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‘Sick-lit’: a literatura que não subestima o adolescente

Pacientes com graves doenças físicas e psicológicas substituem vampiros e bruxos no gosto infantojuvenil e dão espaço para reflexões sobre a vida e a morte

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 5 jun 2024, 09h50 - Publicado em 26 Maio 2013, 09h49

A literatura é feita de ciclos. Isso se observa na alternância de estilos e escolas que atravessa os séculos, mas também, de maneira bem mais prosaica, nas mudanças rápidas por que passa o mercado de livros – mais ainda, o voltado aos adolescentes. Até pouco tempo encantados pelas fantasias de bruxos, vampiros e anjos, os leitores infantojuvenis estão agora tomados pela dura realidade das vítimas de câncer, transtornos alimentares, automutilação e depressão. São os representantes daquela que a imprensa americana já apelidou de sick-lit (literatura de doença), expressão derivada de chick-lit (a literatura feita para mulherzinha). Mas esse filão, que é um fenômeno comercial – nesta semana, três livros estão entre os mais vendidos de VEJA – poderia ser definido ainda de outra forma: como a literatura que não subestima o adolescente. E que o adolescente não subestima.

Antecedentes

Ainda que os livros façam sucesso, o termo sick-lit não agrada a boa parte dos editores e escritores, para os quais o termo reduz as obras. “São livros que levam uma mensagem legal, que não tem nada a ver com a ideia que se forma quando ouvimos o termo sick-lit“, defende Danielle Machado, editora de livros jovens da Intrínseca, responsável por trazer para o Brasil as obras A Culpa É das Estrelas e Extraordinário, de R.J. Palacio. “Ambos estão envolvidos em um contexto maior. Como o caso do Extraordinário, sobre um garoto com deformidade facial. O dilema que ele vive no livro é algo além da doença, é um dilema comum a jovens sadios que é o bullying.”

Apesar do apelido, mal utilizado ou não, a literatura marcada por males e doenças e a iminência de uma morte quase datada – de preferência nos braços de uma pessoa amada -, não é exatamente uma novidade. Novo é ter tantos livros conquistando leitores ao mesmo tempo – o que denota uma tendência de mercado. “Desde Homero, a questão da morte é forte na literatura”, conta João Ceccantini, professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis. “Mas o livro deve ter qualidade e não apelar para o lado piegas da doença, senão será apenas mais um modismo que alguns autores usam para vender livros. Se a obra tem soluções estéticas boas, então a leitura vale a pena.”

“Esses livros vão além do entretenimento”, diz Fernando Baracchini, presidente da editora Nova Conceito, responsável por trazer para o Brasil em 2012 o título Garotas de Vidro, sobre uma jovem com anorexia, e também um dos “avós” do filão, Um Amor para Recordar, de Nicholas Sparks, livro lançado em 1999 e já vertido para o cinema, que fala sobre uma adolescente careta que descobre ter leucemia e se envolve com o badboy da cidade. Ciente da força que o filão adquiriu nos últimos tempos, Baracchini, que o chama de “nova tendência” e “aposta do mercado”, já tem outros três títulos engatilhados para este ano. O único deles que adianta é A Menina que Semeava, do autor americano Lou Aronica, sobre uma garota de 14 anos que teve câncer na infância e criou em sua mente um mundo fantasioso para lidar com a doença.

O câncer também aparece naquele que é o carro-chefe do filão, o best-seller A Culpa É das Estrelas (Intrínseca, 288 páginas, 29,90 reais), do americano John Green. Na história, a jovem Hazel Grace, de 16 anos, convive com um câncer na tireoide que já tomou parte de seu corpo e a mantém na expectativa da morte. O livro tem parentesco com Antes de Morrer, de Jenny Downhan, sick-lit sobre uma garota com câncer que monta uma lista de coisas para fazer antes de morrer, com a diferença de que Hazel não tem a intenção de viver cada dia como se fosse o último, e se relaciona com a ideia da morte do modo direto, sem filtros. O livro de Green, que saiu em 2012 e vendeu mais de 1 milhão de cópias pelo mundo, tem agora um roteiro encaminhado para o cinema, assinado pelo próprio autor em parceria com dois roteiristas. Pode seguir a mesma trilha de O Lado Bom da Vida, sobre o romance entre dois pacientes psiquiátricos, que virou filme e rendeu um Oscar à atriz Jennifer Lawrence neste ano.

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Outro representante do grupo que em breve estará em cartaz é Extraordinário (Intrínseca, 320 páginas, 24,90 reais), da escritora americana estreante R.J. Palacio. O livro, que chegou ao Brasil em fevereiro, é um drama com tons de reflexão sobre um garoto de 10 anos que possui uma síndrome genética causadora de deformidade facial. Narrado pelo próprio protagonista, o livro apresenta o ponto de vista de uma criança que, ciente de sua estranheza e de seu deslocamento no mundo, cria um manifesto em favor da gentileza e contra o bullying, temática comum entre adolescentes que nem precisam de uma doença grave para experimentar esse tipo de violência.

