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‘Mad Men’ dá adeus com seu lugar garantido na história

Saga do torturado e charmoso Don Draper se despede depois de tecer um amplo e humano painel das transformações vividas pelos EUA -- e o mundo -- nos anos 1960 e sedimentar o caminho para outras grandes produções na TV

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles 5 abr 2015, 19h50

A exibição dos sete episódios finais de Mad Men, a partir das 21h desta segunda-feira, dia 6, na HBO, marca “o fim de uma era”, como anuncia nos Estados Unidos a campanha publicitária da série quatro vezes campeã do Emmy de melhor drama, de 2008 a 2011. Termina não apenas uma era para Don Draper, o publicitário bonitão e cafajeste vivido com louvor por um ator a quem ninguém dava atenção antes da série, o americano Jon Hamm. Mas também para a própria TV. Sucessora de Os Sopranos, encerrada cerca de um mês antes de sua estreia, em julho de 2007, Mad Men foi essencial para que a televisão consolidasse a fase de ouro que vem vivendo. E para colocar no mapa o canal americano AMC, que desembarcou no Brasil na última quarta-feira, via Sky. Até a saga do publicitário Don Draper (Jon Hamm), o canal era endereço de filmes antigos. Depois do anti-herói, o AMC se tornou plataforma de grandes séries: Breaking Bad (2008-2013) e The Walking Dead (ainda em exibição) surgiriam ali.

O sucesso de Mad Men se mede não apenas pelo caminho que ela sedimentou para outras produções na TV. A história que se passa na Nova York dos anos 1960 se converteu em verdadeiro fenômeno pop ao trazer de volta as gravatas finas e os móveis de design escandinavo daquela década. Por pouco, não fez retornar também o hábito de tomar uísque no escritório às dez da manhã. Sua despedida, por isso, está sendo feita em grande estilo, com exposições, doação de peças de figurino e objetos de cena a museus e debates com a presença de seu criador, Matthew Weiner.

Desfecho da sinuosa trajetória de um publicitário torturado pelo passado, os sete últimos capítulos da sétima temporada estão sendo guardados como segredo de Estado desde a sua gravação, encerrada em julho de 2014. A sétima temporada, vale lembrar, foi dividida em duas partes, a primeira delas exibida entre abril e maio do ano passado. Em encontro com a imprensa em Los Angeles, Matthew Weiner pediu aos jornalistas que tiveram acesso ao oitavo episódio, o primeiro dessa derradeira leva, para não estragar as surpresas para o espectador. É possível dizer, no entanto, que ele começa com Don Draper a pleno vapor, de volta à agência, agora uma subsidiaria da McCann Erickson, fazendo o casting de um comercial de casacos de pele, o artigo que ele vendia quando conheceu Roger Sterling (John Slattery). Roger foi o primeiro a dar a Don uma oportunidade como publicitário, contratando-o para a Sterling Cooper.

Mad Men tem como cenário o mundo da publicidade. “Mad”, que pode significar “louco”, é uma abreviação de Madison Avenue, em Nova York, onde se concentravam as agências na época. Seu protagonista, Don Draper, é encarnação do sonho americano: passou a infância pobre em um prostíbulo e se tornou, na vida adulta, diretor de criação de uma grande agência em Nova York. Draper esconde as origens humildes e o nome verdadeiro, Dick Whitman. Durante a Guerra da Coreia, foi confundido com outro soldado, morto em combate, e, ao ver uma chance de apagar o passado e recriar a si mesmo, no que pode ser considerada a melhor campanha publicitária de sua vida, assumiu nova identidade. Aos poucos, aparecem rachaduras nessa fachada aparentemente perfeita. A primeira baixa é na família com cara de comercial de margarina, formada com Betty (January Jones), com quem tem três filhos. O rompimento não vem por causa dos inúmeros casos extraconjugais que Don mantém na cidade, e sim quando ela descobre as suas mentiras sobre o passado. “A vida dele se transformou em uma fraude, mas, além disso, Don perdeu a classe, que é algo muito importante para Betty. Ela descobre que ele vem de classe social diferente”, disse Weiner.

“A minha esperança era de que Don encontrasse paz”, disse Jon Hamm à imprensa internacional reunida em Los Angeles, sem, como pediu Matthew Weiner, estragar a surpresa dos episódios que estão por vir. “Ele não teve muita na vida. Tentou construir uma casa, ou várias casas, sobre uma fundação nada sólida. Espero que consiga construir uma nova fundação. Vamos descobrir agora o quanto ele leva a sério seu compromisso de consertar as coisas.” O criador, como para se justificar, prometeu satisfação. “Acho que ninguém vai ficar desapontado.”

https://youtube.com/watch?v=G564hU4UKMo

​A história como personagem – Ao mergulhar nos anos 1960, uma década de profundas mudanças culturais, o produtor fez pensar nos avanços que vieram desde então – mas também ergueu um espelho onde a sociedade de hoje pode se mirar com certo desconforto. Temas como as diferenças sociais, o sexismo e o racismo entraram novamente em pauta. “As coisas se transformaram após os anos 1960 e depois se transformaram de novo”, disse Weiner. “Não vou me congratular, mas tenho certeza de que o show ajudou na retomada da discussão americana sobre machismo e racismo, ou coincidiu com ela. Porque ninguém estava falando sobre isso. E aí percebemos que nada tinha mudado, ainda que houvesse leis.”

