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De volta à moda, arma de brinquedo não deve preocupar os pais

Os lançadores de projéteis e dardos de espuma são a nova onda dos meninos. Mas não se preocupe se seu filho pedir uma dessas armas de presente -- VEJA desta semana revela que elas não transformam crianças em bandidos potenciais, ao contrário

O pedido brota implacável, em forma de súplica, muxoxo e sorriso, choro talvez: “Pai, mãe, quero um desses, o meu amigo tem!”. O mais recente fenômeno infantil, no topo da lista de desejos de brinquedos de nove entre dez meninos (e de algumas meninas também), não é tão novo assim. É uma arma de mentirinha, daquelas que os garotos adoram empunhar quando se transportam para o mundo da fantasia e assumem o papel do mocinho ou do vilão, dos alemães e seus canhões, em histórias cheias de heróis, princesas a ser resgatadas, dragões e monstros espaciais. Ou simplesmente querem atormentar e acertar em cheio o irmão mais novo, ou o priminho abusado. A arma em questão é um dos trinta modelos de lançadores de projéteis e dardos de espuma fabricados pela americana Hasbro, onipresentes também no Brasil. A empresa não revela quantas unidades vendeu desde que os artefatos caíram no gosto de crianças de 5 a 12 anos. O faturamento global do produto, de 410 milhões de dólares em 2011, autoriza um cálculo: se os ganhos da fábrica de brinquedos dependessem exclusivamente da venda dos modelos mais caros, em torno de 200 dólares, teria sido comercializado, em doze meses, um arsenal suficiente para armar 2 milhões de guris, o equivalente a uma vez e meia o contingente do Exército, da Marinha e da Aeronáutica dos Estados Unidos juntos.

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Os lançadores – modo politicamente correto e mais moderno de chamar as armas – nem de longe lembram os revólveres de metal que fizeram a alegria da meninada do passado, alimentados por espoleta. São coloridos, modernosos e foram desenhados para não se parecer em nada com algo bélico, tanto na forma quanto no conceito. Têm mecanismos de ar comprimido, baterias, e podem lançar até três dardos por segundo. Tudo sem ferir ninguém. No entanto, em um mundo onde as ideias de correção reinam quase absolutas e as crianças não podem mais atirar o pau no gato, porque isso não se faz (como prega a versão certinha do clássico do cancioneiro infantil Atirei o Pau no Gato), o grau de periculosidade de um brinquedo importa menos do que as atitudes que ele seria capaz de incitar. Ter filho em casa mirando um alvo qualquer com tamanha monstruosidade em mãos é percebido pela patrulha da moral e dos bons costumes como irresponsabilidade de pais ausentes, egoístas, descompromissados com o futuro da cria e, claro, como não poderia deixar de ser, do planeta. Afinal, dita o senso comum, arma é arma; e violência gera violência.

Todo chavão contém alguma dose de verdade, mas explicar ou justificar a agressividade crescente de crianças e jovens levando-se em conta apenas os estímulos externos aos quais eles são submetidos, sejam brincadeiras de guerra, videogames ou os divertidíssimos filmes de super-heróis da Marvel, é uma maneira simplista de olhar um tema complexo, além de retrocesso ao período jurássico da ciência do comportamento. No século XVII, o filósofo inglês John Locke, ao refletir sobre a mente humana, comparou-a a uma folha em branco, preenchida e moldada ao longo da vida por meio das experiências, da cultura e da educação – os tijolos da personalidade. Até hoje, essa construção intelectual de Locke vigora no Ocidente, apesar de ter sido gravemente ferida pela publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, em 1859, quando se deu a revelação das bases da transmissão de características por hereditariedade. Com a descoberta da estrutura do DNA por James Watson e Francis Crick, em 1953, um século depois, e a divulgação do Projeto Genoma Humano, em 2000, a doutrina elaborada por Locke perdeu, definitivamente, o espaço que conquistara. E abriram-se as portas para uma compreensão inédita das raízes biológicas do comportamento humano. Foi possível, a partir de então, identificar genes que tornam as pessoas mais vulneráveis a desenvolver transtornos psíquicos, atitudes antissociais e vícios, por exemplo. E se o gosto masculino (e pueril) por armas de brinquedo também residir aí, na genética, e não no que apreendemos durante a infância?

