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Renato Russo: o estrategista

Controlando com mão de ferro as composições da Legião Urbana e desafiando a gravadora, o cantor conseguiu carta branca e venceu todas as apostas da carreira

Por Rodrigo Levino 1 nov 2010, 06h13

Renato Russo foi um fenômeno da música brasileira, dentre outras coisas, porque tinha exata noção de onde queria chegar, do caminho a ser trilhado e da obstinação necessária para tal

Em 1975, depois de morar por três anos nos Estados Unidos, acompanhando o pai, um alto funcionário do Banco do Brasil, Renato Manfredini Júnior foi diagnosticado com epifisiólise, um desgaste de ossos e cartilagens que nele se localizava entre o fêmur e a bacia. As dores eram terríveis. Vivendo entre a cama e a cadeira de rodas, o adolescente encarnaria a sua primeira persona artística: o vocalista e baixista Eric Russel, da banda imaginária 42nd Street Band.

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Recuperado, juntou os rascunhos do estaleiro e passou a se apresentar sozinho, aninhando-se no forte movimento punk de Brasília da época. De trovador solitário a líder da primeira banda, Aborto Elétrico, foi um pulo. Letras, postura, discurso, formato e metas de uma carreira, no entanto, haviam sido traçadas no período de convalescência.

“Renato era, acima de tudo, um profundo conhecedor da história do rock”, diz o jornalista Arthur Dapieve. “Ele foi o primeiro cara a peitar gravadora no Brasil e levar a melhor”, reforça o jornalista de VEJA Sergio Martins, no que é endossado por Dado Villa-Lobos: “Para gravar o nosso primeiro disco foi uma luta. Botamos pra correr quatro produtores. Teve gente querendo que gravássemos um disco de folk. Batemos o pé e só gravamos o que queríamos”.

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“Batemos o pé” é uma generosidade do guitarrista. A voz imponente da banda era mesmo de Renato, que em trocas de bilhetes com o então executivo da EMI, Jorge Davidson, impunha desde a sequência das músicas nos discos até quais deveriam tocar nas rádios. Ele venceu todas as apostas e conquistou uma carta branca da gravadora.

O resultado veio em vendas. Mais de 1.000.000 de cópias no segundo disco, Dois, quando disputava espaço com todos os medalhões da época como Os Paralamas do Sucesso, Titãs e Kid Abelha. No começo dos anos 1990, quando lançou o disco As Quatro Estações, a banda já era a galinha dos ovos de ouro da gravadora.

O vocalista capitalizou inclusive a homossexualidade assumida forçosamente, ao contrário do modo aberto como, por exemplo, Cazuza estampou a sua opção sexual. Em 1994, com The Stonewall Concert Celebration, um disco de standards da música pop americana que fazia menção ao movimento gay de San Francisco, nos Estados Unidos, a questão abriu-se à discussão. A renda do disco foi integralmente voltada para o movimento Ação Pela Cidadania, do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Era o Renato Russo engajado. No ano seguinte, ele lançou o disco Equilíbrio Distante, um apanhado de canções pegajosas em italiano, que invadiu rádios e novelas e o aproximou de mais uma parcela significativa do público até então estranho ao da Legião Urbana. Tudo estava, de certo modo, concentrado na perenidade com que ele era capaz de alimentar o grupo, por vias diretas e indiretas.

Renato Russo foi um fenômeno da música brasileira, dentre outras coisas, porque tinha exata noção de onde queria chegar, do caminho a ser trilhado e da obstinação necessária para tal. Cioso de suas letras, copiando melodias e riffs de bandas inglesas obscuras a que a crítica não tinha acesso, ele era um homem que tratava a música também como um cálculo. Sabia que se começasse o disco com duas canções fortes, precisaria baixar o tom na terceira. Que um refrão curto e pegajoso o dariam cacife para emplacar adiante uma música longa e complexa como Faroeste Caboclo, ou Eduardo e Mônica, completamente fora dos padrões radiofônicos. Seus objetos de estudos eram os discos de rock que tinha em casa. Esmiuçava cada um deles e criava as fórmulas que testou durante 11 anos à frente da Legião.

A troca de bilhetes, argumentos e as disputas não eram tranqüilas, sequer dentro da banda. “Não vou gravar isso aqui, não, hein”, protestou um dos músicos diante de um trecho da letra de Daniel Na Cova dos Leões, que fazia referência velada a sexo oral. Bobagem. Renato realmente comandava o grupo – diz uma língua maldosa da indústria fonográfica da época, que “não era à toa que tinha dois membros bonitinhos e um negro. A formação era perfeita. Ele sobressaía e ainda contemplava as minorias”.

Impossível saber se tanto. Mas não é improvável que, pela maneira como guiou a carreira da banda, se relacionou com o público, dosou o contato com a mídia e controlou a direção artística da banda, a suspeita seja verdade. E comprova o tanto de gênio do último grande ídolo do rock nacional.

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