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2013, o ano em que tudo começou

Romance destrincha as sutilezas das relações que sobreviveram ao caos político e econômico de um Brasil polarizado

Tratar da realidade política e social imediata, que é o duro trabalho do jornalismo diário na sua luta sempre incerta por desvendar objetivamente os fatos, não é tarefa fácil para a literatura, quando se aventura na área do registro realista. Especialmente no momento agudo que vive o Brasil, ao escolher essa pedreira fugaz como objeto haverá sempre o risco de o escritor resvalar para o meramente datado, o esquematismo político ou, pior ainda, o panfleto constrangedor e moralizante das boas intenções.

Foi o risco calculado que assumiu o gaúcho Jerônimo Teixeira, editor de VEJA, com o romance Os Dias da Crise, que tem como pano de fundo a crise brasileira a partir das célebres “jornadas de junho”, e como personagens figuras do mundo corporativo em queda. “O que se definiu em junho? Não me pergunte, não nos pergunte. Ninguém soube, ninguém sabe, ninguém jamais entendeu nada”, diz Alexandre, narrador e importante funcionário de uma empresa prestes a afundar. Tomando como epicentro narrativo as manifestações mais ou menos espontâneas de 2013 que ocuparam as ruas das cidades num fenômeno difuso e inesperado que acabou por provocar profundas transformações no universo político nacional, Alexandre faz uma radiografia ficcional da própria vida. Na inspeção estão as pessoas que gravitam em torno dele: colegas da empresa, o irmão e a cunhada, a ex-mulher, a nova namorada, a única filha — relações suscetíveis às divisões por vir.

OS DIAS DA CRISE, de Jerônimo Teixeira (Companhia das Letras; 120 páginas; 44,90 reais o físico e 29,90 reais o e-book)

OS DIAS DA CRISE, de Jerônimo Teixeira (Companhia das Letras; 120 páginas; 44,90 reais o físico e 29,90 reais o e-book) (//Divulgação)

“Não gosto de ler”, começa ele, dan­do já na primeira frase o tom irônico de sua linguagem, em que um medido mau humor avança em vários momentos para a graça mais escancarada da sátira, gênero que no entanto não definirá o livro. Ao longo do texto, que agarra o leitor do começo ao fim, permanece sempre uma discreta pungência no personagem que o impede de se entregar por completo ao conforto demolidor da crítica, ao puro cinismo ou mesmo à simples indiferença defensiva, esta marca do tempo, o que a epígrafe do livro, tirada de um conto de Dostoiévski, parece frisar: “Para mim tudo era indiferente”. Não era, o leitor descobrirá.

O olhar irônico se volta especialmente contra o ambiente de trabalho e suas figuras típicas, ridículas e recorrentes, a partir de duas presenças centrais: o novo CEO da empresa, Vladimir Eollo — referência tanto ao deus dos ventos da mitologia grega como a Lenin, que teria inspirado seu nome —, e o diretor de RH, também sugestivamente chamado de Raimundo Niquil, imerso no sigilo sinistro de suas planilhas de cortes e demissões. Eollo terá uma ideia de gênio, um novo e misterioso “Produto”, fabricado na China, que nos seus planos haverá de salvar a todos, e o fantasma de sua eficácia percorre o livro.

Em outra ponta saborosa da narrativa, Alexandre participa do Círculo da Blasfêmia. Um grupo de amigos, inspirados pelas teses do obscuro pensador John Teufelsdröckh, autor de uma obra motivacional chamada Power of Powers, “Poder dos poderes”, um pastiche cínico de filosofia com autoajuda, reúne-se periodicamente para exercitar as delícias da heresia. Nas reuniões catárticas, falava-­se mal de Deus e do mundo, até que a polarização ideológica contamina o grupo e uma piada mal calculada sobre os índios implode as amizades.

A sátira não se faz, entretanto, atrelada a uma posição confortável ou superior. O espírito geral de fracasso, sintoma da inteligência crítica contemporânea, perpassa a cabeça de Alexandre, parte inseparável do que descreve. Há uma rede de relações afetivas que o narrador tenta deslindar e delas se desvencilhar, sem êxito, em busca de um inacessível salto para fora. A trama paralela de um dos colegas ilustra a falta de saídas com simplicidade: os filhos preferem mergulhar em seitas radicais a conviver com o pai que os sustenta. Nem mesmo a picaretagem de Teufelsdröckh se resume a ela: o narrador relembra com frequência a tautologia cruel de sua frase lapidar, everyone is where everyone is (“cada um está onde está”), como uma maldição imutável.

O humor atravessa as relações amorosas, em especial com Helena, uma professora da USP, sua antípoda ideológica, que acaba por encantá-­lo. O prazer do fetiche sexual que ela professa — implacáveis perseguições pelo apartamento até a dominação física, a entrega e a paz do orgasmo — fala mais alto que as diferenças políticas, mas também aqui se vai além do riso. O eixo da narrativa — a violenta repressão da polícia contra uma das manifestações de rua em São Paulo — é o ponto de inflexão existencial do executivo, que, sem saber bem por quê, se vê com uma pedra na mão, pronto a destruir o vidro de uma agência bancária, símbolo maior do triunfo do capitalismo contemporâneo, e, por ironia, é salvo da besteira justamente por Helena, que o havia arrastado para a jornada. Esse será também o instante em que acontece o improvável reencontro com a filha, Laura. Vítima da violência policial, caberá ao pai atendê-la, mas sem derrame sentimental. Entra em jogo, de forma discreta, outro signo da novela, o da resposta pela arte, como se nela houvesse um fiapo de redenção: a filha vai à jornada com uma máscara de Eduardo Bordeiro, seu tio falecido e artista plástico alternativo, por quem Alexandre deixa entrever uma admiração contida, mas afetuosa.

Com Os Dias da Crise, um romance curto e exato, Teixeira realiza uma passagem difícil: dar a uma temática brutalmente polarizada, e que é enfim a matéria-prima do jornalismo contemporâneo, uma dimensão narrativa que em nenhum momento perdeu de vista as sutilezas ambivalentes da percepção literária. Na literatura, não é a suposta pureza da verdade que está em jogo, mas as pessoas que pensam sobre ela, vivendo o caos dos afetos, desejos, opiniões e interesses. Cenário tão arisco quanto o desenrolar político nacional.

 

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2019, edição nº 2640

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