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Procura-se a resposta certa: as dúvidas de pais e alunos na volta às aulas

As escolas correm para se adaptar e abrir seus portões. Certo é que o processo deve transcorrer com toda a cautela

Por Jana Sampaio, Sofia Cerqueira - Atualizado em 7 ago 2020, 13h21 - Publicado em 7 ago 2020, 06h00

Com o segundo semestre escolar recomeçando na maioria dos estados e municípios brasileiros, um imenso ponto de interrogação se impõe sobre pais, alunos, professores e escolas: será a hora de voltar a pôr os pés no colégio? Não há unanimidade na resposta, mas é visível a apreensão em relação ao retorno de uma atividade para lá de social num momento em que o contágio pelo novo coronavírus segue elevado. Certo é que, quando a sirene soar no pátio anunciando o início das aulas, todo o cenário estará bastante modificado pelas circunstâncias. Prepare-se para carteiras distantes umas das outras, cantinas fechadas, turmas reduzidas e esquema híbrido — uma parte do ensino continua remotamente, em casa.

Enfileiradas assim, as mudanças podem soar pontuais, mas o que já se vê é uma completa transformação da rotina, que mexe na organização familiar, na vida social das crianças e até no modo de aprender. Ex-epicentro da pandemia no país, Manaus, a primeira capital a dar a largada no chamado novo modelo presencial, dá uma boa dimensão do que está por vir para milhões de estudantes. Ali, 70% regressaram às carteiras com máscaras e viseiras acrílicas (os face shields) cobrindo o rosto. Nas seis unidades da rede Idaam, há também aferição de temperatura, tapetes de higienização, pias automáticas e nada de recreio — o lanche é na sala. Uma parcela da turma vai às segundas e quartas e a outra, às terças e quintas; sexta é “dia de sanitização”. “Com um protocolo tão rígido, me senti segura em mandar meu filho”, diz a autônoma Vera Lúcia Okimoto, 52 anos, mãe de André, 16, do 1º ano do ensino médio. “A escola está muito diferente, mas pelo menos vejo meus amigos. Sentia falta disso”, reconhece o adolescente.

O gradual retorno à escola acende uma daquelas polêmicas que incendeiam as redes, com gente razoável lançando na roda distintos pontos de vista. Compreensivelmente, uma ala de pais teme as inevitáveis aglomerações, especialmente em se tratando dos menores, e avisa que não vai enviar os filhos. “Fico horrorizada com o desespero de certos pais que agem como se não houvesse mais pandemia. Meus filhos não vão agora”, diz a atriz Maria Ribeiro, mãe de meninos de 10 e 17 anos, que estudam no Rio. Nos sempre frenéticos grupos de WhatsApp, a discussão frequentemente resvala em artilharia verbal. “Não fui criticada diretamente, mas tentaram me convencer a não mandar meu trio à escola”, relata Herilckmans Isidro, 44 anos, cuja prole está matriculada no colégio Seriös, em Brasília.

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São tantas as nuances envolvidas no processo decisório de cada família que, segundo os especialistas, o melhor mesmo é que as escolas deem condições para que possam exercer seu poder de escolha. Isso passa, antes de tudo, pela adaptação de suas dependências à cartilha antivírus. Uma recomendação do Conselho Nacional de Educação, recém-homologada pelo MEC, também é decisiva, uma vez que concede aos pais o direito de arbitrar sobre o assunto sem que o aluno seja penalizado. Com uns dentro e outros fora do colégio, cabe a pergunta: isso não prejudicará o andamento acadêmico? As escolas estão atrás de soluções para esse imbróglio. A rede COC, em Brasília, por exemplo, fará transmissão ao vivo das aulas para quem preferir assisti-las em casa.