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Severance (“rompimento”), o oitavo episódio, mostra bem isso: Joan (Christina Hendricks), dona de um corpo curvilíneo, é mais uma vez vítima de comentários maliciosos explícitos, que mais tarde renderão uma discussão com Peggy (Elisabeth Moss). Christina sabe bem como pouca coisa mudou. “Tive umas três conversas na semana passada em que as pessoas falavam de como os homens fazem comentários desse tipo sobre mulheres – embora, às vezes, não na frente delas. Essas coisas ainda existem”, disse, no encontro com a imprensa.

Joan e Peggy são exemplos das pioneiras que conseguiram deixar as posições reservadas às mulheres – secretária, enfermeira, professora ­- para conquistar outros espaços em um mercado profissional eminentemente masculino. Enquanto elas se transformam, os homens continuam mais ou menos os mesmos, especialmente o protagonista, que não consegue se livrar do passado e por isso é incapaz de viver plenamente o presente. Os anos 1960 foram uma década de novidades praticamente diárias, em que a Guerra do Vietnã matou milhares e dividiu os Estados Unidos, a luta pelos direitos civis pegou fogo, John Kennedy foi eleito e assassinado, assim como Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, e o homem chegou à Lua. É a época do rock’n’roll e do nascimento da cultura jovem. “Fomos o primeiro seriado a dramatizar essa época sem ser um guia de viagem, uma coisa meio: ‘Ah, olha os hippies, que engraçados’. Dois terços dos anos 1960 aconteceram antes do verão do amor. Tentamos retratar um mundo que mudava todo dia”, disse Hamm. “E no meio dessa mudança toda, há essa figura cinzenta e solitária que não mudou desde a primeira temporada.”

Mad Men não temeu expor todas as facetas de seus personagens, inclusive as mais feias. O Pete Campbell de Vincent Kartheiser é um dos campeões na linha “gente que amamos odiar”. “Eu gosto dele. Acho que a vontade de socar a sua cara tem menos a ver com suas atitudes e mais com a sua cara mesmo. Don Draper fez coisas tão ruins ou piores. Mas é mais fácil para as pessoas bonitas”, disse o ator, modesto. Para January Jones, é isso que faz com que as pessoas se identifiquem com a série. “Se Matthew Weiner tivesse criado esses personagens em uma época diferente ou mesmo hoje em dia, não faria diferença – talvez só não fosse visualmente tão impactante. A força de Mad Men vem dos personagens e de como são bem desenvolvidos, complicados, horríveis às vezes, humanos. Por isso as pessoas se identificam.”

Início difícil – Apesar de todo o sucesso alcançado, o caminho para colocar a série no ar não foi suave. Matthew Weiner penou para conseguir vender a história de Don Draper. Por isso Mad Men foi parar no AMC, que não tinha tradição de produzir conteúdo próprio. Ninguém, a não ser eles, acreditava que uma série de época poderia dar certo. Hoje, a televisão está repleta delas: Masters of Sex, The Americans, Halt and Catch Fire, Downton Abbey. “Acho que provamos que dramas de época poderiam ser feitos com um orçamento razoável. E que o público tinha apetite para esse tipo de programa”, disse Weiner. A imprensa ajudou um bocado, e tanto Weiner quanto Hamm agradeceram o apoio dos jornalistas – a crítica foi fundamental para atrair público para a série. January Jones contou que teve noção de que Mad Men havia se tornado um fenômeno quando uma mulher pediu “as unhas de Betty” para a manicure, sem saber que a atriz estava ao seu lado. Christina Hendricks percebeu que a palavra “mad” começou a pipocar nos títulos de várias reportagens de revistas, mesmo sobre outros assuntos. A prova definitiva veio com a sátira feita pelo programa de humor Saturday Night Live.

O elenco falou com carinho da sua convivência. Christina Hendricks se lembrou de ficar batendo papo com Jon Hamm logo depois da primeira leitura de mesa dos atores. January Jones contou que ninguém ficava em seus trailers, por serem pequenos, “a não ser o de Jon Hamm”. “Mas ele também não ficava lá escondido.” Um espaço comunitário foi criado, onde todos os que não estavam gravando passavam o tempo com jogos de tabuleiro, os filhos e animais que levavam ao set. Foi também ali que aconteceu a festa de despedida, com lágrimas, abraços, música e champanhe. “Ficamos até quatro ou cinco da manhã, porque ninguém queria ir embora”, disse January Jones. Ela admitiu que tentou errar algumas de suas falas apenas para prolongar a experiência de viver Betty. Para Jon Hamm, sua última cena – e a última cena gravada de Mad Men – foi emocionante e deu início a um luto que durou meses. “Concluímos as filmagens em julho do ano passado e tivemos um bom tempo para processar o fim. Certamente, essa é a experiência criativa mais relevante da minha carreira, e sempre vai ser, a não ser, claro, que eu consiga fazer algo tão incrível por outros nove anos, o que não acho que vá acontecer”, contou Hamm, bem-humorado até citar a cena final. “Levantei os olhos e todo o mundo estava lá, umas duzentas pessoas do elenco e da equipe, batendo palmas, comemorando e chorando”, disse. Era mesmo o fim de uma era.

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