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O papo cabeça de Otto

Músico pernambucano passeia por universos paralelos para explicar seu 6º disco, o ótimo 'The Moon 1111', que lança nesta sexta com show em São Paulo

Por Carol Nogueira 12 out 2012, 10h53

“O caminho é esse. São altos e baixos. O Brasil tem uma geografia variada. Sobe e desce, desce e sobe. Agora eu estou no vale, vou caminhar por ele” (Otto, falando sobre… patrocínio)

Otto não é um cara fácil de entender. Numa conversa simples, sua mente pode divagar de Saramago a Truffaut e amor contemporâneo, de um perfil não nomeado no New York Times ao caminho para a música independente no Brasil. O músico pernambucano, que começou carreira tocando percussão nas bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, relaciona fatos e coincidências aparentemente isolados e pode soar como um maluco beleza quando começa a refletir sobre os caminhos que sua vida e sua música tomou nos últimos anos. Pouco importa, afinal, a coerência verbal que falta a Otto lhe sobra na música. Muitos achavam que ele tivesse atingido o ápice no último disco, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, lançado em 2010. No entanto, o músico surpreendeu novamente, e sai agora com o ainda melhor The Moon 1111, cujo show de lançamento acontece nesta sexta, às 18h, na Praça Victor Civita, em Pinheiros, São Paulo.

Para compor o disco, Otto diz ter se inspirado no cineasta francês François Truffaut (1932-1984) e seu influente filme Fahrenheit 451, lançado em 1966. “Ele viveu com questões sociais e emocionais boas, criou muito bem”, diz o cantor ao site de VEJA. De Truffaut, vieram parte do título e a visão das atrizes dos anos 1960 que lhe lembraram a brasileira Tainá Muller, convidada para uma participação na faixa Ela Falava. Depois, foi a vez de uma coincidência – ou, para alguns, algo mais que isso – fazer o resto. “Eu sempre via no relógio 11h11, até que um amigo comentou que tinham sites na internet falando sobre isso”, conta, em referência às crenças místicas relacionadas à sincronia numérica.

No novo disco, Otto também recupera as influências eletrônicas que havia aplicado em seu primeiro álbum, o elogiado Samba pra Burro, de 1998. “São minhas influências dos anos 1980, The Smiths, Talking Heads, The Cure, Depeche Mode… São bandas que eu ouvia e que voltei a escutar há pouco tempo”, diz. Entraram ainda na mistura o som de Fela Kuti e de Pink Floyd – segundo Otto, representado nas guitarras de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, um dos colaboradores de The Moon 1111, que teve ainda produção de Pupillo, baterista da Nação Zumbi que já havia coproduzido Certa Manhã...

Leia abaixo a entrevista com o cantor Otto, no melhor momento papo cabeça. Ou cabeção.

Quais são as influências do disco? É um processo que não é sistemático, mas ele já opera na minha mente uma coisa de criar, de burilar, de colocar o título antes. Eu tenho essa mania do português, o escritor… Saramago. De colocar título antes. Então, coloquei um título bem assim, de Truffaut. Primeiro vem o 1111, que eram números que vinham me acompanhando. Eu pegava o relógio e era sempre 11h11. Alguém me falou: “Você nunca viu aquelas coisas do portal 11h11?”. E eu entrei lá e não li duas páginas, mas vi que tinha alguma coisa em relação aos binários, uma nova concepção de mundo… Eu acho isso super relevante, abrir portas, sabe? O disco tem esse fundamento. Aí, depois eu fui ver o Truffaut e falei: “Esse é um cara que viveu com questões sociais e emocionais boas, que criou muito bem”. Comecei a me inspirar nos filmes dele, no Fahrenheit 451, aí encontrei o título lá dentro, era The Moon e um número, daí eu botei o 1111. O disco tem Fela Kuti, Pink Floyd… Eu fui me guiando por coisas que eu gosto. A criação é boa quando ela é feita à vontade, quando você solta as rédeas. E, quando você ouve, é um disco homogêneo, é o que eu queria.

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Como você traduziu a influência do Truffaut para a música? É um amor contemporâneo. É o futuro de Truffaut, a estação, a cidade… É falar de um futuro palpável, depois da internet. Se você for ver no filme Os Homens que Não Amavam as Mulheres, todas as mulheres com quem o personagem se relacionava eram contemporâneas. É mais duro num sentido, mas é mais cool, mais maleável, no outro. Todo mundo que se preza tem a arte como reserva de sabedoria.

O disco é bastante eletrônico, né? De onde veio isso? Eu comecei a entrar nesse terreno. São minhas influências dos anos 1980, The Smiths, Talking Heads, The Cure, Depeche Mode… São bandas que eu ouvia e que voltei a escutar. O Pupillo é um super baterista, ele sabe tocar de tudo. Quando faz batidas eletrônicas, traz um talento que só aumenta. Talvez no próximo disco, Ottomatopeia, venha mais (eletrônica).

Qual sua ideia para o Ottomatopeia? Eu tento fazer coisas esquematizadas, tento pensar no título e ir atrás dele. Eu sei que vai ser um disco com pouca percussão. Talvez seja mais futurista. Eu estou começando a desenvolver isso. Está cheirando a eletrônica. Mais sintetizadores, mais space, mais futuro.

Seu disco anterior era mais pessoal. Até onde esse é autobiográfico? Todo meu trabalho tem sua biografia, sua melancolia. A diferença desse é que o outro deu esse. É sempre o último que dá o primeiro. Eu não mudaria as questões que eu tinha naquela época para virar essas aqui. É uma sequência da minha vida, é o momento. E tem muita coisa dos outros também, pessoas e coisas que refletem. Acho que o mundo está mudando e eu também, a gente muda tudo junto, o céu está mudando, a natureza, e acho que a diferença é que um puxa o outro. A sintonia é essa, a diferença é que um estava mais sofrido, mais engasgado, e esse está mais frouxo.

Você tinha lançado o outro de maneira independente, depois de brigar com sua gravadora. Como foi lançar esse, com ajuda de uma grande empresa? Só tem três perfis do Brasil no New York Times (um deles é de Otto), e foi graças a essa independência desse disco. Chegou por outras formas o reconhecimento, as parcerias. É sempre assim. Tudo é um caminho.

Hoje em dia tem muita gente que opta por esse caminho… O caminho é esse. São altos e baixos. O Brasil tem uma geografia variada. Sobe e desce, desce e sobe. Agora eu estou no vale, vou caminhar por ele.

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