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“Sei o que é estar por cima e cair”, diz roqueiro Peter Frampton a VEJA

Em mais de cinquenta anos de estrada, ele viveu altos e baixos, e acumulou boas histórias

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 16 abr 2021, 12h45 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

Em mais de cinquenta anos de estrada, Peter Frampton viveu altos e baixos, e acumulou boas histórias que relembra em entrevista a VEJA.

Como está sua saúde? Psicologicamente, estou bem. Fisicamente, nem tanto, porque a doença está progredindo constantemente. Agora, minhas pernas estão mais afetadas. Descer escadas é a pior coisa para mim. Também já está paralisando minhas mãos. No mais, tomei as duas doses da vacina contra o coronavírus e estou me precavendo bastante. Tudo o que eu quero é compor e gravar o máximo que eu puder.

Sua vida é repleta de percalços e voltas por cima. Que balanço o senhor faz dela? Eu me tornei uma das maiores estrelas do mundo da noite para o dia. Alguns anos depois, fui para o fundo do poço. Por isso, sei como é estar por cima e depois cair, passar a ser ignorado e não ter um tostão no bolso. Essa gangorra construiu meu caráter e instinto de sobrevivência. David Bowie foi essencial para eu me reerguer.

Por falar em Bowie, seu pai foi professor dele. Que recordação guarda do período? Meu pai conheceu o Bowie antes de mim, quando ele ainda se chamava David Jones. Temos três anos de diferença. Minha primeira lembrança de David é de um show que ele fez nas escadarias da escola com sua banda, The Konrads. Ele estava lá no fundo, tocando músicas de Little Richards e Elvis Presley em um saxofone. Fiquei perplexo com sua presença, e disse para o meu pai: “Ele é muito criativo. Quero ser assim quando crescer”. Eu tinha 12 anos. Tempos depois, quando minha carreira estava falhando miseravelmente, David me chamou para tocar com ele na turnê Glass Spider. Sabia do meu talento como guitarrista e estava me reintroduzindo nos palcos. Agradeço a ele todos os dias.

O senhor também gravou com George Harrison em All Things Must Pass, mas seu nome não apareceu nos créditos. O que houve? O espólio do Harrison me procurou e pediu para eu contar detalhes daquela gravação para um documentário. Contei tudo e pedi que creditassem meu nome dessa vez (risos). Mas isso é um detalhe, o que importa é que eu estava lá. Foi uma experiência empolgante chegar ao estúdio e ver ídolos como George, Ringo, Jim Gordon e Stephen Stills. A foto daquele dia foi feita trinta minutos depois de eu ter conhecido o Harrison, e logo em seguida ele me pediu para tocar guitarra com ele.

É verdade que Pete Townshend, do The Who, ligou para o senhor pedindo que o substituísse na banda? Sim. Eu estava muito em baixa e, do nada, ele me ligou e disse: “Estou pensando em não fazer mais turnês com o The Who”. Ele perguntou se eu queria substituí-lo nos shows ao vivo. Respondi que não era uma boa ideia porque eu não sabia tocar guitarra girando os braços como ele, nem pular tão alto no palco. Eu seria odiado pelos fãs. Quando perguntei se ele tinha consultado os outros integrantes, ele disse que falaria com eles no dia seguinte e desligou o telefone.

O que ocorreu depois? Fiquei ansioso esperando ele me ligar por umas três semanas. Então, encontrei-o em Londres e não poupei palavras. Disse que ele deveria ter me ligado, nem que fosse para dizer que tinha mudado de ideia. Ele se desculpou. Hoje somos amigos e conversamos por e-mail. Pete é uma pessoa adorável. Espero que possamos tocar juntos um dia.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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