Em meio a tamanhas incertezas, está claro que um pedaço da jornada escolar se dará no ambiente virtual, o que deixa um grupo de pais de cabelo em pé. Afinal, a experiência, adotada na velocidade ditada pela crise, foi considerada frustrante por muita gente. E questões logísticas começam a ser levantadas à medida que o provisório vai se revelando duradouro. “O rodízio de turmas será um transtorno. Não tenho com quem deixar meu filho nos dias em que ele não for à escola”, aflige-se a carioca Ana Claudia Duarte, 46 anos, mãe de Pedro Henrique, de 8, do Centro Educacional da Lagoa. Em nome de um esquema mais regular, alguns pais, sobretudo os da turma mais nova, tomaram um rumo radical. “Resolvi deixar minha filha por ora fora da escola, já que ela ia de condução com outras crianças. Agora vai ficar todos os dias com os avós”, explica a professora Juliana de Oliveira, 31 anos, mãe de Lívia, de 3.

EM BUSCA DO ESQUEMA – As aulas presenciais do carioca Pedro Henrique, 8 anos, nem começaram e seus pais, Ana Claudia e Carlos Roberto, já antecipam o nó logístico do sistema híbrido: “Não tenho com quem deixá-lo”, diz a mãe – Alex Ferro/VEJA

No ambiente virtual, as escolas terão de se esmerar para atrair a atenção da garotada. Após quatro meses de aulas remotas, mais da metade dá sinais de falta de motivação, segundo pesquisa do Datafolha. O tal modelo híbrido de que tanto se fala exige empenho para ser realmente bom. O Colégio AZ, no Rio, planeja dividir os professores em um time que cuidará das aulas presenciais e o outro, das virtuais. Muitas instituições, como essa, garantem que farão o que é mesmo esperado delas: darão revisão e reforço. As lacunas levarão um tempo para ser sanadas. O Pueri Domus, de São Paulo, traçou um plano que se estende até 2021 e inclui uma recuperação a cada três meses. “Estamos vivendo uma experiência disruptiva”, define Christina Sabadell, diretora do colégio.

A maior parte dos estados não cravou uma data para a volta às salas de aula. No Rio, a prefeitura tinha dado o aval para o funcionamento das instituições privadas (embora o estado tenha fixado o retorno para o dia 20 de agosto), mas na quinta-feira 5 a liberação foi suspensa pela Justiça. Na prática, menos de 5% das escolas cariocas, a maioria pequenas, haviam voltado à ativa. “Decidi abrir os portões assim que pude porque boa parte dos pais de meus alunos não tem com quem deixá-­los nem consegue auxiliá-los em casa”, justifica Paula Pinna, proprietária do Jardim Escola Tia Paula, no subúrbio carioca. Em São Paulo, a previsão para o regresso é 8 de setembro. “Cada cidade terá de fazer uma avaliação realista de sua situação, observando índices de contaminação e disponibilidade de leitos”, enfatiza a pneumologista Patrícia Canto, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Um levantamento da fundação mostrou que, se os cuidados necessários não forem tomados, mais de 9 milhões de brasileiros serão postos em risco, por conviver com a turma em idade escolar.

Os dilemas escolares vividos no Brasil são muito parecidos com os de outros países na batalha contra a Covid-19. Nos Estados Unidos, sindicatos de professores ameaçam entrar em greve caso as escolas reabram, o que ainda está em discussão em boa parte dos estados. A Sociedade Americana de Pediatria encorajou a retomada, com uso de máscaras e distanciamento entre as carteiras. Não é uma decisão fácil nem necessariamente definitiva. Uma semana após a reabertura de suas 40 000 escolas, a França precisou fechar dezenas delas com o aparecimento de infectados dentro de seus muros. Duas semanas de isolamento mais tarde, as aulas presenciais voltaram. “Nenhuma decisão é isenta de risco, mas evidências mostram que manter as crianças fora das escolas faz com que elas aprendam menos”, pondera Thomas Dee, professor da Universidade Stanford. A chave para abrir os portões da forma mais segura possível sem dúvida passa pela soma de informação e cautela.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

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