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Mostra de Tarsila do Amaral prova que brasileiro gosta, sim, de cultura

O recorde de visitação alcançado pela fenomenal retrospectiva no Masp atesta que a artista é um fetiche sem rival no país

Por Marcelo Marthe Atualizado em 29 jul 2019, 15h20 - Publicado em 26 jul 2019, 07h00

Criado por Tarsila do Amaral em janeiro de 1928, o quadro Abaporu teve uma cerimônia de batismo eternizada no anedotário do modernismo brasileiro. Ao trazer ao mundo aquela insólita figura humana de corpo alongado, cabeça minúscula e pés gigantes, a pintora reuniu-se com os escritores Oswald de Andrade — então seu marido — e Raul Bopp para bolar um nome. O título que inspiraria o Movimento Antropofágico veio do tupi-­guarani: Abaporu significa “homem que come gente”. Nas últimas semanas da retrospectiva de Tarsila em cartaz no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, ocorre uma notável inversão: muita gente quer é comer com os olhos a mais famosa obra brasileira.

Desde abril, a mostra foi vista por mais de 350 000 pessoas. Só na terça-­feira 23, dia da semana em que a entrada no museu é gratuita, foram 8 818 espectadores, recorde de visitação do Masp em um único dia. A seguir assim, até domingo 28, quando Tarsila Popular se encerra, serão superados os 401 000 visitantes que acorreram ao museu paulistano nos anos 90 para ver o impressionista francês Claude Monet. “A expectativa é que Tarsila ultrapasse esse número, tornando-se nossa mostra mais vista”, diz Heitor Martins, diretor-presidente da instituição.

A repercussão da mostra comprova a posição única de Tarsila do Amaral na arte nacional. Mas não só. Tarsila — que enfrentou o desdém sexista ao longo da carreira — encaixa-se com perfeição no espírito da era da afirmação feminina. Sua obra também passou por um processo de revalorização impressionante nos últimos anos. Entre 2017 e 2018, a artista ganhou retrospectivas de peso em instituições prestigiosas como o Art Institute of Chicago e o MoMA de Nova York. Após a exposição, o museu nova-iorquino anunciou a aquisição de A Lua — pintado depois do Abaporu, também em 1928 — por 20 milhões de dólares. É o maior valor já pago por um quadro brasileiro (sabe-se que a bufunfa foi para a conta bancária da família de um colecionador carioca).

Num momento em que se questiona o uso de recursos públicos para financiar a cultura, a mostra é a prova de que — ao menos no campo dos museus — o gasto compensa. A maior parte de seu orçamento de 4 milhões de reais vem da Lei Rouanet. “O brasileiro tem sede de cultura. E é simbólico que uma artista nacional traga esse recorde de público”, diz Martins. Se Tarsila se revela sem rival entre seus pares no país como chamariz popular, também é fato que sua obra mais famosa tem parte considerável nisso. O Abaporu passou a despertar ainda mais interesse após ser arrematado pelo argentino Eduardo Costantini em 1995 por 2,5 milhões de dólares, em valores atualizados. Transferida para Buenos Aires, a obra é festejada a cada vinda esporádica ao Brasil (a última exibição em São Paulo ocorrera em 2008). “Abaporu é um fetiche”, diz o especialista Marcello Dantas. O Masp teve de estender seus horários para atender milhares de pessoas que aguardavam por até cinco horas na fila para ver o quadro. Diante da tela, o público se estapeia para fazer a selfie perfeita. Se não dá para comer, que pelo menos se devore a criação de Tarsila com a câmera do smartphone.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2019, edição nº 26451

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