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‘O jornalismo investigativo está morrendo’, diz diretor de ‘Spotlight’

Com seis indicações ao Oscar, filme dirigido por Tom McCarthy exalta a relevância da profissão e alerta para sua decadência. ‘Seria maravilhoso se as pessoas percebessem que essa instituição está sendo dizimada’, diz o cineasta ao site de VEJA

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles 17 jan 2016, 19h12

Em 1976, o filme Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, cravou seu lugar entre os grandes clássicos do cinema sobre jornalismo. Ganhador de quatro estatuetas no Oscar, o longa acompanha a reportagem de Carl Bernstein e Bob Woodward, do jornal The Washington Post, sobre o escândalo político de Watergate, que terminou com a renúncia do presidente Richard Nixon. Desde então, poucos filmes com a imprensa como tema foram tão relevantes a ponto de figurar entre os indicados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Por isso Spotlight: Segredos Revelados se destaca entre os indicados ao Oscar de 2016.

O longa filia-se à melhor tradição dos filmes sobre jornalismo e é o primeiro sobre o assunto, durante os anos 2000, a ser tão bem colocado na premiação da Academia, com seis indicações, entre elas de melhor filme e diretor para Tom McCarthy. Verdade que produções como Frost/Nixon (2008) e Boa Noite e Boa Sorte (2005) também foram bem na premiação, porém ambas mostram o trabalho de exímios entrevistadores, que conseguem informações privilegiadas. Não é o caso de Spotlight.

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O filme de McCarthy segue o passo a passo do extenuante trabalho da equipe do jornal The Boston Globe chamada “Spotlight”, dedicada a investigações longas, que podem durar meses ou até anos – luxo que poucas publicações no mundo ainda conseguem sustentar. Em 2001, um novo diretor de redação assumiu o comando do jornal. Martin Baron (Liev Schreiber, da série Ray Donovan), que vinha de experiências no Miami Herald, Los Angeles Times e The New York Times, foi quem sugeriu que o time fosse mais fundo na denúncia contra o Padre John Geoghan.

Judeu, de fora de Boston, uma cidade fortemente católica, Baron não temia o poder da Igreja Católica. O editor Ben Bradlee Jr. (John Slattery, de Mad Men) – filho de Ben Bradlee, editor do Washington Post na época de Watergate – apoiou, e a equipe liderada por Walter Robinson (Michael Keaton) e composta por Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) começou a escarafunchar o assunto. Logo, descobriram que não se tratava de apenas um padre, mas dezenas, e que havia um sistema de acobertamento dos casos. Os ataques terroristas de 11 de setembro atrasaram a publicação da reportagem, que acabou sendo editada em várias partes em 2002. A partir dali, revelaram-se centenas de outros casos de abuso sexual na Igreja Católica, no mundo todo. Em 2003, o conjunto de reportagens ganhou o Pulitzer.

Em entrevista ao site de VEJA, o diretor do longa afirma ter esperança de que mais pessoas que virem o filme contem suas histórias. “O cinema é poderoso”, diz. Além da nobreza de dar voz a possíveis vítimas, McCarthy também quer que o longa celebre a importância do jornalismo, profissão afetada (para o bem e para o mal) por inovações tecnológicas e pelo imediatismo que a internet propicia.

“O jornalismo investigativo está morrendo. Seria maravilhoso se as pessoas percebessem que essa instituição está sendo dizimada. E que comecem a pensar por que isso está acontecendo e quão importante o jornalismo é para todos nós”, diz o cineasta. “Falamos com muitos consultores sobre o estado da profissão hoje em dia, mas nossa decisão foi não incluir isso no filme. E que o melhor seria mostrar um grande caso de investigação, um bom exemplo”, conta. Na trama, apenas um rápido momento mostra outro drama vivido pelos jornalistas, o receio de serem alvo de demissões, realidade de redações cada vez mais enxutas.

O ator John Slattery faz coro com o diretor. “O jornalismo descobre conspirações, instituições que estão levando vantagem sobre as pessoas. Se não temos isso, nossa sociedade sofre”, diz. “O imediatismo da internet não afeta apenas o jornalismo. Tudo é imediato: é bom ou ruim, polegar para cima ou para baixo. Isso não é jornalismo. É só opinião. Como dá para publicar, as pessoas acham que são escritoras. Mas há uma diferença entre isso e o jornalismo. É o que o filme mostra.”

A arte imita a vida – Um dos trunfos de Spotlight é que o ritmo da investigação foi respeitado, sem que se torne tedioso para o espectador. Cada personagem tem sua importância – tanto que os produtores decidiram inscrever todos os atores como secundários, em vez de destacar algum como protagonista. Por isso, entre os indicados ao Oscar, Mark Ruffalo e Rachel McAdams figuram nas categorias de ator e atriz coadjuvante.

“Nossa ideia era que fosse um filme de conjunto. Foi um desafio”, diz McCarthy. “O longa tem seu ritmo particular. É meu estilo. Todo o mundo acha que meus filmes começam devagar. Eu gosto porque acho que dá tempo ao público de respirar e se conectar. Acho que vale a pena. O ritmo contribuiu para o mostrar com realismo a engrenagem de uma investigação, mas, como pulávamos de um personagem para outro, há muita energia.”

Uma das preocupações do diretor e roteirista, junto com seu parceiro de trabalho Josh Singer, era tentar evitar os momentos grandiosos, de cinema, para focar nas descobertas diárias e no investimento árduo dos repórteres. “Queríamos algo sem adornos”, afirmou. “Nossa abordagem inicial era: vamos fazer este filme para os jornalistas. Se eles assistirem e disserem: ‘é isso o que fazemos, é o que somos’, seremos bem-sucedidos. Não é um trabalho tão romântico. É duro, não é colarinho branco.”

