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Paul Stanley, do Kiss, se transforma em crooner de soul e R&B

O guitarrista e cantor abandona a maquiagem e o rock pesado para, de cara limpa, dar vazão a um belo e surpreendente disco

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 3 Maio 2021, 11h08 - Publicado em 30 abr 2021, 06h00
VELHO GUERREIRO - Stanley: na maturidade, ele vive uma incrível transformação em cantor de soul e R&B -
VELHO GUERREIRO – Stanley: na maturidade, ele vive uma incrível transformação em cantor de soul e R&B – Reprodução/Instagram

Com sua indefectível estrela preta pintada no rosto e um figurino abusado, o jovem Paul Stanley se transmutava em outra pessoa quando subia ao palco, em meados dos anos 70: era Starchild. Stanley e os amigos Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss — sob os pseudônimos de Demon, Spaceman e Catman, respectivamente — encarnavam os músicos/personagens do Kiss em shows imbatíveis calcados em muita pirotecnia e uma pauleira sonora básica. Mas, quando Stanley chegava em casa, o que saía de seu aparelho de som era bem diferente do som que enfeitiçava multidões pelo mundo. Fã de Otis Redding e Solomon Burke, entre outros astros do soul e R&B, o cantor e guitarrista do Kiss gostava mesmo era de ouvir os hits da mítica gravadora Motown, além de música erudita e ópera. Agora, aos 69 anos, de cara limpa — e com os cabelos levemente grisalhos —, o rock star americano finalmente se libertou do personagem para dar vazão às suas raízes musicais. Em Now and Then, o primeiro álbum do projeto-solo Soul Station, Stanley interpreta standards do cancioneiro americano junto de uma big band com dezessete integrantes. “Cresci ouvindo diversos outros gêneros musicais, que fazem parte de tudo o que sou hoje”, disse o roqueiro a VEJA por videoconferência (leia aqui). “Sempre curti Motown em casa, mas ninguém sabia disso. Para alguns, o novo álbum pode ser uma surpresa. E eu entendo.”

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No novo trabalho, Stanley canta sem esgarçar a voz, como tem feito por quase cinquenta anos no Kiss — e o resultado é afinadíssimo. Além de versões matadoras de hits como Let’s Stay Together, de Al Green, Just My Imagination, dos Temptations, e Ooo Baby Baby, de Smokey Robinson, há espaço para cinco composições próprias que emulam os ritmos dos anos 60. A nova banda conta com o atual baterista do Kiss, Eric Singer, e também com um brasileiro, o guitarrista Rafael “Hoffa” Moreira. Now and Then revela, ainda, outra faceta insuspeita do velho roqueiro: a veia romântica. “Adoro a emoção. Sou um cara apaixonado”, afirma.

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Para quem só conhece o Kiss por suas maquiagens e hits como Rock and Roll All Nite e Strutter, a guinada de seu cantor pode parecer abrupta. Mas o fato é que Stanley já se revelava um roqueiro em lenta e constante mutação ao longo das últimas décadas. As primeiras exibições de inquietude se deram dentro do próprio Kiss. No começo dos anos 80, em crise musical e de egos, o grupo resolveu abolir sua marca visual — o que significou abrir mão de uma das mais eficazes armas de marketing da história do rock, revertida em 100 milhões de discos vendidos. “Fiquei feliz quando tiramos a maquiagem, porque descobrimos que nós éramos tão bons quanto parecíamos. Lotamos todos os shows. Anos depois, quando voltamos aos personagens, soube que não estávamos nos escondendo atrás de nada.”

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PIROTECNIA - Kiss: som pesado e marketing visual -
PIROTECNIA – Kiss: som pesado e marketing visual – Michael Ochs Archives/Getty Images

Em 1999, correndo por fora do Kiss, veio a primeira grande ousadia-solo: ele interpretou durante seis meses, no Canadá, o protagonista do musical O Fantasma da Ópera. No período, o espetáculo faturava 1 milhão de dólares a cada semana. Mais recentemente, lá pelo meio da última década, retomou uma atividade juvenil que se mostraria igualmente lucrativa: a pintura. Sim, o roqueiro do Kiss ataca também de artista plástico. Suas obras multicoloridas retratam ícones como Muhammad Ali, Marilyn Monroe, Jimi Hendrix e ele próprio. É kitsch na veia, naturalmente. Mas as telas já lhe renderam cerca de 10 milhões de dólares. É a versão heavy metal de Romero Britto.

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A reinvenção como crooner não tem a ver só com o desejo de inovar: os tiozões do Kiss pretendem pendurar as chuteiras em breve. “Se tocássemos com jeans e camisetas, poderíamos fazer turnês até os 90 anos. Mas carregamos 20 quilos de figurinos cada um. Em algum ponto vai ficar impossível. Precisamos parar com nosso melhor, maior e mais bombástico show da história”, diz ele. É ver para crer, pois o Kiss há muito virou membro honorário da galeria de bandas do rock devotadas a eternas “turnês de despedida” (a primeira ocorreu ainda nos anos 2000). Stanley informa que, após a pandemia, eles pretendem retomar as apresentações adiadas da turnê End of the Road, inclusive com shows no Brasil — e jura que esse será realmente o último giro da banda pelo mundo. Ainda que Stanley, o linguarudo Simmons e companhia saiam de cena, o Kiss não deverá morrer, se depender deles: tal como numa franquia, outros músicos poderão assumir suas personas um dia. “Seria tolo crer que só eu posso fazer isso. Nunca fomos tão bons quanto somos agora, mas como dizer quem é insubstituível ou não?”, diz Stanley. A estrela do roqueiro não perde o brilho, só se transforma.

Publicado em VEJA de 5 de maio de 2021, edição nº 2736

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