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A mulher que caiu na terra

Primeiro filme do ‘Marvelverso’ dedicado a uma heroína, Capitã Marvel tem pontos baixos, mas um fortíssimo ponto alto no elenco liderado por Brie Larson

De jaqueta de couro e óculos de aviador, Carol Danvers e sua melhor amiga, Maria Rambeau (Lashana Lynch), seguem do hangar para seus respectivos caças: “Vamos mostrar aos rapazes como é que se faz”, brincam — ou, melhor dizendo, desafiam: o primeiro item na agenda de Capitã Marvel (Captain Marvel, Estados Unidos, 2019), já em cartaz no país, é provar que ela nada deve a Thor, Capitão América, Homem de Ferro, Pantera Negra ou qualquer super-herói do primeiro escalão da Marvel que venha com os cromossomos XY. Mais que isso: a personagem interpretada por Brie Larson, ganhadora do Oscar por O Quarto de Jack, em 2016, tem de persuadir a plateia de que está habilitada a cumprir a tarefa muito especial que lhe caberá em Vingadores: Ultimato, a estrear em 25 de abril — a de compensar o desfalque nas fileiras de super-heróis efetuado pelo vilão Thanos, que pulverizou metade da população do universo no filme do ano passado (ou, talvez, revelar-se instrumental para reverter esse desfalque).

Antes de mais nada, porém, é preciso que a protagonista convença a si mesma do que é capaz: quando despenca na Terra, em 1995, bem em cima de uma locadora Blockbuster (True Lies, de James Cameron, é o lançamento do momento em VHS), ela ainda conhece a si mesma como Vers, uma guerreira da raça Kree que dispara raios pelas mãos, mas cujo mentor, Yon-Rogg (Jude Law), a critica sempre por ser emocional demais e racional de menos (leia-se: mulher). Yon-Rogg vive avisando Vers que o poder que lhe foi dado pela inteligência suprema de sua raça — a qual, para ela, misteriosamente assume a forma de Annette Bening — pode ser-lhe retirado, caso ela não faça jus às expectativas. E a expectativa é que ela contribua para a derrota dos Skrull, raça que acossa os Kree com uma agressiva expansão imperialista. Os Skrull têm aparência reptílica, mas podem copiar o DNA de qualquer ser vivo e, em instantes, assumir sua forma: surfistas, velhinhas (os passageiros do metrô mal acreditam quando Vers enche de pancada uma senhora sorridente) e até agentes da S.H.I.E.L.D., que nesta altura é ainda uma organização incipiente chefiada pelo afável e engraçado Nick Fury (Samuel L. Jackson, digitalmente rejuvenescido). Como no caso dos Skrull, entretanto, as aparências, aqui, enganam. E o que está por trás delas é o que Vers vai descobrir à medida que os lampejos de uma memória passada se intensificam e ela compreende que em algum momento, antes de ser Vers, ela foi a piloto de teste Carol Danvers, e teve uma longa passagem pela Terra.

LUTA INTERGALÁCTICA - Jackson, rejuvenescido por truques digitais, como Nick Fury: o mundo pré-Vingadores

LUTA INTERGALÁCTICA - Jackson, rejuvenescido por truques digitais, como Nick Fury: o mundo pré-Vingadores (Marvel Studios/Divulgação)

Capitã Marvel tem trincas pelas quais se entrevê a pressão exercida pelos múltiplos objetivos do projeto — o primeiro de vinte filmes do “Marvelverso” a ter uma mulher em posição central à frente das câmeras, e também atrás delas (a diretora Anna Boden, fazendo sua dupla habitual com o diretor Ryan Fleck). Capitã Marvel tem de comemorar esse feito algo tardio, mas sem sublinhá-lo em excesso; tem de explicar a origem da personagem, mas fugindo tanto quanto possível da trilha batida dessas histórias; e tem de se equilibrar entre ação, comédia e drama — algo que não faz com muita desenvoltura. Prestigiados por filmes pequenos mas que sobressaem pela especificidade da narrativa, como Half Nelson, Sugar e Parceiros de Jogo, Anna Boden e Ryan Fleck são uma dessas apostas típicas da Marvel, que tem por regra atrair cineastas de outras órbitas. Mas não se adaptaram de imediato ao novo hábitat. Quase sempre, acertam a mão nas cenas ancoradas em interações entre os personagens e nas brincadeiras não necessariamente originais, mas saborosas, com os anos 90 (vilão e mocinha confraternizam, rolando os olhos, enquanto esperam um disquete carregar — esses terráqueos, tão primitivos!). A engrenagem do filme, porém, parece pesada demais para a dupla de diretores, o que resulta em trocas de marcha desajeitadas e em um clímax de ação genérico — muita luz, cor e efeito, e pouca tração emocional.

O elenco, contudo, é um deleite: Brie Larson é sempre decidida, mas aqui mostra um lado ligeiro que não é natural dela, e que a presença deliciosa de Samuel L. Jackson estimula e encoraja. Quem de fato surpreende, porém, é o australiano Ben Mendelsohn (de Rogue One e Jogador Nº 1, e também de Parceiros de Jogo, da mesma dupla de diretores), perfeitamente reconhecível nas feições, na personalidade e no senso de humor sob a pele de jacaré do general Talos, o comandante Skrull, que segue Vers até a Terra e tem uma química efervescente com o personagem de Jackson. A escalação de elenco afinada faz muito por encobrir as falhas de Capitã Marvel, torná-lo uma experiência tão agradável e impulsioná-lo à frente. É um capital decisivo: ao contrário da Mulher-Maravilha, com que a rival DC Comics adentrou o terreno das super-heroínas há dois anos, a Capitã Marvel não conta com a mesma popularidade entre a plateia — nem Brie Larson é uma quase­-unanimidade como o era a israelense Gal Gadot. Feminista muito vocal, Brie irrita os fãs mais rústicos, que passaram as últimas semanas malhando a atriz e o filme (que ainda não viram) nas redes sociais. Capitã Marvel, porém, ensina a esses rapazes como é que se faz: poder nem é um favor que se recebe, nem uma concessão que se retira. Carol Danvers até duvida do seu. Mas, quando a ocasião exige, responde com uma verdadeira tempestade nuclear.

Publicado em VEJA de 13 de março de 2019, edição nº 2625

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