Os atores tiveram a chance de passar algum tempo com as pessoas que interpretaram. O editor Ben Bradlee Jr., por exemplo, foi uma espécie de consultor de Spotlight. “Ele apoiou tanto que não me senti pressionado ao interpretá-lo, mesmo quando ele estava no set me vendo”, conta Slattery. Mas sua ideia não foi fazer uma imitação. “Nossa intenção era mostrar como eles agiam ao apurar a história, não tanto como se moviam, esse tipo de coisa.” O ator, que foi criado católico em Boston e chegou a ser coroinha, não tinha ideia da dimensão do escândalo da igreja. “Todo o mundo tinha ouvido rumores. Mas era uma coisa aqui, outra acolá.”

Liev Schreiber confessou ter ficado intimidado antes de conhecer Martin Baron. “Ouvi tantas coisas sobre ele antes de encontrá-lo: sobre como era inescrutável, intenso, não demonstrava emoção. E quando eu o conheci, ele foi incrivelmente generoso”, conta o ator. “Mas vi logo que ele estava incomodado, pensando qual era a coisa certa a fazer com aquele ator sentado na sua frente. Percebi que, no fim, enxergou o potencial do filme e quis ajudar o máximo possível na esperança de que ele pudesse articular algo sobre a importância do jornalismo investigativo.” Schreiber já tinha certa familiaridade com a questão do abuso sexual por padres por seu trabalho como Ray Donovan, protagonista da série de mesmo nome, exibida no Brasil pela HBO. O personagem é de Boston e sofreu abuso de um padre quando criança. “Como ator, fui capaz de fazer justiça a meu personagem.”

Quem assiste ao filme percebe que o roteiro tenta separar o escândalo da instituição e a fé de seus frequentadores. Em diversos momentos, vítimas que são entrevistadas pelos jornalistas narram como elas se esforçam para manter sua espiritualidade e desassociar a imagem de Deus e dos padres pedófilos.

O diretor, criado católico, é pessimista em relação a sua religião, porém acredita que o Papa Francisco tem feito progressos. “Mas ele está recebendo muitas críticas. Muitos cardeais e bispos americanos estão falando contra. Para mim esse é o problema. Não sei se este único homem bondoso e amável da Argentina pode mudar isso. Não sei se vejo a Igreja Católica se transformando. As pessoas me perguntam qual vai ser a resposta da Igreja em relação ao filme. E eu digo: zero. Zero.”

Em compensação, a resposta da Academia de Hollywood foi muito boa. Apesar de O Regresso, filme de Alejandro G. Iñárritu, e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, serem líderes em número de indicações ao Oscar, Spotlight continua no páreo como um dos favoritos ao prêmio principal da noite. Se assim for, a vitória não será imerecida.

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‘Todos os Homens do Presidente’ (1976)

O clássico dos clássicos do jornalismo investigativo no cinema, dirigido por Alan J. Pakula, mostra o trabalho dos repórteres Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) na revelação dos detalhes do caso Watergate, que terminou com a renúncia do presidente Richard Nixon. 

‘O Custo da Coragem’ (2003)

Joel Schumacher dirige esta produção sobre a história real e trágica da repórter do jornal Sunday Independent Veronica Guerin (Cate Blanchett). Ela mergulhou no universo do tráfico de drogas em Dublin, que ameaçava a juventude de famílias trabalhadoras da cidade.  

‘Zodíaco’ (2007)

No filme de David Fincher, o repórter Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o cartunista do jornal San Francisco Chronicle Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), transformado em investigador, tentam desvendar o caso do serial killer que aterrorizou a cidade nas décadas de 1960 e 1970. 

‘Intrigas de Estado’ (2009)

Nesta trama ficcional de Kevin Macdonald, Russell Crowe é o repórter Cal McAffrey, que, apoiado pela jornalista Della Frye (Rachel McAdams) e a editora Cameron Lynne (Helen Mirren), investiga a morte suspeita da amante de um membro do Congresso (Ben Affleck) e uma empresa privada com atuação polêmica.

‘O Mensageiro’ (2014)

O filme acompanha parte da vida do jornalista Gary Webb (vivido por Jeremy Renner), que em 1996 descobriu o envolvimento da CIA com os Contras da Nicarágua e o tráfico de cocaína, que defenestrou uma epidemia da droga nos Estados Unidos na década de 1980. Webb decide publicar a história e se torna alvo da agência de segurança, que lança uma campanha de difamação contra o jornalista e o seu jornal, o pequeno San Jose Mercury-News.

‘Conspiração e Poder’ (2015)

Roteirista de Zodíaco, James Vanderbilt estreou na direção com este longa ainda inédito no Brasil. Robert Redford é o apresentador Dan Rather, e Cate Blanchett vive Mary Mapes, produtora do programa 60 Minutos, em 2004. Os dois fazem uma controversa reportagem sobre os buracos no serviço militar do então presidente George W. Bush. 

‘Spotlight – Segredos Revelados’ (2015)

O filme acompanha a equipe do setor Spotlight, formada por quatro jornalistas que trabalham em um esquema sigiloso, com a tarefa de investigar casos cabeludos, com o tempo que for necessário, para o jornal americano The Boston Globe. Eles começam a analisar o caso de um padre que teria molestado mais de 80 meninos entre os anos 1970 e 80. Ao longo da apuração, a equipe descobre que o caso aparentemente isolado se revela uma indústria, com centenas de vítimas e cerca de 90 padres envolvidos, apenas em Boston.

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