Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Quadros feitos por pais e filhos vão à exposição em museu da Inglaterra

Em "My Kid Could’ve Done That", artistas irão expor obras feitas com os filhos, refletindo sobre as dificuldades de trabalhar em casa ao lado de crianças

Por Tamara Nassif 2 set 2021, 15h08

Em uma exposição de arte contemporânea, não é raro ouvir o infame comentário “meus filhos poderiam ter feito isso!” quando em frente de uma obra que não exiba a maestria clássica de uma Mona Lisa. Depois de passar grande parte do ano passado trabalhando de casa, o curador de arte Will Cooper decidiu transformar a maledicência na tônica da exposição My Kid Could’ve Done That, em cartaz no museu inglês Holburne a partir de 18 de setembro. A co-curadora da mostra é ninguém menos que sua filha de 5 anos, Astrid, sua parceira de home-office – e que tem um de seus desenhos expostos nas paredes da galeria.

Ao lado do dela, outros quinze artistas foram convidados para expor trabalhos feitos em conjunto com os filhos. Trazer fofura à exposição não é o único objetivo de Cooper: o mote é jogar luz sobre a confusão entre trabalho e lazer, já tão comum em tempos pandêmicos, e as dificuldades de cuidar de uma criança sendo um artista freelancer, bem como explorar as raízes da criatividade familiar. “Não é para ser uma exibição fofa de desenhos em papel que são rapidamente descartados, por mais adoráveis que sejam”, diz Cooper. “É importante tratar essa mostra da mesma forma que trataríamos obras de arte em qualquer exposição, inclusive nas condições do ambiente.”

Astrid Cooper, co-curadora da mostra, e seu autorretrato
Astrid Cooper, co-curadora da mostra aos 5 anos de idade, e seu autorretrato Will Cooper/Arquivo pessoal

O pintor Dickon Drury e o filho Cosmo, por exemplo, estão desenhando juntos em uma grande tela (o pequeno deve usar marcadores coloridos). A gravurista Kate Owens decidiu usar o amor da filha Trudy por labirintos como inspiração para uma nova peça, enquanto o casal Yu-Chen e Andro, com a filha Lilly, planejam uma grande instalação interativa para exibir a fluência em três idiomas da menina de 10 anos. Mas não é só de diversão familiar que se faz a mostra: alguns artistas aproveitaram da oportunidade para exibir as dificuldades de dividir o espaço de trabalho com crianças.

É o caso da escultora e artista de instalações Harriet Bowman, cujo trabalho representa a experiência de compartilhar seu estúdio com o filho Len ao longo dos anos. Ao lado dela durante quatro dias da semana, o menino às vezes assiste a programas infantis por horas a fio enquanto ela trabalha com prazos apertados – uma realidade que a faz, não raramente, se sentir culpada. Junto a cenas de desenhos que Len gosta, ela reuniu em texto uma série de dificuldades que a divisão do espaço trouxe, e a obra deve virar o papel de parede da parte do fundo da galeria. “Lá tem trabalhos quebrados, acessos de raiva, carrinhos de bebê encaixando nos elevadores, reuniões com os seios lactantes manchando a roupa, a impressão do meu plano de parto na fotocopiadora compartilhada”, lista ela.

É claro que, até o dia da inauguração, muitos dos planos artísticos podem mudar – quem tem crianças pequenas em casa sabe bem o que é isso. “Cada visita a estúdios que fiz até agora teve alguma versão da mesma conversa, ‘meu filho está fazendo isso no momento’. É provável que muita coisa mude até o programa ser lançado, então será fascinante ver os resultados”, diz Cooper.

 

Continua após a publicidade
Publicidade