MUDANÇA DE OPINIÃO - Thays Fürst, educadora de formação cristã, sempre foi contra o uso de armas de brinquedo, por considerá-las um atalho para a violência. Depois de ler um livro que apontava o natural interesse dos meninos por jogos que envolvem conquista e poder, mudou de ideia. Hoje, Thomas, de 13 anos (na foto), faz batalhas homéricas de brincadeirinha com o irmão Lukas, de 12 anos, no condomínio onde vivem, em Porto Alegre. “Proibir é pior”, diz a mãe. “Basta estabelecermos regras de horários, como acontece com as outras diversões, e não há mal algum.” MUDANÇA DE OPINIÃO – Thays Fürst, educadora de formação cristã, sempre foi contra o uso de armas de brinquedo, por considerá-las um atalho para a violência. Depois de ler um livro que apontava o natural interesse dos meninos por jogos que envolvem conquista e poder, mudou de ideia. Hoje, Thomas, de 13 anos (na foto), faz batalhas homéricas de brincadeirinha com o irmão Lukas, de 12 anos, no condomínio onde vivem, em Porto Alegre. “Proibir é pior”, diz a mãe. “Basta estabelecermos regras de horários, como acontece com as outras diversões, e não há mal algum.”

MUDANÇA DE OPINIÃO – Thays Fürst, educadora de formação cristã, sempre foi contra o uso de armas de brinquedo, por considerá-las um atalho para a violência. Depois de ler um livro que apontava o natural interesse dos meninos por jogos que envolvem conquista e poder, mudou de ideia. Hoje, Thomas, de 13 anos (na foto), faz batalhas homéricas de brincadeirinha com o irmão Lukas, de 12 anos, no condomínio onde vivem, em Porto Alegre. “Proibir é pior”, diz a mãe. “Basta estabelecermos regras de horários, como acontece com as outras diversões, e não há mal algum.” (/)

Estudos com gêmeos univitelinos, que compartilham a mesma configuração genética, têm permitido delinear o papel relativo dos genes e do ambiente no desenvolvimento de características da personalidade. Com esse objetivo, psicólogos da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, acompanham há duas décadas três centenas deles, separados da família no nascimento. Os achados da equipe surpreendem ao mostrar que comportamentos antes percebidos como fruto do aprendizado têm forte influência biológica. Introversão ou extroversão, neurose ou estabilidade, abertura ou não a experiências, capacidade de atenção ou dispersão são características 50% herdadas dos pais. A modulação dos comportamentos agressivos dependeria em 80% da genética, e o restante resultaria da educação e das experiências pessoais de cada um. Apesar de pouco conclusivos, e com resultados que podem soar como um estímulo ao preconceito, como a constatação de que parte da inteligência é mesmo coisa de família, os estudos de gêmeos foram um divisor de águas na infindável batalha científica e filosófica sobre o que pesa mais na formação do caráter, o gene ou a cultura. Nem uma coisa só nem outra. Atribuir tudo à herança, na magistral definição do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, darwinista de escola, é “reducionismo genético”. Também não somos apenas um produto cultural. É uma condição que agora começa a ser revelada à luz das moléculas pela epigenética, a vertente da biologia escondida atrás desse palavrão que estuda a ativação ou não de genes por meio dos fatores externos – no caso da violência, um episódio real, traumático, como um assalto, ou, por que não?, uma batalha inspirada nos cavaleiros jedis de Guerra nas Estrelas.

Brincadeiras com armas existem desde sempre. Estudos antropológicos mostraram que, tanto em sociedades tribais quanto em países de Primeiro Mundo, nas mais variadas culturas, as crianças sempre enfrentaram e derrotaram oponentes enormes e furiosos com seus superpoderes em duelos imaginários do bem contra o mal. “As narrativas são uma espécie de treinamento para lidar com as vicissitudes da vida”, escreveu o psicólogo americano Jerome Bruner, da Universidade Harvard, um dos mais notáveis do século XX. Brincar com armas, afirmam os estudiosos do universo infantil, é uma forma de as crianças se sentirem fortes e confiantes para enfrentar os desafios reais e as sucessivas frustrações do longo e penoso crescimento físico e emocional. “A infância não é o período tranquilo e prazeroso que nós, adultos, gostamos de achar que é”, diz o psicólogo americano Gerard Jones no livro Brincando de Matar Monstros. “Muitas crianças são submetidas a episódios dolorosos, como morte dos pais, divórcio, doenças, mas mesmo aquelas que vivem sem atravessar essas experiências ruins deparam todos os dias com a condição de serem pequenas e sem poder.” As revelações sobre a influência da genética no comportamento e uma série de outros achados científicos, aliados ao bom-senso, têm alterado de forma positiva a maneira pela qual as pessoas enxergam o mundo. Um bom assunto para os pais discutirem quando os monstrinhos – ou seriam anjos? – estiverem dormindo. E, afinal de contas, é tudo brincadeira. Um bom caminho é reagir como o deprimido Woody, o personagem de Toy Story, que diante das diatribes do fortão eletrônico Buzz Lightyear, dono de uma incrível arma a laser, o repreende, com medo de perder seu posto de queridinho do baú: “Você é apenas um brinquedo, não é real”.

Com reportagem de André Eler, Marcelo Sperandio e Simone Costa