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‘Rock in Rio – O Musical’ inaugura a Cidade das Artes

Com mais de três horas de duração, espetáculo conta um drama juvenil ambientado às vésperas do histórico festival de 1985 com ajuda de repertório das quatro edições brasileiras do evento criado por Roberto Medina

Por João Marcello Erthal 6 jan 2013, 06h49

É divertidíssimo, como um Rock in Rio. Transborda juventude, como deve ser cada festival. E é longo. Não como uma noite na Cidade do Rock, mas o bastante para a produção planejar pequenos cortes no espetáculo de 3 horas e 10 minutos que estreou na noite de quinta-feira. Rock in Rio – O Musical é uma habilidosa junção de repertório, imagens, lembranças e casos hilários das quatro edições brasileiras do festival para contar um drama juvenil. Predomina o clima de 1985, com os refluxos da ditadura militar e o inimigo necessário à rebeldia do rock’n’roll. O ‘soft opening’, modo cauteloso de estrear com a liberdade de promover ajustes, serve também como segunda inauguração da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. Responsabilidade em dobro, portanto.

O Rock in Rio em cena é um hipotético concerto que mistura todas as atrações que já passaram pelos palcos do evento. De início, pode soar confuso para o espectador que tenta espelhar no musical o seu pedaço particular da saga de Roberto Medina. Mas a magia do espetáculo escrito por Rodrigo Nogueira e dirigido por João Fonseca está exatamente aí: ao som de Pro Dia Nascer Feliz, o protagonista Alef (Hugo Bonemer) é rodeado por Cazuza, Ney Matogrosso, Axl Rose, Elton John, Shakira, Nina Hagen, Baby e Pepeu, Freddie Mercury… Impossível não achar seu ídolo. Satisfeita a necessidade de cada um enxergar seu Rock in Rio na peça, começa a história do rapaz que, traumatizado pela perda do pai, parou de falar, fechando-se em um universo particular dominado pela música. A vida de Alef vai desaguar na de Sofia (Yasmin Gomlevsky), que fala demais e detesta música. Ela é filha Orlando Tepedino (Guilherme Leme), o publicitário que quer fazer no Rio o maior festival de música da história.

Todos cantam, mas fica evidente que há no elenco alguns mais atores e outros mais cantores. O espetáculo não se apoia em virtuosos, mas consegue emocionar com boas interpretações. Entre elas estão Kiss (Prince), Bohemian Rhapsody (Queen), Pessoa Nefasta (Gilberto Gil) – em uma impecável e vibrante interpretação de Kacau Gomes, a cantora que já tentou carreira solo como Claudja – e, claro, o hino do festival. O “ô-ô-ô-ô” do Rock in Rio transforma definitivamente o musical em show de rock, e, como nos demais momentos em que o público é convidado a cantar, mostra que foi feliz a opção de contar a história do festival a partir do ponto de vista do público – não dos astros.

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O ‘barato’ é a mistura. Às vésperas de um Carnaval em que o Rock in Rio será enredo de escola de samba, na Mocidade Independente de Padre Miguel, e da quinta edição brasileira do evento, em setembro, o musical celebra a convivência. E mescla perfeitamente Paradise City com Rio 40 Graus. Cola Tempo Perdido e Será, do Legião Urbana – que só esteve no Rock in Rio em uma homenagem, na edição de 2011. E concilia muito bem gêneros que não se toleram. Fear of the Dark, do Iron Maiden, cai tão bem quanto Poeira, de Ivete Sangalo – a mais cantada, na primeira noite na Cidade das Artes. E há, claro, as versões. As letras em português ajudam a contar a história, mas podem incomodar. No caso de Paradise City (Guns N’Roses), o resultado é ótimo. No de You’ve Got a Friend, cantada por Lucinha Lins (que interpreta Glória, mãe de Alef), foi desnecessário.

