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‘Tenho ressalva ao funk que fala de droga e sexo desenfreado’, diz Buchecha

Embora se declare admirador do funk ostentação, ex-parceiro de Claudinho volta a investir no estilo melody e diz que só quer ‘ostentar amor’

Por Rafael Costa - 17 fev 2014, 11h13

Três anos depois de seu último trabalho solo, Romântico com Elas, o funkeiro Buchecha lança nesta segunda-feira seu novo álbum Adesivo. Um dos precursores do estilo musical no país, ao lado de seu companheiro Claudinho, morto em 2002 em um acidente de carro, Buchecha diz ver com bons olhos os novos artistas do chamado funk ostentação, mas com exceções. “Tenho algumas ressalvas, como quando a música faz apologia a alguma coisa ruim, como droga, sexo desenfreado, isso eu não curto muito”, afirmou o cantor em entrevista ao site de VEJA. “Eu procuro ostentar só o amor. Faço isso há 21 anos e tem dado certo. Então quero continuar assim.”

Buchecha diz se orgulhar do patamar que o funk em geral alcançou, com nomes como Anitta, Naldo e Valesca Popozuda tocando nas rádios diariamente. “Você vê que o funk alcançou lugares que, até então, não alcançava e está todo mundo ouvindo. Isso é muito bom”, afirma Buchecha, que se orgulha de ter feito parte da época em que o estilo musical não tinha tanta abertura nos grandes veículos de comunicação. “Eu peguei a época das vacas magras do funk, quando ele tocava só no Rio de Janeiro e não tinha espaço nos grandes palcos, só o Claudinho e eu conseguíamos ir aos programas de televisão”, diz. Confira abaixo a entrevista completa com o cantor Buchecha:

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Qual é o significado do nome Adesivo para o título do álbum? Adesivo é o nome de uma das músicas do disco e a ideia de colocá-la como título do CD é porque todos queremos que o nosso trabalho cole na pessoa, cole no ouvido e não saia mais. A canção deve virar um grude na vida das pessoas, então a intenção comercial foi essa. No caso, Adesivo (a música) fala de um casal, ele quer marcar a vida dela e vice-versa. Ele quer ‘adesivá-la’ como se colocasse uma placa escrita: ‘Essa daqui já tem dono’ (risos).

O que este trabalho tem de diferente em relação ao seu último trabalho solo, Romântico com Elas, de 2011? Meus últimos trabalhos estavam com uma pegada muito moderna. Esse CD, não que não esteja muito moderno, mas as letras e as formas de composição estão todas voltadas para o estilo funk melody, que eu fazia com o Claudinho, com aqueles tecladinhos mais leves, menos sintetizadores. Então, faço uma alusão às minhas origens. As pessoas podem esperar um CD que vai remeter aos primeiros sucessos do Claudinho e Buchecha, como Só Love, Conquista, nessa pegada.

O que você acha dessa nova cena do ‘funk ostentação’? Vejo com bons olhos. É uma vertente do funk. A galera está pegando pesado, os clipes parecem internacionais, com investimento grande, é muito bacana. Alguns têm umas letras maravilhosas, melodias bem legais, uma produção de outro mundo. Claro que não são todos que eu acho bacana, tenho algumas ressalvas, como quando a música faz apologia a alguma coisa ruim, como droga, sexo desenfreado, isso eu não curto muito. Pois com isso você manda uma mensagem negativa para a sociedade. Os outros que ostentam com cordão de ouro, essas coisas, aí é maneiro, porque a maioria dos meninos não tem a oportunidade de ter isso, então eles vestem uma fantasia de que podem ter esse tipo de vida. Se bem que, com o tempo, eles adquirem esses adereços. Eu li que esses caras ganham de 300.000 a 500.000 reais por mês, então eles até podem ostentar.

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Você se vê fazendo funk ostentação? Não, na verdade eu procuro ostentar só o amor. Faço isso há 21 anos e tem dado certo. Então quero continuar assim, fazendo funk melody, que é a bandeira que eu sempre levantei, que representa todas as quebras de tabu que o Claudinho e eu enfrentamos.

Acredita que essa nova cena do funk foi, de algum modo, influenciada pelos seus trabalhos antigos? Eu vi o Naldo falando em uma entrevista que é muito grato ao Claudinho e a mim, porque nós convidamos a ele e ao irmão para abrir alguns dos nossos shows. Também ajudamos na produção do primeiro disco deles, que, infelizmente, não foi lançado na época. Para mim é uma satisfação ver que essa galera segue o nosso ritmo, mas cada um com seu estilo próprio. É legal saber que servimos como referência, tanto o Naldo quanto a Anitta, que também fala muito bem da nossa história lá de trás. Eu peguei a época das vacas magras do funk, quando ele tocava só no Rio de Janeiro e não tinha espaço nos grandes palcos, só o Claudinho e eu conseguíamos ir para os programas de televisão. Agora você vê que o funk alcançou lugares que, até então, não alcançava e está todo mundo ouvindo. Isso é muito bom.

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Como foi trabalhar com o rapper americano Flo Rida? A gente fez um intercâmbio musical, porque, infelizmente, não nos conhecemos pessoalmente. Quando ele veio fazer uma turnê aqui no Brasil, um amigo meu trabalhou na produção e disse que ele queria gravar com algum artista do cenário musical daqui. Aí, ele falou para mim, eu fui para o estúdio, fiz uma letra e saiu Baile em Miami. Depois mandei para ele, que aprovou, gravou a parte dele e mandou para mim. Agora só falta o encontro, quem sabe a gente não faz um show juntos, seria bem bacana.

Muitas faixas foram compostas em parceria com o seus filhos Buchechinha, de 14 anos, e Giule, 10. Como foi esse processo de composição? Quem aprendeu mais com quem? Eu acredito que aprendemos juntos. Mas o processo desse disco foi muito curioso porque eu comecei a fazê-lo quando ainda estava em turnê. Então não tinha muito tempo, às vezes começava uma letra e deixava o caderno jogado pelos cantos. Aí, quando voltava de viagem, eles tinham completado a música e falavam ‘Pô, pai, você deixou aí e a gente terminou para ver se você gosta’. Eles fizeram várias músicas e deixei com o nome deles, porque achei de uma gentileza e uma sensibilidade enorme eles perceberem que a minha agenda estava escassa de tempo e decidirem me ajudar.

Mesmo depois de 12 anos, o quanto faz falta o Claudinho na sua carreira? Hoje, estou mais apto para lidar com essa situação, mas já vivi dias terríveis, dias muito difíceis por causa dessa perda e da maneira como aconteceu, com a gente no auge. Eu tive que reconstruir toda uma história, recomeçar. Foram invenções atrás de reinvenções de mim mesmo. Mas hoje, graças a Deus, vivo bem com essa situação e a falta que ele faz é mais pessoal do que profissional. É uma falta que eu sinto como amigo mesmo. Às vezes, lembro de quando a gente se conheceu, com 7 anos de idade, as emoções que a gente viveu, as várias situações, então esse lado afetivo é impossível de ser suprido, porque ele não está mais aqui e o tempo não apaga, não tira isso da gente. Profissionalmente, consegui me ajeitar, mas a saudade vai ficar para sempre, essa não tem jeito.

https://youtube.com/watch?v=a0zl9deNAiY

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