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“Não dá para depender do governo”, diz especialista em ensino superior

À frente da maior publicação americana sobre o mundo acadêmico, a editora Liz McMillen afirma que a autonomia universitária depende da variedade de fontes

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 21 nov 2019, 21h58 - Publicado em 21 nov 2019, 20h56

Em tempos de recursos públicos à míngua, urge que as universidades inventem novas formas de pagar as próprias contas. É o que pensa a jornalista norte-americana americana Liz McMillen, editora executiva da Chronicle of Higher Education – a mais importante publicação nos Estados Unidos sobre o assunto. A especialista, entretanto, não poupa críticas às nações que deixam suas instituições de ensino superior à deriva. “Têm visão limitada”, afirma Liz, que tem 30 anos de experiência na área. Em São Paulo para um evento da escola Concept, realizado nesta quinta-feira 21, a editora falou a VEJA sobre os desafios enfrentados pelas universidades americanas e brasileiras.

Há quem diga que, em um futuro próximo, o ensino superior não será mais um requisito para qualquer trabalho bem remunerado. Você acredita nesse cenário? Não. Na verdade, penso que o ensino superior é mais necessário do que nunca. Não só porque ter um diploma universitário implica em ter salários mais altos e melhores oportunidades; mas porque na faculdade são ensinadas habilidades e competências essenciais para a construção de uma carreira. Idealmente, é também o lugar onde você aprende a aprender, em um nível superior ao que é exigido na escola.

E os americanos compartilham desta ideia? Nem sempre. Nos Estados Unidos, há muita gente questionando a validade do diploma superior, principalmente por causa dos altíssimos custos com os quais as famílias têm que arcar para que o estudante possa obtê-lo. A Universidade de Chicago, por exemplo, chega a cobrar 100 000 dólares por ano. Principalmente depois da recessão, as pessoas passaram a se perguntar se vale mesmo a pena investir todo esse dinheiro. A realidade, entretanto, é que há muitas universidades nos Estados Unidos onde não é preciso gastar tanto.

No Brasil, nossas maiores universidades são sustentadas integralmente por dinheiro público. O modelo é o mesmo nas faculdades americanas? Lá, a maioria dos estudantes frequenta faculdades públicas, apoiadas principalmente por fundos estaduais e do governo federal. Entretanto, sabemos que estes fundos estão minguando. As grandes universidades estão sendo forçadas a buscar dinheiro na iniciativa privada, tal como as faculdades particulares fazem há anos procurando seus fundadores, doadores e ex-alunos para ajudar. Suponho que as universidades brasileiras estejam sendo forçadas a considerar este modelo, que está vingando também na Europa.

O governo federal anunciou recentemente uma série de medidas destinadas a dar autonomia financeira às universidades. Como é possível, afinal, garantir que elas paguem suas próprias contas? Universidades são estruturas caríssimas. São como pequenos municípios: têm custos gigantescos com pessoal, funcionários, prédios, etc. Para que haja ensino superior de qualidade, é preciso que estas instituições tenham uma receita estável vinda da mensalidade dos alunos, dos cofres públicos, de doações privadas e outros métodos de arrecadação. A autonomia exige esta combinação de fatores. Nunca dá para confiar em um só.

Um assunto que sempre vem à tona quando se trata do ensino público no Brasil é o regime de contratação de professores. Como universidades americanas tratam deste assunto? A situação também é complexa. Por muitos anos, professores titulares tinham emprego garantido pelo resto da vida, tal como no Brasil. Era uma forma de dar liberdade econômica para que os acadêmicos fizessem pesquisassem qualquer assunto, por mais controverso que fosse, sem o receio de serem demitidos. Entretanto, nos últimos vinte anos as faculdades vêm evitando contratar professores neste regime – que é mesmo extremamente caro. Há preferência pelos professores adjuntos, que cumprem contratos renováveis de um ou dois anos. Atualmente, os professores titulares são cerca de 30% dos docentes americanos, o que é um declínio considerável.

E isto é ruim? Depende. A grande preocupação é a qualidade do ensino. Muita gente insiste que os professores adjuntos são tão bem treinados que os titulares – o que eu acredito que seja verdade. O problema é que muitos desses professores não tem escritórios próprios, não são tão bem pagos e são forçados a conviver com a instabilidade. Portanto, acredito que esta troca causa, sim, algum impacto no nível das instituições. Se as universidades brasileiras decidirem adotar este modelo, haverá consequências consideráveis.

Foi anunciado, recentemente, que o número de negros nas universidades brasileiras superou o número de brancos – um claro resultado da política de cotas adotada pela maioria das grandes instituições de ensino. Como a senhora enxerga estas medidas? As ações afirmativas nos Estados Unidos causam tanta polêmica quanto no Brasil, de modo que o assunto já foi debatido na Suprema Corte dezenas de vezes. Penso que estas políticas tem sido extraordinariamente bem-sucedidas na missão de diversificar o corpo discente, sem colocar os estudantes brancos em desvantagem ou trazer prejuízo à qualidade do ensino.

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