dueña, trama protagonizada por Gabriela Spanic e produzida em 2010.

Além disso, Silvio Santos faz dinheiro – e muito dinheiro – com o licenciamento de marcas. Estima-se que Carrossel já tenha rendido mais de 100 milhões de reais em venda de figurinhas, CDs e cadernos, entre outros.

Não é difícil entender o que se passa na cabeça dos executivos de TV. Resta saber o que passará pela mente dos que consomem com voracidade esse tipo de programação. Para a professora de Crítica da TV Clemara, da Faap, a diversão de atribuir valor cultural ao trash esconde uma armadilha. “Uma geração de jovens está sendo exposta diariamente a injeções de acefalia.” Em doses cavalares, pode mesmo ser perigoso para o cérebro. Mas não deixa de ser divertido. E está na moda.