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Polarização leva país ao fundo do poço,, diz documentarista do impeachment

'O Processo', de Maria Augusta Ramos, é exibido no Festival É Tudo Verdade

Por Mariane Morisawa, de Berlim - Atualizado em 18 abr 2018, 18h53 - Publicado em 18 abr 2018, 12h06

Diretora de Justiça (2004) e Juízo (2008), dois documentários sobre o sistema judicial brasileiro, Maria Augusta Ramos viu no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff uma oportunidade de explorar mais uma vez o tema. Sem tempo de conseguir financiamento, ela partiu para Brasília com a cara e a coragem, disposta a registrar o processo tão raro e traumático na história de qualquer país. Achava que ia ficar lá por duas semanas e que as imagens renderiam um curta, no máximo. “Realmente não acreditava que o impeachment passaria”, disse ao site de VEJA durante o Festival de Berlim, em fevereiro, quando O Processo foi o terceiro mais votado pelo público entre os documentários da seção Panorama.

O filme agora estreia no Brasil no Festival É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo, antes de seu lançamento comercial, previsto para maio. O Processo foca os trabalhos da comissão do impeachment e julgamento no Congresso Nacional, com acesso também ao grupo de defesa de Rousseff. A seguir, os principais trechos da entrevista da diretora:

 

Na primeira exibição em Berlim, você falou que fez o filme porque precisava. Como assim? A primeira resposta vem de algo intuitivo. De uma preocupação, de uma angústia de entender o que está se passando no país e, como documentarista, querer documentar isso. É meu trabalho. Eu tinha de fazer, com ou sem dinheiro. Em segundo lugar, fiz vários filmes dentro do universo da Justiça, tentando pensar a sociedade brasileira por meio do que chamo de teatro da Justiça, das instituições. Então isso era um prato cheio. O impeachment é um julgamento. E todas as contradições da sociedade brasileira também estão ali o tempo todo: os pontos de vista, as políticas, as questões econômicas. Queria pensar não só os argumentos, mas também as pessoas, as personalidades, os gestos, as brincadeiras, a maneira de falar. Toda a simbologia.

Você achou que o processo seria rápido? Eu achei que não ia passar. Resolvi documentar, achei que talvez conseguisse fazer um curta, uma coisa de duas semanas. Até um dia antes, eu achava que não passaria. Mas vai ver era uma questão de otimismo meu. Realmente eu não acreditava.

A primeira imagem do filme mostra a torcida pelo impeachment de um lado e a contra o processo do outro, com uma divisão no meio, em frente ao Congresso. Sempre pensou em começar o filme com ela? É a sociedade partida, polarizada. Aquele Fla-Flu, aquele muro que é de uma simbologia enorme. Quando vi a imagem, linda, decidi, logo no início, que seria a abertura do documentário. Aquela imagem foi feita por um amigo, um produtor que já tinha trabalhado comigo e a cedeu para mim. Era tudo o que a gente queria. Ficou claro logo no início da edição que iríamos usar a Câmara dos Deputados, aquele dia específico da votação, só no prólogo, e que o filme iria focar no processo jurídico-político que se deu no Senado, do princípio ao fim, ou seja, até o momento em que Rousseff é removida.

Só para esclarecer, você não conseguiu autorização para filmar na Câmara? Não consegui.

Mas isso não pesou na maneira como o filme seria estruturado? Não tenho como dizer que isso não teve nenhuma influência no documentário. Mas o importante é que ficou claro para mim que queria fazer um filme sobre o processo jurídico-político, que se dava no Senado. Na Câmara, filmei alguns dias, depois não deixaram mais. O Eduardo Cunha era o presidente. Em geral, é a mídia que tem permissão. Para documentário, é preciso pedir uma autorização especial. Eu não consegui entrar para filmar a votação dos deputados, mas a TV Câmara filmou e tenho acesso a esse material. Foi importante também estar do lado de fora para mostrar a reação do público, das duas torcidas divididas pelo muro. Depois consegui aval do Senado, cujo presidente era o Renan Calheiros. Não foi simples, eles não têm uma política para documentários. Mas Renan autorizou, e eu sou grata a ele. Havia senadores que se incomodavam com a nossa presença. Mas sempre fomos respeitados.

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Você disse ter tentado tratar todos os personagens com respeito. No caso da advogada Janaína Paschoal, uma pessoa que provoca reações e que tem uma personalidade exuberante, digamos, como procurou fazer isso? Na sessão em Berlim, muita gente ria nas cenas em que ela aparecia. Filmei a Janaína da mesma forma como filmei senadores e deputados. E sempre naquela situação de Congresso Nacional. Nunca fora. Um exemplo: quando ela se coloca numa oposição ao Lindbergh Farias, eu filmo seu discurso inteiro, na mesma posição da qual capto os outros. Não há sensacionalismo, desejo de fazer mais ou menos dela. E sempre tentei colocar as cenas dentro de uma estrutura formal, de um contexto correto. Não seria certo usar um pouquinho do que ela falou e mais do Lindbergh. Claro que é difícil ser equilibrado. Talvez um outro público se identifique mais com o que ela tenha a dizer do que o público em Berlim. A Janaína Paschoal tem admiradores. As pessoas tiram fotos com ela, se identificam com o que ela diz. Ela é uma figura importante no impeachment, não há dúvida. É carismática e defende as ideias em que acredita. Mas também não posso fazer dela quem ela não é. Nos meus filmes anteriores, também há pessoas de visão conservadora, mas todos são tratados da mesma forma, com respeito, dignidade, tentando humanizá-los. Acho importante humanizar tanto a presidenta Dilma, que foi extremamente desumanizada, como a Janaína Paschoal, como a Gleisi Hoffman, como o Lindbergh Farias, como o Cássio Cunha Lima.

No fim, você teve mais acesso aos bastidores da esquerda, correto? Sim. E talvez exista um desequilíbrio aí. Se tivesse tido mais acesso aos bastidores da direita, teria interesse em ouvi-los, em pensar as estratégias da direita. Acho também que os argumentos pró-impeachment foram extremamente bem divulgados. Então, este filme contribui para um maior equilíbrio, traz outros elementos, uma outra narrativa ou outras narrativas possíveis para que a gente, daqui a um ano, agora ou daqui a cinco ou dez anos possa entender melhor, refletir por que chegou aqui. O que fez a gente chegar onde chegou. Como a gente sai dessa em termos de país. Porque essa polarização está levando todos nós a um fundo do poço, cada vez mais distantes da democracia. E acredito que muita gente que foi a favor do impeachment não quer isso e não está feliz.

 

Exibições no Festival É Tudo Verdade:

Dia 15, às 17h, IMS Paulista

Dia 15, às 20h, IMS Paulista

Dia 17, às 20h30, no Estação Net Botafogo

Dia 18, às 18h, no Estação Net Botafogo

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