Hugo Bonemer, protagonista de 'Rock in Rio - O Musical' vive um jovem que só se comunica através da música
Hugo Bonemer, protagonista de ‘Rock in Rio – O Musical’ vive um jovem que só se comunica através da música VEJA

O espetáculo de 12 milhões de reais, 20 cenários, mais de 100 figurinos e 25 atores em cena é dividido em dois atos. O humor ajuda a segurar a história, e destacam-se algumas ótimas atuações. Ícaro Silva, que passou por Malhação e pelo humorístico Os Caras de Pau, vive Marvin, melhor amigo do protagonista e responsável pelos momentos divertidos da turma da faculdade de Alef. Caike Luna é o afetado Geraldo, assessor de Orlando Tepedino e encarregado de recepcionar as estrelas do festival. No segundo ato, quando as tramas convergem para o festival propriamente dito, é ele o dono das gargalhadas, brincando com histórias famosas, como os sumiços de Axl Rose, as exigências de Freddie Mercury e outros famosos. O público se contorce quando Geraldo tenta explicar o que é “bicha” ao líder do Queen, ou em cada vez que ele erra o nome do incontrolável cantor do Guns N’Roses.

Rock in Rio – O Musical estreia na semana em que a Aventura Entretenimento dá início à temporada de Tudo por Um Popstar, espetáculo adolescente inspirado no primeiro livro para meninas de Thalita Rebouças. São dois espetáculos genuinamente brasileiros – apesar dos repertórios recheados de números de autores predominantemente americanos e ingleses. O resultado do que se vê em cena com o jovem elenco é uma retrato preciso do grau de amadurecimento desse mercado no país, e do investimento que já produziu sucessos de bilheteria como ‘Hair’, ‘Um violonista no Telhado’ e ‘O Mágico de Oz’.

Hugo Bonemer, 25 anos, não é um rosto famoso na TV. Mas é protagonista de um grande musical pela segunda vez – o primeiro foi Hair, também da Aventura, ainda na fase da parceria com Charles Möeller. Yasmin Gomlevsky cursa teatro, mas acumula no currículo ‘O Diário de Anne Frank’, ‘A Megera domada’ e ‘Cyrano de Bergerac’.

Cidade das Artes
Cidade das Artes VEJA

Cidade das Artes – A estreia para convidados, quando o espetáculo passa a existir definitivamente para a crítica, será no dia 8. O espetáculo chega a São Paulo, no Teatro Alfa, em data ainda não definida em maio. Até lá, Rock in Rio – O Musical é a oportunidade de se conhecer o imenso complexo de concreto erguido no encontro das avenidas Ayrton Senna e das Américas, na Barra da Tijuca. A briga política entre o ex-prefeito Cesar Maia – agora vereador pelo DEM – e o atual, Eduardo Paes, fez do gigante um monumento ao desperdício. De ambos. Cesar foi acusado de distorcer as prioridades da cidade com o projeto de meio bilhão de reais assinado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc. Paes, que mudou o nome de Cidade da Música para Cidade das Artes, passou seu primeiro mandato inteiro dizendo que a estrutura não estava pronta e havia problemas por toda parte. Quatro anos se passaram, e o complexo de 90.000 metros quadrados, previsto para ser um imenso centro de cultura na zona oeste do Rio, ficou quatro anos parado, desde a inauguração improvisada por Cesar para não sair da prefeitura sem ter feito uma abertura oficial. O emadeiramento sofisticado da sala de concerto já tem algumas manchas. Algumas instalações elétricas estão aparentes, como a que servia à mesa de som do espetáculo. Por fora, partes do concreto parecem sujas, em obra.

Por dentro, a qualidade do que pode vir a ser a Cidade das Artes dá noção mais precisa do desperdício de tempo com a casa fechada. Os espaços amplos, a acústica primorosa da sala de concerto, a qualidade do projeto arquitetônico e as muitas possibilidades de uso casam com o momento que a cidade atravessa, com um calendário repleto de eventos internacionais. O sucesso de Rock in Rio – O Musical poderá ser, também, o primeiro da Cidade das Artes. E mais um capítulo da coleção de mitos do festival.

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