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Morto há 40 anos, Bob Marley é eterno produto de exportação da Jamaica

Cantor foi maior responsável pela transformação do reggae em arma de "soft power" da ilha caribenha, tal e qual Tom Jobim fez com a bossa nova para o Brasil

Por Felipe Branco Cruz 11 Maio 2021, 10h47

Há quarenta anos, já desenganado pelos médicos, Bob Marley retornava da Alemanha para a Jamaica para passar seus últimos dias com a família. Não deu tempo. No trajeto de volta ao lar, ele foi internado às pressas em um hospital de Miami, e morreu em 11 de maio de 1981, aos 36 anos, em decorrência de um câncer, deixando um legado na música que transcendeu seu país de origem: tornou-se ele próprio a melhor tradução da Jamaica, do reggae e da religião rastafári. 

Com suas letras sobre paz, igualdade social, preservação do meio ambiente e amor, Marley vendeu mais de 200 milhões de álbuns em todo o mundo. Virou o principal produto de exportação da Jamaica – até então, apenas uma ex-colônia do Reino Unido que havia recém-conquistado sua independência e buscava desenvolver sua própria cultura nacional. Mal comparando, a importância de Bob Marley para a divulgação da imagem da Jamaica no exterior é semelhante ao que Tom Jobim e a Bossa Nova fizeram pelo Brasil. Ambos os gêneros musicais são tocados e reconhecidos em praticamente qualquer lugar do mundo, e ajudaram seus países a propagar seu tão falado “soft power”.

O caldo cultural em que o inventor desse soft power se forjou veio de Trenchtown, a maior favela de Kingston, na capital do país. Abandonado pelo pai, um homem branco e capitão do exército inglês, ele foi criado por sua mãe, uma mulher negra e pobre. Por ser mulato, não era nem aceito pelos brancos nem pelos negros na adolescência. Nas vielas da favela, Marley ouvia nas rádios as músicas de Ray Charles, Fats Domino e Brook Benton, que foram muito importante em sua formação musical. O tempero que faltava nessa mistura veio dos amigos Bunny Wailer e Peter Tosh, que ele conheceu em Trenchtown. Anos depois, os três ajudariam a criar o reggae, uma mistura do R&B americano com o ska, um ritmo caribenho descendente do calipso.

Bob Marley durante show no teatro Rainbow em Londres, 1977
Bob Marley durante show no teatro Rainbow em Londres, 1977 Graham Wiltshire/Redferns/Getty Images/VEJA

Com uma batida cativante, por vezes sensual, o reggae misturava também elementos da religião rastafári, surgido no país nos anos 1930, entre os descendentes dos negros escravizados. Essa alquimia musical e religiosa se revelou perfeita para ganhar os ouvidos e mentes das pessoas em todo o mundo. Mas as diversas regras da religião, que definem desde o tipo de comida e bebida permitidas para o consumo, inclusive a maconha, até a crença de que o corpo é um templo, ironicamente foram indiretamente responsáveis pela piora do estado de saúde do artista. Orientado pelos médicos a amputar o dedão do pé, parte do organismo em que o câncer surgiu (era uma espécie de melanoma), ele se negou a fazê-lo em razão da crença rastafári de que é proibido modificar o corpo. 

A força do soft power jamaicano se revelou em outro aspecto: o reggae se transformou em uma influência irresistível para os músicos do mundo todo – inclusive no Brasil. Gilberto Gil foi um dos grandes responsáveis por introduzir o ritmo no país. Ele conheceu o reggae quando viveu no exílio na Inglaterra, nos anos 1970, durante a Ditadura Militar. Mais recentemente, o governo brasileiro transformou a data da morte de Bob Marley no Dia Nacional do Reggae. Ironicamente, a família de Bob Marley prefere não celebrar efeméride da morte do artista e não preparou nenhuma homenagem neste ano. As celebrações à memória de Bob Marley ocorreram no ano passado, quando ele completaria 75 anos, com lançamentos de livros, álbuns, documentários e um show tributo. Mas sempre é válido festejar o furacão jamaicano.

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