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Protestos turbinam riscos da economia brasileira

Além da deterioração fiscal, da inflação e do baixo crescimento, o risco político entra no radar de quem tem planos de investir no Brasil

Por Ana Clara Costa
29 jun 2013, 17h19

Em relatório publicado nesta semana, o banco de investimentos Goldman Sachs traçou previsões sombrias para o Brasil. Não bastasse a constatação de que a economia está presa num labirinto de más escolhas e conjuntura ruim, agora, segundo o banco, os investidores terão de contabilizar o risco político na hora da tomada de decisão sobre trazer (ou não) dinheiro ao país. Isso se deve à onda de protestos que tomaram conta das cidades e que, segundo o Goldman, colocam o governo brasileiro em posição frágil. “Um dos fatores positivos que diferenciavam o Brasil de outros mercados emergentes era a estabilidade política e social. No entanto, os últimos acontecimentos colocaram incertezas nessa equação”, afirmou o economista do banco, Alberto Ramos, em relatório para investidores.

Desde que as economias emergentes entraram no radar dos investidores, a instabilidade política na Rússia e o regime antidemocrático chinês eram pontos nebulosos que traziam incertezas ao ambiente de negócios. Nesse ponto, o Brasil era visto como o país do grupo dos Brics a ter a democracia mais consolidada e estável – característica tão relevante que fazia com que muitos fechassem os olhos para problemas como burocracia e alta carga tributária. A mudança dessa avaliação, decorrente dos protestos que criticam, sobretudo, a classe política brasileira, pode parecer exagerada. A solidez da democracia brasileira é inquestionável. Mas a nova situação traz consigo a certeza de que a maré de descrença em relação ao Brasil veio para ficar.

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Risco fiscal – O endividamento público do país está longe de ser comparável ao de nações europeias em perigo de insolvência. A relação dívida/PIB está em 34,8%, enquanto a da França, por exemplo, é de 91,7%. No caso da Espanha, esse coeficiente é de 88,2%. Contudo, a trajetória de aumento de despesas e desaceleração na arrecadação – notada desde 2012 – mostra que o país não só deixou de lado o esforço fiscal necessário para reduzir a dívida, como também aumentou os recursos destinados à manutenção da máquina pública. As despesas do governo central com a máquina aumentaram de 19,75% do PIB em 2002 para 22,4% no final de 2012. Por outro lado, os investimentos que poderiam ser feitos para destravar os gargalos que matam a competitividade do país – estes, sim, gastos necessários – foram reduzidos de 18,75% do PIB para 18,1% do PIB nesse mesmo período.

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O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, reconhece que a situação fiscal do Brasil está longe de ser caótica, mas traça um cenário preocupante para as próximas décadas. Se as devidas reformas previdenciária e fiscal não forem levadas adiante, os gastos da União com aposentados, servidores ativos e assistência social passarão de 14,1% do PIB em 2012 para 29,2%. “Arcar com esse peso num cenário em que a população jovem terá envelhecido será insustentável”, afirma o economista.

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Crise de credibilidade – A credibilidade do governo vem sendo manchada desde que o Ministério da Fazenda passou a lançar mão de subterfúgios para cumprir a meta de superávit primário – que é a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida. A leniência do Banco Central em relação à inflação também pesou para que as desconfianças aumentassem. Tanto que, por mais que o BC tenha começado a subir os juros em maio deste ano, o mercado continua cético em relação à independência do órgão e sua intenção em trazer a inflação para o centro da meta. “O problema é o risco de dançar à beira do penhasco. Se a inflação ultrapassar 6,5% sem que nada tenha sido feito, a pergunta que fica é ‘qual é o limite?’. A meta de 4,5% de inflação foi aguada”, argumenta o economista Fabio Giambiagi.

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Não fossem as questões do presente suficientemente complexas, há uma preocupação extra – que é, justamente, a causa do pessimismo exacerbado que o mercado e a imprensa internacional dissipam sobre o Brasil. Trata-se do peso das expectativas. Investidores que chegaram ao país em 2007 – e mesmo os brasileiros – projetavam cenários de médio e longo prazo levando em conta os fundamentos econômicos da época: inflação controlada, meta fiscal cumprida e economia em ascensão. Tais cenários serviam para balizar seus projetos para os anos seguintes. Contagiado pelo sentimento de euforia que pairava sobre o Brasil e os demais Brics, o mercado desconsiderou qualquer possibilidade de mudança nas políticas econômica, cambial e fiscal. “Olhando pra frente, as pessoas se sentiam tranquilas cinco anos atrás. Agora, quando um investidor projeta num horizonte de cinco anos, a tendência é de piora nos indicadores, e isso ajuda a criar essa atmosfera ruim”, afirma Giambiagi.

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Conquistas em xeque – O forte mercado interno e a situação de pleno emprego são os dois pilares que restaram da exuberância da economia brasileira dos anos anteriores. São esses fatores que levarão investidores a tomar decisões pragmáticas sobre investimentos no país, a despeito dos problemas. “É inegável que o Brasil continua sendo atrativo. Há uma mudança de humor que assusta, porque o mercado extrapola tanto para o sentimento de euforia quanto para o de aversão. Mas o país continua estável e o governo precisa mostrar uma agenda positiva”, afirma o economista Mansueto de Almeida.

Tal agenda ganhou caráter de urgência depois que o país passou a contar com o risco de ter sua nota rebaixada. Ao revisar a perspectiva de rating do Brasil de estável para negativa, o diretor da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, Sebastian Briozzo, cristalizou, em sua análise, a necessidade de a equipe econômica pilotada por Guido Mantega voltar a merecer a fé do mercado. “Se o governo tivesse mais sucesso em melhorar o nível de confiança do setor privado, seria mais fácil para o Brasil crescer a taxas mais altas, sem tantas pressões inflacionárias”, afirmou Briozzo. Para Alfredo Coutiño, economista da Moody’s, a melhor forma de voltar a atrair os bons ventos seria desfazer todos os erros cometidos pela equipe econômica. “O Brasil gerou seus próprios problemas ao administrar de forma equivocada a política econômica. Então, a solução é agir da forma oposta e corrigir cada coisa”, diz.

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Contudo, as decisões tomadas para tentar abafar a onda de protestos indicam justamente o contrário. A pressão das ruas foi respondida com medidas populistas e, pior, inconsequentes, que poderão expandir os gastos num momento em que a necessidade é justamente de ajustes e melhora de eficiência. Estima-se que as medidas aprovadas nos últimos dias alavanquem os gastos em 115 bilhões de reais ao ano. A pergunta que fica é: “quem pagará a conta?”. Para Giambiagi, o resultado não pode ser nada além de decepcionante. “O Brasil tem uma história positiva. Um país que saiu da inflação, fez algumas reformas, atraiu capital e fez com que as pessoas se animassem, agora vive um cenário em que as coisas não acontecem. E isso traz um gosto amargo para uma história que deveria ser de vitória”.

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