Empatia – Para a escritora Bruna Vieira, 18 anos, esses livros propõem que o leitor se projete numa realidade muitas vezes difícil, mas sempre intensa – e esse é um dos segredos de seu sucesso. “Gosto de ler um livro e pensar que a personagem poderia ser minha melhor amiga”, diz. Não é difícil. Muitos personagens, ameaçados pela morte, procuram viver cada dia como se fosse o último – e intensidade é uma palavra-chave na adolescência. Ela pauta tudo, para os personagens e para os leitores que os acompanham: o primeiro amor, os laços de amizade, o medo do futuro e o medo da morte.

“As pessoas dizem que a adolescência é a fase mais gostosa da vida de uma pessoa, mas é também aquela em que somos mais frágeis. Tudo é novo e forte. Livros como As Vantagens de Ser Invisível mostram isso”, afirma Bruna, que é autora do blog Depois dos Quinze, do site da revista CAPRICHO (da Editora Abril, que também edita VEJA). Hit entre adolescentes, a página, criada por ela em 2009 para falar da tristeza de levar um fora do namorado, deu origem a um livro homônimo no ano passado. “Acredito que a vida é assim. Temos de aprender com as coisas ruins que acontecem e seguir em frente”, diz a jovem, que encontrou nos livros e no blog uma forma de encarar seus problemas. Apesar de tratar de um momento de superação, o livro de Bruna não pode ser classificado como sick-lit, já que é feito de crônicas pessoais sem um personagem fictício enfermo. Por enquanto, não existem representantes brasileiros da tendência.

Aprendizado – Ainda que o adolescente reconheça o valor desses livros, há sempre uma tropa de choque de plantão disposta a barrá-los. As Vantagens de Ser Invisível, que saiu pela primeira vez em 1999 e ganhou reedição no ano passado, de carona no filme de mesmo nome, conquistando um espaço que mantém até hoje na lista dos mais vendidos, já vendeu mais de 3 milhões de exemplares pelo mundo. Mas isso não impediu que o título enfrentasse resistência.

Em entrevista ao site de VEJA, o autor, o americano Stephen Chbosky conta que o livro chegou a ser proibido em algumas escolas dos Estados Unidos a pedido de associações de pais e educadores. O motivo seria o teor “pesado” da obra, que trata abertamente do abuso de álcool e drogas, e traz como personagem principal um adolescente depressivo com um amigo que se suicida. “Acho que pais e educadores têm responsabilidade em tentar filtrar o que é consumido pelos adolescentes. Porém, não creio que esse tipo de proibição seja eficaz. Se eles não estiverem lendo As Vantagens de Ser Invisível, vão ler coisas na internet que podem ser realmente inadequadas”, diz Chbosky. “Eu, como pai, quero proteger minha filha de várias coisas, mas no fundo sei que não é possível. Creio ser mais eficiente manter diálogo em casa. Que os pais conversem com os filhos sobre o que leem e debatam em vez de proibir.”

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EXCLUSIVO: Confira aqui entrevista com o escritor Stephen Chbosky

A recomendação é a mesma de João Ceccantini, professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis. “Os caminhos que levam à leitura são oblíquos. Os jovens leem o que estão com vontade de ler. É ilusão achar que o jovem vai ouvir só o professor, o pai ou a mãe a respeito do que deve ler ou não. A leitura deve satisfazer um desejo interior.”

O medo do impacto que produtos culturais, dos livros ao cinema, podem ter sobre os filhos é comum em famílias dadas à superproteção. “É normal que os pais tenham receio, mas eles devem lembrar que os filhos precisam amadurecer e aprender a cuidar de si mesmos, além de lidar com problemas graves que podem acometer pessoas à sua volta, se não a eles mesmos, no curso da vida”, diz Marisol Montero Sendin, médica pediatra e psicanalista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Usar livros como veículo de aprendizagem para situações difíceis da vida é interessante”, complementa a psicanalista, que indica A Culpa É das Estrelas para famílias de crianças com câncer, a fim de melhorar o diálogo sobre a doença em casa.

“É uma literatura que educa e deve ser lida pelo jovem e também por seus pais”, corrobora Baracchini, da Nova Conceito. Para ele, um livro como Garotas de Vidro pode fazer um pai enxergar o distúrbio alimentar de um filho ou filha e aprender como agir, ao menos no começo.

“Acho um exagero dizer que um livro pode levar alguém a agir de determinada forma. Talvez um garoto que já esteja deprimido, mas por outras razões, leia As Vantagens de Ser Invisível e se sinta, sim, pior. Mas a natureza do livro não é essa, ele vai além disso, fala sobre amizade, amor, identidade”, diz Stephen Chbosky. Prova de que o livro pode ter efeito positivo sobre o leitor é que uma adolescente contou ao escritor ter desistido de se suicidar depois de lê-lo.

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